Celebração da fraternidade: o ágape e a mhamba, da graça à salvação*

21 Mai 19Entre Margens, Últimas

O ágape, termo imbuído de múltiplos significados, celebra o amor para com Deus e para com o ser humano. Esta definição inicial é a que inspirou o presente texto, no qual abordarei o mhamba, um ritual bantu de celebração da memória de um ente querido, também com diferentes funções e significados. Utilizei exemplos desse evento, a partir da perspectiva dos bitonga, povo de Inhambane, Sul de Moçambique.

Ao relacionar o ágape ao mhamba, faço-o, com recurso à ideia de que as pessoas com fé e tementes a Deus tendem sempre a tentar agradar-Lhe, ensina-nos o Salmo 111:10. Isto tanto acontece na tradição Católica Apostólica, quanto na Cultura e Religião Bantu (CRB), acrescentando o facto de que, na CRB, agradar a Deus passa também por agradar aos antepassados. Os bantu são tementes a Deus e a alguns dos seus antepassados, cuja função é interceder por si perante Ele. Será na base da ideia de se agradar a Deus e aos antepassados que falarei sobre o mhamba, que em alguns aspectos lembra o ágape, imensamente disseminado pelo cristianismo, na acepção já referida.

É status quo para os tementes a Deus, que Ele os ama, criou o céu, a terra e as pessoas à sua imagem e semelhança, devendo, por isso ser gratos e praticar boas acções em Seu nome, amando-se a si próprios e amando-se uns aos outros. Isto é válido em qualquer cultura e religião. Válidos, para todos, são também os mandamentos da Lei de Deus, escritos nos catecismos do cristianismo e, embora não escritos, na CRB, fazem parte dos seus preceitos culturais.

Se,  por um lado, no cristianismo, os “Dez Mandamentos da Lei de Deus” preconizam: 1. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; 2. Não invocar o nome de Deus em vão; 3. Santificar os domingos e festas de guarda; 4. Honrar pai e mãe e outros legítimos superiores; 5. Não matar; 6. Guardar castidade nas palavras e nas ordens; 7. Não roubar; 8. Não mentir; 9. Não desejar a mulher do próximo; 10. Não cobiçar as coisas alheias; por outro, na CRB ou nas sociedades bantu e no caso vertente, na cultura bitonga, o mesmo acontece, ou seja:

Aprende-se que: 1. Deus é um ente superior a todas as coisas, criou o céu, a terra, os seres humanos e os animais; 2. Não se invocam os nomes dos antepassados (os que se situam na categoria de deuses) à toa; 3.  Há mhambas que devem ser santificadas e celebradas em honra dos que morreram; 4. Deve-se sempre e em qualquer circunstância honrar os mais velhos; 5. Não se deve matar; 6. Deve-se guardar castidade em preceituados momentos da vida; 7. O roubo é condenado; 8. A mentira é condenada; 9. É desabonada a cobiça à mulher do próximo; 10. É desabonada a cobiça de coisas alheias.

A castidade referida em 6, nas culturas bantu, não se cinge apenas à questão da virgindade, esta que é preservada e que até é um assunto público, uma vez que, se uma noiva não se casa virgem, em momento próprio e com o devido simbolismo, a questão torna-se conhecida por determinada audiência. A castidade tem também a ver com o recato sexual que deve ser cumprido em determinados momentos da vida das pessoas, como o caso de uma mãe acabada de dar à luz, que deve esperar que o umbigo do bebé caia até voltar a ter o seu normal relacionamento conjugal.

O mesmo se passa no caso de um casal, quando se dá o óbito de um ente querido, em que a abstinência sexual decorre a partir do dia da sua morte, até sete dias depois. Ainda quanto ao 9º mandamento, devo esclarecer que mesmo que nas sociedades bantu se pratique a poligamia, esta deve ser realizada de modo institucionalizado; ou seja, em função do critério de oficialização da relação entre um homem e as suas diferentes mulheres, tal como acontece na cultura islâmica, e não a bel-prazer do homem, porque, se não for de acordo com o preconizado, trata-se de adultério.

Colocados os pressupostos, passo a dar um salto enorme no raciocínio que vinha tendo, para entrar para a relação que estabeleço entre o ágape e a o mhamba.

Do que aprendi em Bobineau (2010), socorrendo-se de informação recolhida em Marguerat (2000) SPICQ (1966 b), respectivamente, escolhi apenas duas definições sobre ágape, a saber: “o ágape no Novo Testamento designa ao mesmo tempo esse amor de Deus pelo homem e esse amor fraternal entre os homens. […]. Sobre essa exigência incondicional, Jesus embasa, entretanto, sua palavra e sua legitimidade, recorrendo à partilha fraternal, à “divisão do pão”.  Além disso, “Nos escritos de Paulo, o ágape, de origem divina, inserido no ser do cristão […] é o valor essencial que se liga ao “pneuma, ou seja, à faculdade religiosa mais elevada do homem, aquela precisamente destinada à comunicação com Deus, a receber suas luzes, sua graça, seu dom de vida”. […] eles se reuniam para comer ao redor de uma mesa comum, celebrando a fraternidade.

Dessas definições retenho a ideia de disseminar o amor de Deus pelo próximo e com este dividir o pão e a da faculdade mais religiosa do homem, de receber as luzes, sua graça e seu dom de vida, que me lembra a mhamba. A razão para isso passa necessariamente por descrever esse ritual bitonga.

A mhamba é realizada para lembrar a passagem de um antepassado pela terra; para apaziguar os espíritos dos antepassados; para promover a união entre parentes, estabelecer coesão familiar, entre outros. Para o caso deste texto, a mhamba será considerada na sua função de recordar um ente-querido, que é dos mhambas mais simples e que, são imbuídas de amor ao celebrado, de uma dimensão humana, que passa pela partilha do “pão”, ao redor de uma mesa comum. Quanto à dimensão religiosa, devo dizer que as famílias realizam esse evento por acreditarem que fazendo-o, receberão a graça e a salvação de Deus, por intermédio do antepassado celebrado.

É na verdade uma missa, que deve ser antecipada pela consulta a um curandeiro que informará a família sobre os desejos do defunto, uma vez que ele dita a forma como alguns eventos da mhamba devem ser realizados e, por vezes, dita um modus vivendi para aquela família, sobretudo se não houver harmonia no seu seio. Após isso, os vivos reúnem-se e cumprem com as regras definidas.

De um modo geral, realizar esses preceitos pressupõe que sejam colocados, num altar familiar, paramentos de quatro cores: preto, vermelho, branco e um outro às cores: vermelho, azul e branco. Depois sacrificam-se animais, para mhambas fortes, animais fortes, como o cabrito; para mhambas leves, um galo e uma galinha, que depois de mortos são cozinhados em molho de amendoim, para serem comidos com xima (espécie de papa grossa ou puré) de mapira e milho. A esses alimentos acrescenta-se três espécies de peixe.

Essa refeição é depois colocada numa folha de palmeira, na qual as crianças ou os netos da casa comem, todos juntos. Aos adultos, a refeição é servida em gamelas, nas quais comem várias pessoas ao mesmo tempo. A acompanhar a refeição ou depois desta, tomam-se bebidas tradicionais, feitas à base de frutos da terra. No final da refeição canta-se e as pessoas dispersam-se. Pode-se depois voltar a consultar o curandeiro, para se saber se o espírito do antepassado ficou apaziguado, após a reunião familiar que os uniu.

É na medida em que se agrada ao antepassado celebrado, que se agrada a Deus e se recebe a salvação. Praticando-se uma boa acção em honra ao antepassado, celebra-se, também, parte dos Mandamentos da Lei de Deus, nomeadamente: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos e santificar os domingos e festas de guarda (mandamentos 1 e 3). Celebra-se assim, tanto no ágape, como na mhaba, o amor fraternal entre os seres humanos, referido no Novo Testamento e ainda se comunica com Deus, recebendo a sua graça, tal como o preceituado nos escritos de Paulo  acima referido.

Fica, em síntese, descrita a relação entre dois eventos, o ágape e a mhamba, ambos conceitos multifacetados, com diferentes significados e funções, mas que, em algum momento,  exaltam o mesmo preceito divino, o da celebração do amor para com Deus, e para com os outros seres humanos, com o fim de receber a graça e a salvação. Ambos celebram a fraternidade.

 

Sara Jona Laísse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica de Maputo e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) – Moçambique; contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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