Celebrações com o Papa sozinho “sintonizam” com o que as pessoas estão a viver e batem recordes de audiência

| 27 Abr 20

O Papa Francisco bate recordes de seguidores nas redes sociais e tem milhões a segui-lo nas eucaristias e grandes celebrações pela internet. Sinais de um tempo em que a sintonia do discurso com o que se vive também é uma marca decisiva, regista Rita Figueiras.  

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro.

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro. Imagem reproduzida a partir da transmissão vídeo nos canais do Vaticano.

 

No último fim-de-semana, 25 e 26 de Abril, o Papa voltou a celebrar a missa apenas com um reduzido número de pessoas, mas chegando a milhões através da internet e dos canais vídeo do Vaticano. Desta vez, dado tratar-se de um domingo “normal”, as audiências terão sido menores que na Semana Santa e Domingo de Páscoa, quando as transmissões das cerimónias presididas por Francisco bateram recordes.

Desde o dia 7 de Março, quando a missa matinal na Casa de Santa Marta passou a ser transmitida dessa forma por causa da pandemia de covid-19, o Papa tem usado os canais vídeo e a internet para todas as celebrações. A oração do Pai-Nosso a 25 de Março, a Oração pela Humanidade de 27 de Março, as cerimónias da Semana Santa (incluindo a Via-Sacra) e a eucaristia de Domingo de Páscoa foram transmitidas em mundovisão. E bateram recordes, a avaliar por alguns números que se podem medir – e apesar de ser impossível contabilizar ao certo quantas pessoas têm seguido as celebrações presididas por Francisco em todos os meios disponíveis.

A eucaristia diária (às 6 da manhã de Lisboa) é seguida por muita gente em todo o mundo. Transmitida pelos canais vídeo do Vaticano, já teve dias em que foi seguida por 15 milhões de italianos (além de mutos outros por todo o mundo), como noticiou o La Stampa.

Fonte autorizada do Dicastério da Comunicação do Vaticano diz ao 7MARGENS que a Via-Sacra de Sexta-Feira Santa foi acompanhada, também só em Itália e apenas considerando a RAI1, por quase 8 milhões de espectadores, com o equivalente a 25% do share (ou seja, uma em cada quatro pessoas que via televisão naquela hora). A esses, podem somar-se 750 mil da TV2000, além de várias transmissões em streaming via internet. Já a missa de Domingo de Páscoa atingiu 49% de share só na televisão e durante todo o tempo que durou a celebração e a missa urbi et orbi.

“Desde o início, o Papa Francisco conseguiu congregar a atenção de muitas pessoas para lá dos circuitos tradicionais católicos, porque tem uma grande capacidade de comunicar com os fiéis”, diz ao 7MARGENS Rita Figueiras, professora na Universidade Católica Portuguesa, na área da Comunicação (comunicação política e relação entre tecnologia e sociedade).

“Diante da impossibilidade de poderem ir presencialmente, é normal que haja mais pessoas a ver pela televisão”, afirma. Isso permite criar “um sentimento de pertença, de comunhão, de religação que nas condicionantes actuais não são possíveis”, acrescenta.

O facto é mensurável também em Portugal: as missas televisivas transmitidas a 15 de Março, em Portugal, após a suspensão da participação de fiéis, tiveram audiências recorde. O mesmo cenário repetiu-se com as missas da RTP e da TVI no Domingo de Páscoa, que voltaram a ter, nos mesmos canais, audiências invulgares para aquela transmissão, totalizando cerca de 1,5 milhões de espectadores.

 

Discurso em sintonia com confinamento

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro.

Papa Francisco, durante a Oração pela Humanidade, na Praça de São Pedro. Imagem reproduzida a partir da transmissão vídeo. nos canais do Vaticano.

 

Outros números podem ajudar a perceber o fenómeno: nos dias anteriores à Páscoa, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano, teve mais de 14 milhões e 500 mil visualizações de páginas, com cerca de 5,5 milhões de utilizadores. Por comparação, no ano passado, o mesmo portal registara cerca de 3,5 milhões visualizações e 1,5 milhões de utilizadores. Ou seja, praticamente quatro vezes mais visualizações e utilizadores este ano.

Também as páginas do Vatican News no Facebook tiveram cerca de 18 milhões de pessoas a seguir as celebrações da Semana Santa (cinco milhões das quais, a Via-Sacra). No Youtube, por seu lado, os mesmos ritos litúrgicos tiveram 2,123 milhões de visualizações em italiano, inglês, espanhol, francês, português e alemão.

Rita Figueiras diz que “a própria forma de transmissão – simples, mas com sofisticação, a iluminação ou os ângulos escolhidos, tudo muito profissional, de quem percebe o que é televisão” – acabam por prender a atenção. E exemplifica com o que se passou na Oração pela Humanidade, de 27 de Março, em que tudo se conjugou para que ficássemos presos ao ecrã: a chuva, o Papa que caminhava sozinho na praça, o discurso que vinha ao encontro das expectativas…

Esses aspectos têm sido uma constante, verifica: “O Papa estava sozinho, mas o seu discurso foi o da partilha, da comunhão, da sintonia com o confinamento a que temos estado sujeitos. Uma perfeita conexão entre as imagens e as palavras, e também em harmonia com o momento presente e a forma como estão a viver as pessoas que estavam a ver em casa.”

Mas nem só de televisão tem vivido esta sintonia de milhões com o Papa: os números continuam altos nas restantes plataformas digitais, de acordo com a mesma fonte do Vaticano. A conta do Papa no Twitter, @Pontifex, ultrapassou os 50 milhões de seguidores, enquanto o canal Instagram, @Franciscus, já tem mais de sete milhões. Neste último caso, o canal do Vatican News na mesma rede ganhou 27 mil novos seguidores na Semana Santa, enquanto as seis contas do portal no Twitter foram vistas 61 milhões de vezes, também no mesmo período.

“Se agregarmos todos os números, percebemos que eles são impressionantes”, observa Rita Figueiras. “E isso significa que se encontraram novas formas de as pessoas se envolverem e participarem. Se procuram a internet para várias das coisas que mais lhes interessam, também a procuram para acompanhar a dimensão religiosa por todos os meios que têm ao dispor.”

 

“Criatividade” dos artistas e beleza, o caminho a seguir

Papa Francisco. Páscoa 2020.

O Papa Francisco na sua mensagem urbi et orbi, no Domingo de Páscoa detse ano. Imagem reproduzida a partir da transmissão dos canais vídeo do Vaticano.

 

A sintonia do discurso, valha a verdade, também é proporcionada pelo Papa, que não desiste de se referir a todas as realidades relacionadas com a pandemia ou as suas consequências, bem como a outros factos que correm o risco de ficar esquecidos. Na manhã desta segunda-feira, por exemplo, recordou os artistas, “que têm esta capacidade muito grande de criatividade e que, pela beleza, nos indicam o caminho a seguir”. E acrescentou, rezando: “Que o Senhor nos dê a todos a graça da criatividade neste momento.

No sábado, indo também ao encontro de várias formas de oração tradicional, o Papa propôs que os católicos rezem o terço, sozinhos ou em companhia, sugerindo mesmo duas orações que as pessoas podem acrescentar. E no domingo falou das 400 mil vítimas de malária, que continuam a registar-se todos os anos.

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