Celebrações e Frugalidade

| 18 Abr 2024

Giotto . Bodas de Caná

“Nada disto nos pode impedir de celebrar o que deve ser celebrado, de, ao jeito de Cristo, gostar de comer e beber bem, de celebrar a vida em abundância, usufruir e agradecer (Lc 7). Nada nos impede de, como Jesus no seu primeiro milagre, guardar o melhor vinho para o fim (Jo 2).” Pintura: Bodas de Caná, Giotto, Fresco da Capela de Scrovegni (Pádua)

A minha empregada de há mais de 25 anos foi pela primeira vez a Roma com o marido e o neto de 8 anos, levados pelo filho que, graças aos sacrifícios dos pais, pôde fazer uma licenciatura com mestrado incorporado, passando a pertencer claramente à classe média, e subindo no ascensor social graças ao trabalho dos seus pais e à escola pública que frequentou. Veio impressionada com o luxo do Vaticano: “Srª Drª, afirmou-me, era quase uma vergonha, tanta riqueza!” Sim, um choque para quem foi criada na pobreza dos arrozais do Alentejo e veio “servir” para a cidade na esperança de aceder a uma melhor vida. Tinha toda a razão! Como explicar tanto luxo, riqueza, sumptuosidade? A arte tem destas coisas, mas ainda bem que é para usufruto de todos.

Veio-me à memória um dos últimos casamentos em que estive, da filha de uns amigos meus. Não consegui deixar de ficar incomodada com a nova “indústria” dos casamentos. Tanta demonstração de riqueza para simplesmente celebrar o compromisso entre um homem e uma mulher (neste caso) perante Deus. A maior parte dos casamentos, infelizmente, transformou-se em indústria de luxo. Não se reduzem aos bonitos enfeites da igreja, em homenagem a Deus… e aos noivos. Os casamentos transformaram-se em demonstrações de riqueza, domínio, luxo. Um show off de fortunas, um alardear de “como se está bem na vida”: toilettes dispendiosas, luxuosos copos de água com especialidades sem fim (até já chegamos às ostras e aos mais dispendiosos mariscos…), bebidas espirituosas e variadas, sobremesas requintadas, champagne do melhor; prendinhas dos noivos para os convidados. E toda a organização do divertimento, essa nova indústria de eventos: aluguer de carros de luxo, confettis brancos, balões prateados ou dourados, subidas às janelas ou varandas para acenar aos convivas, discursos,  bandas de música pela noite fora, uma substancial ceia a meio da noite, até foguetes quando a noite vai alta. Sem contar os presentes para os noivos, o dispendioso vestido de noiva, os fraques, que sei mais? As famílias aproveitam para convidar pessoas ilustres, pagar favores, demonstrar “importantes” contactos e, mesmo,  acertar negócios. Uma amiga dizia-me há dias: “Ainda por cima é tudo igual…” As empresas de eventos não sabem ser criativas. Apenas espavento…

Pessoalmente este tipo de festa incomoda-me. Saio o mais cedo que me é possível, apesar do gosto imenso em ver os noivos felizes. Acho que estas festas são uma “ofensa” para os mais pobres e menos privilegiados. Pela falsidade que tudo isto demonstra. Pelo atropelo à “amizade social” proposta pelo  Papa Francisco na Fratelli Tutti. Pela anti-celebração e por um falso sentido de festa. Que se esfuma em nada, vazio, nudez, simples ruído. Qual a cultura subjacente a tudo isto?

Ultimamente os batizados e as comunhões estão a enfermar desta mesma doença. Também a celebração dos 18 anos, nomeadamente das jovens raparigas, jantares de vestidos compridos à luz de velas. Até as festas de anos das crianças.: tudo igual, tudo formatado com pequenas variações. Relembro as nossas  festinhas de anos da infância, coroa de papel prateado na cabeça e direito a uma cadeira “especial” enfeitada com hera. Sim, encomendávamos aos pais os nossos menus preferidos e havia mágicas pescarias com um presentinho para cada um dos pequenos convidados. Nesse dia sentia-me rainha! Onde os lanches celebrativos e simples que reúnem toda a família? Onde a viola a um canto que de repente desperta todos para uma bonita canção? Onde aqueles que têm um jeito infindável para contar histórias ou aqueles que têm o dom de fazer os outros disparar em gargalhadas saborosas? Onde os beijos, os abraços? A emoção? A ternura?

Que exemplo ou referências damos aos mais jovens? Vanitas, Vanitatis, tudo é vacuidade… tão vazio…Estarei a ser moralista? Porque me sinto tão incomodada com isto? Sou uma pessoa que gosta de celebrar, que gosta de festas. O casamento é, por tradição, uma festa lindíssima. Mas há algo de obsceno, de imoral neste tipo de festas “encomendadas”. Como se andasse pela 5a Avenida em Nova Iorque e esbarrasse constantemente com as lojas de produtos de luxo,  de costureiros, de joias ou relógios… ou apenas baixando a tão lisboeta Avenida da Liberdade? Que tem isto a ver connosco?

Estaremos assim tão longe dos “casamentos arranjados” de reinados antigos que asseguravam alianças políticas e estratégicas?

Relembro as festas populares, a celebração dos santos, as procissões… sim, também há a tradição das crianças se vestirem de santos ou anjinhos, os enfeites, os arcos, as velhinhas bandas de música onde hoje em dia muitos jovens fazem a sua iniciação musical, as danças. Que frescura!  Algumas dessas festas são hoje consideradas património imaterial da Humanidade (UNESCO) a exemplo das Bugiadas de Valongo ou os Caretos ou os gigantones e cabeçudos de Viana do Castelo. Ou os artísticos tapetes de flores de Vila do Conde. Ou a linda tradição de “cantar os Reis”… E saboreio, sim, a beleza dos monumentos e obras religiosas e artísticas bem preservadas, bem iluminadas, acessíveis à contemplação de todos nós, simples cidadãos e cidadãs, e não destinados a um grupo restrito de pessoas.

Fizemos o nosso Caminho Quaresmal que nos pedia esmola, jejum, oração, atenção aos mais frágeis, frugalidade. Somos anualmente  tocados pelo exemplo dos nossos irmãos do Islão  que durante o Ramadão fazem verdadeiro jejum até ao por do sol. Os praticantes trabalham, rezam as suas orações numa exemplar disciplina e sobriedade.

Job. Leon Bonnat

“Onde os valores do Evangelho? Onde a explicitação da Doutrina Social da Igreja? Onde estão os pobres? Preferimos não olhar para não termos de reconhecer que eles existem, bem ao nosso lado? Onde uma consciência moral face a tantos Jó(s) à nossa volta?” Pintura: Job de Leon Bonnat (1833-1922). Museu Bonnat, Bayonne, França

 

Onde os valores do Evangelho? Onde a explicitação da Doutrina Social da Igreja? Onde estão os pobres? Preferimos não olhar para não termos de reconhecer que eles existem, bem ao nosso lado? Onde uma consciência moral face a tantos Jó(s) à nossa volta?

Nada disto nos pode impedir de celebrar o que deve ser celebrado, de, ao jeito de Cristo, gostar de comer e beber bem, de celebrar a vida em abundância, usufruir e agradecer (Lc 7). Nada nos impede de, como Jesus no seu primeiro milagre, guardar o melhor vinho para o fim (Jo 2).

Lembro um lindíssimo filme de Gabriel Axel: “Le Diner de Babette”, baseado num conto de Isak Dinesen.  Stephanie Ardant no papel principal. Uma família da Dinamarca protestante acolhe uma refugiada da guerra civil francesa livrando-a da miséria e da morte.  Divide com ela o que tem. A sua vida é simples, sóbria, frugal, mesmo pobre. Entretanto Babette recebe uma pequena herança. Para agradecer à família que a acolheu decide cozinhar um jantar ao mais puro estilo francês. Louças e cristais muito belos. Velas na mesa. Vinhos requintados, folhados subtis, molhos rebuscados, sobremesas deliciosas e belas. O maravilhamento e desconcerto daquela família tão frugal é tocante. Um espantado celebrar. Como se visionasse e saboreasse um verdadeiro capricho dos deuses.

Qual a diferença entre este filme e as festas quase obscenas que descrevo acima? Parece-me ser o dom gratuito. A contemplação da beleza. O usufruto dos sentidos. A possibilidade de uma outra dimensão estética. O  filme de Gabriel Axel é a descrição de um momento no tempo. Uma experiência estética única. A celebração da vida. Sim, como o melhor vinho que fica para o fim ao jeito do primeiro milagre de Jesus.

Como retomar, reinventar e recristianizar liturgicamente as tradições não esquecendo que a beleza eleva o espírito e nos faz tocar Deus? Onde a consciência “moral” de cada um, enraizada nos valores dos evangelhos? Onde a consciência crítica e social que nos torna sensíveis aos outros, sobretudo aos que nada têm? Para que serve o novo conceito de “justiça restaurativa”? Se todos nós, cristãos, tivéssemos esta consciência sensível e desperta, a sociedade não seria mais justa e equitativa? Voltando à história da minha empregada de visita a Roma: não seria de a Igreja começar por desfazer-se de luxos, apego às “coisas”, do acumular de riquezas? Que faz a Igreja portuguesa do seu património imobiliário devoluto ou não usado quando vivemos uma crise habitacional sem precedentes? A que nos agarramos? A Doutrina Social da Igreja não deve começar por se aplicar dentro de portas?

Recorro ao poema de Daniel Faria, o nosso místico poeta da simplicidade:

A Lição das Árvores

Houvesse um sinal a conduzir-nos
e unicamente ao movimento
de crescer nos guiasse.

Termos das árvores
a incomparável paciência  de
procurar o alto

a verde bondade de permanecer
e orientar os pássaros.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participa no Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com 

 

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