AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Celebrando os 90 anos de Maria de Lourdes Pintasilgo

| 23/01/2020

Celebrando os 90 anos de Maria de Lourdes Pintasilgo

by | 23 Jan 20 | Entre Margens, Últimas

Maria de Lourdes Pintasilgo enquanto primeira-ministra, em fotografia assinada pela própria © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

 

No passado dia 18, se Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP) fosse viva, celebraria os seus 90 anos.

Nesse dia, na sede da Fundação Cuidar o Futuro, na Praia Grande, esteve reunido, ao redor da lareira, um grupo de amigos e amigas relembrando as múltiplas facetas da vida de Maria de Lourdes. Fomos verificando que ela foi uma figura luminosa, criativa e criadora, empenhada política e socialmente, uma das fundadoras (com Teresa Santa Clara Gomes) do Movimento do Graal em Portugal. MLP era intelectualmente brilhante, com uma informação sempre atualizada acerca dos grandes problemas mundiais, ciente dos desequilíbrios sociais, da profunda desigualdade entre homens e mulheres. Uma mulher cidadã.

Engenheira química, brilhante aluna, desde cedo se comprometeu no movimento estudantil através da JUCF [Juventude Estudantil Católica Feminina], de que chegou a ser presidente. Foi fundadora da Comissão da Condição Feminina (hoje Comissão para a Igualdade de Género), onde deixou profundas marcas. Era uma mulher de cultura. Abriu portas à participação original das mulheres na vida pública. Introduziu no nosso país as primeiras reflexões sobre conciliação entre trabalho e família. O princípio fundador da sua vida era, sem dúvida, a ética. Uma ética cidadã.

Enquanto primeira-ministra – uma das primeiras da Europa – e nos três meses de um simples governo provisório, usou esse tempo limitado para, de forma comprometida, deixar as suas marcas: os estatutos das Instituições Privadas de Solidariedade Social e dos Jardins de Infância, o passe social, entre outros. Instituiu as presidências abertas: um dia por semana, o governo ia “para o terreno” escutar as pessoas, analisando os problemas. Acompanhavam-na alguns dos seus ministros que, in loco, procuravam soluções para os problemas ou traziam-nos para serem depois trabalhados na sua atividade quotidiana.

MLP deu-se inteira a esta “missão” apesar da complacência dos partidos políticos, da descrença de muitos cidadãos, da desinformação vinculada pela imprensa. Era mulher e isso bastava.

Candidatou-se posteriormente à Presidência da República tendo perdido na primeira volta. A sua ideia de uma candidatura cidadã não resistiu às orientações partidárias, apesar da força que provocou na população portuguesa.

Maria de Lourdes Pintasilgo no Mercado de Campo de Ourique, em Lisboa, em acção de campanha para as eleições presidenciais de 1986. Foto © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

 

MLP não foi uma mulher “bem-amada” no seu país. Caminhou à frente: ousou ser mulher em pleno, desafiou convenções, foi pragmática e incisiva nas suas decisões. Incomodou.

Internacionalmente foi reconhecida: nas Nações Unidas, na UNESCO (de que foi embaixadora), no Conselho Europeu, no Conselho Internacional de ex-Chefes de Governo. Escrevia abundantemente. Deixou muitos escritos: políticos, de intervenção social, de análise política. Mas deixou também escritos teológicos e de espiritualidade. Amava a poesia e tinha sempre um poema pronto para terminar qualquer intervenção sua. Profundamente cristã, era uma mulher do Evangelho.

Deixou obra feita. Deixou também uma Fundação, não com o seu nome (de somenos importância), mas alargando o seu âmbito. Trata-se da Fundação Cuidar o Futuro que continua a desenvolver atividade relevante para além de ter organizado o seu espólio.

Reservo para o fim deste pequeno texto de homenagem a menção ao relatório Cuidar o Futuro, elaborado para as Nações Unidas enquanto presidente da Comissão População e Qualidade de Vida. Usou uma interessante metodologia de “audições públicas”, indo a diferentes países e ouvindo perspetivas e problemas na primeira pessoa. Usou e ampliou a metodologia de Paulo Freire. Esse relatório – traduzido em várias línguas – antecedeu em 20 anos a Laudato Sí. Nele, MLP faz um apelo a que cuidemos do futuro, não destruindo a criação que Deus nos pôs nas mãos para cuidar e respeitar, com especial atenção aos pobres e àqueles que vivem nas margens.

A primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo numa visita de trabalho a Caminha, a ser saudada por uma criança (1979) © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

 

No site da Fundação podemos encontrar o texto do Relatório. Recomendo vivamente a sua leitura. Foi um documento que ouso chamar “profético”. Na sede da Fundação Cuidar o Futuro, demorei-me a contemplar as versões do Relatório nas diferentes línguas. Que fizemos do seu legado?

Sobre MLP relembro o poema de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada

teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

no mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

brilha, porque alta vive.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada), membro do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This