Celebrar como comunidade em tempo de confinamento

| 24 Abr 2021

A Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII, uma comunidade eclesial de base viva em Coimbra, que se reúne semanalmente desde finais dos anos noventa, partilha aqui o seu testemunho sobre o modo como entende a sua experiência neste tempo de pandemia.

Foto © António José Paulino

“Os padres e os bispos podem celebrar a Eucaristia, centro da vida cristã, mesmo sozinhos; as comunidades cristãs não.” Foto © António José Paulino

 

Numa crónica recente, Anselmo Borges chamou a atenção para uma contradição “que se torna gritante, concretamente em tempos de confinamento: os padres e os bispos podem celebrar a Eucaristia, centro da vida cristã, mesmo sozinhos; as comunidades cristãs não.”[1]

À luz da eclesiologia conciliar, este privilégio clerical assim como a quietude das comunidades perante ele não parecem ser aceitáveis. A confusão entre o ministério sacerdotal e o sacerdócio corresponde a um desvio clericalista que está presente em ambos. O tempo que estamos a viver nesta pandemia – não tanto pelo esvaziamento temporário dos lugares de culto, mas, mais que isso, pela limitação duradoura da proximidade física – desafia-nos a vivermos todas as expressões da experiência comunitária (incluindo as de comunidade eclesial) de modo novo. Muito particularmente, a reinvenção da celebração da fé, nas comunidades eclesiais é uma exigência crucial deste tempo de confinamento. E, desejavelmente, essa exigência não terminará num “regresso à normalidade”, mesmo que, para muitas pessoas, seja preferível voltar às formas de celebração anteriores, não arriscando colocar questões de fundo sobre o que é realmente uma celebração eucarística, que papel deve ter o/a líder da assembleia, qualquer que seja o seu género, orientação sexual ou estado civil.

“Só um questionamento exigente do que fomos nos conduzirá a uma qualidade celebrativa diferente e maior.” Foto © António José Paulino

 

A verdade é que, como em tudo nas nossas vidas, a qualidade da anterior normalidade merece ser profundamente questionada para que, quando o tempo vier, não retomemos o que era humanamente discutível. Só um questionamento exigente do que fomos nos conduzirá a uma qualidade celebrativa diferente e maior.

A Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII, uma comunidade eclesial de base viva em Coimbra, desde finais dos anos noventa, assumiu por inteiro, nos últimos anos, a casa como espaço de celebração e a revisão de vida como suporte da ligação da celebração da fé ao quotidiano de alegrias e esperanças, tristezas e angústias de cada um/a de nós. Face a face entre nós e com Deus presente nos sinais da vida de todos os dias – assim celebramos todos os domingos. A Igreja de casa não é, para nós, uma experiência eclesial adicional à da paróquia (paróquia para celebrar aos domingos, casa para rezar nos outros dias da semana), mas sim uma escolha inerente à singularidade da nossa experiência de comunidade eclesial de base.

Com este impedimento de nos juntarmos presencialmente desde março de 2020, passámos a juntar-nos por zoom para partilharmos as nossas vidas, deixarmo-nos interpelar pela Palavra de Deus e rezarmos em comunhão com toda a Igreja. Cada celebração dominical é preparada rotativamente por um membro individual ou uma família da Comunidade, que partilha antecipadamente com todos/as o guião. A Mesa da Eucaristia passou a ter lugar numa das casas de quem se junta, com a presença do presbítero e presenciada por todos/as.

“O virtual acrescentou qualidade às nossas celebrações, na música, na gestão tranquila do tempo, nas imagens que nos convocam ao espanto ou ao recolhimento, nas orações de súplica, de ação de graças ou de penitência que preparamos e escrevemos e rezamos.” Foto © António José Paulino

 

O virtual acrescentou qualidade às nossas celebrações, na música, na gestão tranquila do tempo, nas imagens que nos convocam ao espanto ou ao recolhimento, nas orações de súplica, de ação de graças ou de penitência que preparamos e escrevemos e rezamos. A Comunidade alargou-se porque o virtual lhe tirou os constrangimentos físicos e territoriais. A quem participa a partir de Coimbra, associou-se quem participa em Aveiro, em Lisboa, na Figueira da Foz e há gente de outras terras a bater à porta. Poderemos assim celebrar a fé com outros, em qualquer parte e integrar nesta comunidade diferentes experiências de vida e de confronto com o Evangelho. O virtual permite-nos, assim, aprofundar o caminho dos primeiros tempos dos seguidores de Cristo: “fazei isto em memória de Mim”, ou seja, uma revisão semanal da nossa vida, com um tempo para análise do que se passou comigo, pedindo perdão pelas distâncias entre nossa vida e a de Jesus, a interpelação das Escrituras que iluminam a consciência daquilo que nos é pedido que façamos enquanto testemunhas da fé e da esperança. Pode haver comunidade densa e com tempos de oração, partilha e celebração intensos sem base nem fronteiras territoriais – esse é o nosso testemunho.

Estamos bem cientes de que o virtual pode ser uma armadilha. Nele, a comunidade e o compromisso perdem frequentemente densidade e a estética pode facilmente substituir-se à exigência da relação. Mas há outras duas armadilhas que devemos ter presentes. A primeira é a da romantização das comunidades presenciais anteriores a este tempo, como se elas tivessem sido experiências sempre ricas de proximidade efetiva ou de qualidade de partilha da vida e da fé. A romantização – seja do velho, seja do novo – não ajuda nada na busca de formas de celebração que casem a presença da vida vivida, a tessitura de laços comunitários fortes e a exploração dos caminhos imensos que a tecnologia hoje nos propicia.

A segunda armadilha é a das supostas impossibilidades canónicas de celebrar “plenamente” por via virtual. Atrás desta linguagem, está invariavelmente o culto do clericalismo que desvaloriza a responsabilidade e a vitalidade das comunidades celebrantes. A comunidade é o sujeito e não o acólito da celebração. Se a tecnologia ajuda a desconstruir discursos eclesiológicos que não aceitam isto em todo o seu alcance, abençoada seja a tecnologia.

“No virtual, a comunidade e o compromisso perdem frequentemente densidade e a estética pode facilmente substituir-se à exigência da relação.” Foto © António José Paulino

 

Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII

[1] “Jesus e a Igreja”, Diário de Notícias, 10.4.2021.

 

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