Caminho Sinodal alemão

Decisões favoráveis para celibato opcional, diaconato feminino e escolha de bispos

| 6 Fev 2022

Tópicos votados vão ser depois entregues à Conferência Episcopal Alemã. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner

 

Um voto claro pelo celibato opcional, a exigência da abertura do diaconato às mulheres, a possibilidade de todos participarem na escolha do seu bispo: foram estes alguns dos títulos com que os meios de comunicação acompanharam a terceira assembleia geral do Caminho Sinodal da Igreja na Alemanha, que decorreu entre os dias 3 e 5 (quinta a sábado).

Para os 216 membros sinodais foi uma maratona: três dias de trabalho intenso e concentrado sobre 14 documentos em elaboração, dos quais três foram já votados na especialidade, ou seja, definitivamente aprovados. Desses três, dois são textos fundamentais: um sobre os princípios teológicos que orientam este Caminho Sinodal, designado por Texto de orientação, o outro sobre o Poder e partilha de poder, participação na missão comum.

No documento sobre os princípios orientadores do Caminho Sinodal, que no aprofundamento e na linguagem reflecte bem a participação de um numeroso grupo de teólogos profissionais no processo, a Assembleia Sinodal posicionou-se claramente na linha e no espírito do Concílio Vaticano II, de modo especial na constituição sobre a presença da Igreja no mundo contemporâneo (Gaudium et Spes). Isso ficou bem claro, por exemplo, na votação de um requerimento de reformulação do parágrafo sobre as fontes da doutrina da Igreja, considerando que os “sinais dos tempos” ou a “teologia” não podem ser colocados na mesma lista que a Escritura, a Tradição e o Magistério. A Assembleia rejeitou o requerimento com as necessárias maiorias qualificadas (de mais de dois terços, tanto da assembleia no seu conjunto como dos bispos, já que os estatutos exigem também este voto de maioria qualificada por parte dos bispos e, sem ele, nenhum documento pode ser aprovado).

“Os sinais dos tempos abrem-nos essa porta que permite descobrir a presença de Deus na história e no tempo presente da vida das pessoas”, diz o texto (nº. 37). O grito das vítimas da violência sexual no seio da Igreja seria hoje um destes sinais dos tempos. “Ouvir e responder com a consequente renovação da Igreja e das suas estruturas em passos concretos” pode ser outro desses sinais.

O texto sobre o exercício do poder na Igreja foi outro documento fundamental também já aprovado. Não se trata de negar a necessidade do poder, mas a de redescobrir como é que o poder na Igreja deve ser “compreendido, justificado, transmitido e exercido”, de modo a respeitar o princípio de que o “senso comum de todos os baptizados exige mais corresponsabilidade, mais cooperação no agir e uma participação assegurada pelo direito”. No fundo, trata-se de procurar modelos que fechem as portas aos abusos do poder e assegurem a maior participação possível de todos os baptizados nos processos de condução e direcção bem como nas decisões e opções de carácter pastoral.

 

Participação na escolha dos bispos

Vai nessa linha uma directriz sobre a participação dos fiéis na escolha do bispo diocesano, que também foi aprovada (maioria de 88% no conjunto, 80% de bispos). A orientação exige que se esgotem todas as possibilidades já previstas no actual Direito Canónico e nas concordatas que regem as relações entre a Santa Sé e os diferentes países (no caso da Alemanha, os estados federados). De facto, em várias dioceses, prevê-se já que é o cabido quem escolhe o seu bispo de entre os nomes propostos pela Santa Sé. A directriz propõe então que a partir de agora os cabidos diocesanos se auto-comprometam a ouvir e consultar de forma vinculatória os fiéis da diocese.

Foram ainda votados na generalidade, e irão ser propostos para votação definitiva na(s) próxima(s) assembleia(s), um documento a exigir a abertura do diaconato às mulheres e outro a favor da abolição do celibato obrigatório para os padres diocesanos. Um bom número de membros sinodais pediu a palavra para sublinhar que só votariam a favor do documento que exige o acesso das mulheres ao diaconato se ficar claro que esse é apenas o primeiro passo a caminho da abertura às mulheres de todos os ministérios ordenados. A abolição do celibato obrigatório foi também “sugerida” por vários bispos em entrevistas dadas fora da assembleia sinodal, entre eles, o cardeal Marx, arcebispo de Munique.

Reinhard Marx, que era presidente da conferência dos bispos alemães na fase de arranque do Caminho Sinodal e participou nesta terceira assembleia comentou, no jornal da diocese, o Munchner Kirchenzeitung, que “este é um momento histórico na Igreja da Alemanha” e que, ao contrário do que sugeriram algumas vozes críticas, houve, da parte dos bispos, “uma clara concordância com o texto de orientação teológica, como no do plano de ação”.

Cardeal Reinhard Marx e Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, em conversa durante os trabalhos do terceiro dia da assembleia sinodal na Alemanha. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner

 

De votação em votação tem-se tornando notória a presença de um grupo mais ou menos estável de pessoas que discordam ou são claramente oposição a este Caminho Sinodal. Os responsáveis pelo processo continuam a acreditar que se trata de discordâncias pontuais na matéria e não de uma corrente ou de uma facção que sistematicamente votaria contra. No entanto, são cada vez mais os sinais de que se trata de uma minoria de bispos e leigos que, não conseguindo na assembleia o apoio em número de votos suficientes para alterar significativamente o teor dos documentos em elaboração, se está a organizar por fora como oposição ao processo sinodal. Foi assim que surgiu há pouco uma iniciativa designada “Novo começo”, centrada na figura de Bernhard Meuser, um jornalista e editor católico da Baviera, muito conhecido, entre outras coisas, por ter orientado a publicação do Youcat, o catecismo para os jovens). A iniciativa “Novo começo” apresenta-se com um longo manifesto onde as posições centrais do Caminho Sinodal são rebatidas uma por uma, e está neste momento a recolher assinaturas que se propõe fazer chegar ao Papa Francisco. A intervenção do núncio apostólico nesta última assembleia sinodal, claramente distanciada e crítica em relação a esta caminhada sinodal da Igreja na Alemanha, só lhes dará força.

Até que ponto a Conferência Episcopal alemã vai conseguir integrar e motivar a minoria de bispos a aplicar as decisões aqui votadas (no documento sobre as orientações gerais do caminho sinodal foram 16 bispos a votar contra, 41 a favor, 2 abstenções)? Até que ponto o Vaticano vai dar luz verde às suas resoluções? A qualidade da argumentação teológica, o espírito de abertura na linha do Vaticano II e a intensidade de trabalho da Assembleia Sinodal sopram como uma lufada de esperança sobre a Igreja alemã, ainda chocada pela dimensão dos escândalos dos abusos de poder na Igreja. Para já ninguém ousa exprimir o que sente ao pensar que este processo de renovação e de reforma pode dar num grande fiasco, desiludindo tantas expectativas e frustrando toda esta vontade de reforma que claramente predomina em todas as instâncias e sectores da vida da Igreja na Alemanha.

 

Este texto teve o contributo de Manuel Pinto

 

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