Mais de 150 responsáveis de organizações religiosas e humanistas assinaram em França uma declaração apoiando a Cimeira de Santa Marta (Colômbia) que começou esta sexta-feira, 24, com o fito de traçar um roteiro para pôr fim ao consumo de combustíveis fósseis.
“As nossas crenças e espiritualidades conduzem-nos à responsabilidade de cuidar e proteger a criação e a natureza e os seres vivos que a habitam” e, por isso mesmo, concluem: “Abandonar os combustíveis fósseis significa dizer sim ao respeito pelos direitos humanos e pelas culturas e tradições locais, com foco nos mais vulneráveis”.
“A energia limpa significa mais paz e democracia, porque pode ser gerada em qualquer lugar do mundo”, em contrapartida “os combustíveis fósseis só trazem guerras e a destruição da democracia”, declarou na manhã de dia 24 de abril o Presidente colombiano Gustavo Petro, na abertura da conferência que organiza em conjunto com os Países Baixos e que reúne até dia 27 de abril 45 delegações nacionais.
A conferência não se propõe dar origem a um acordo vinculativo, mas pretende adotar um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. O objetivo é convencer mais de 90 países a subscreverem esse roteiro na próxima COP31, que será realizada de 9 a 20 de novembro em Antalya, na Turquia. Recorde-se que na COP30 mais de 85 países pediram um roteiro para abandonar progressivamente os combustíveis fósseis. Sem consequências, pois no texto final (que requer a unanimidade dos Estados participantes) as palavras “combustíveis fósseis” nem sequer são mencionadas.
Embora a maioria dos países que participam na Conferência de Santa Marta se façam representar por delegações de alto nível, Portugal não enviou nenhum responsável governamental. Porém, quanto mais não seja pelos mais de dez milhões de barris de petróleo por dia atualmente retidos no estreito de Ormuz, nunca foi tão evidente o perigo real que é depender de combustíveis fósseis importados.
Como afirmou Mary Robinson, antiga presidente da Irlanda e destacada defensora da justiça climática, em conferência de imprensa que antecedeu o início da reunião, “a subida dos preços do petróleo não se fica pelos mercados da energia – entram diretamente na vida das pessoas e o seu impacto atinge com maior violência os mais vulneráveis”.
De acordo com a vice-primeira-ministra e ministra da Política Climática e do Crescimento Verde dos Países Baixos, Sophie Hermans, a meta central desta conferência é garantir que “o abandono gradual da dependência dos combustíveis fósseis” seja feito de forma justa, ou seja, sem “gerar impactos negativos em termos de emprego, estabilidade macroeconómica, ou segurança energética”. “Temos de começar a concretizar o que poderá ser esta eliminação gradual e lançar um roteiro concreto que nos permita integrar o novo e deixar para trás o antigo”, afirmou Hermans.
Injustiça insuportável

Iemenitas deslocados devido às cheias. “Aqueles que menos contribuem para a crise climática são os mais afetados e os menos preparados para lidar com ela.” Foto © Acnur/YDF
“Abandonar os combustíveis fósseis significa dizer não à exploração contínua do solo, à crescente degradação da habitabilidade da Terra e aos danos irreparáveis à diversidade e à abundância da vida”, escrevem os 154 subscritores da declaração francesa que prosseguem: “Abandonar os combustíveis fósseis significa dizer sim a uma mudança profunda que nos conecta ao mundo e a outros seres, [significa dizer sim] a compartilhar a terra, as águas e o céu de forma sustentável, como coabitantes [que somos].”
A declaração apela “aos agentes financeiros e às empresas extrativistas para que abandonem estas energias e reorientem os seus modelos para as energias renováveis e a eficiência energética, no âmbito de uma transformação social justa”. Os subscritores afirmam recusar-se “fechar os olhos perante o sofrimento causado pelas escolhas atuais”, porque nas suas comunidades são testemunhas “dos efeitos nocivos e mortais de uma indústria sem escrúpulos e das mudanças climáticas”, sendo que “a injustiça é insuportável: aqueles que menos contribuem para a crise climática são os mais afetados e os menos preparados para lidar com ela”.
Entre os assinantes desta tomada de posição figuram, por exemplo, o presidente da CCFD-Terre Solidaire, a presidente da Justiça e Paz francesa, vários imãs, monges budistas, pastores de igrejas protestantes, um bispo católico emérito, rabinos e rabinas, representantes do Movimento Laudato Si’ França, irmãs e monges católicos.
Para situar importância da Conferência de Santa Marta, o texto refere “cinco números” que “pintam um quadro impressionante” da situação a que se chegou pela incapacidade de travar o recurso aos combustíveis fósseis: “Desde o Acordo de Paris de 2015, os bancos investiram a colossal quantia de 7.900 mil milhões em combustíveis fósseis. Esse capital financiou 2.343 projetos de extração de petróleo, gás e carvão em todo o mundo, incluindo 601 ‘bombas de carbono’ — megaprojetos, cada um responsável pela emissão de mais de uma gigatonelada de CO2. Ao longo da sua vida útil, estes projetos emitiriam juntos 1.400 gigatoneladas de CO2, ou seja, 11 vezes o teto das emissões de carbono necessário para limitar o aumento do aquecimento global a 1,5°C”.










