Nos próximos dias 15 e 16 de novembro decorre em Alfragide (Amadora) a 38.ª Assembleia Mundial do MIIC (Movimento Internacional de Intelectuais Católicos/Pax Romana) com o tema «Transformar ICMICA-MIIC no espírito da sinodalidade e a inovação digital».
No âmbito desta dinâmica internacional, realizou-se em março um encontro ibérico em que participaram membros do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais (Portugal), BKA-Eúskadi (País Basco), Solasdibe (Navarra) e Movimento de Profissionais Católicos de Barcelona (Catalunha), que integram aquela estrutura internacional. O encontro foi dedicado ao tema “Desbravar caminhos para a Paz – contributos das pessoas de boa-vontade para a cooperação”.
O 7MARGENS divulga agora três dos textos desse encontro. Publicámos já “Como sermos pacificadores e pacificadoras no nosso ambiente?”, de Neús Forcano, diretora da Comissão Justicia y Paz, de Barcelona. e “O Amor aos inimigos: uma oportunidade para a Paz”, de Ramon Ibeas, teólogo e secretário-geral da Cáritas diocesana de Vitória.
Reproduzimos a seguir a síntese do encontro, a partir da reflexão ali tida, elaborada por Paulo Melo, coordenador do Metanoia.
“Desbravar caminhos para a Paz – contributos das pessoas de boa-vontade para a cooperação internacional” foi o tema que motivou um encontro ibérico com cerca de 50 participantes no Seminário da Boa Nova em Valadares de 28 a 30 de março. Organizado pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais (Portugal), BKA-Euskadi (País Basco), Solasdibe (Navarra) e Movimento de Profissionais Católicos de Barcelona (Catalunha), contou com participantes de todos estes movimentos que integram o MIIC, Movimento Internacional de Intelectuais Católicos – Pax Romana.
Luís Leal, Rámon Ibeas, Mendo Castro Henriques e Neus Forcano desenvolveram os temas “Os Cristãos, a Guerra e a Paz: História e Teologia”, “O Amor aos Inimigos: uma oportunidade para a Paz”, “Paz e Guerra nos tempos atuais”, e “Como sermos pacificadores e pacificadoras no nosso ambiente?”, respetivamente. Suscitaram questões, reflexões e debate entre todos os participantes. Seguem-se as principais ideias das comunicações e debates subsequentes.
A permanência da guerra

Mendo Castro Henriques durante a sua intervenção, ladeado por Alfreda Fonseca, do Metanoia. Foto © António José Paulino.
Parecendo ser inerente à condição humana, a permanência da guerra está ligada à definição de fronteiras, à identidade dos povos e à constituição de nações. Objeto de muita teorização, a guerra é um duelo em que um dos adversários tenta impor a sua vontade ao outro através da violência. O puro acaso ou fortuna estão sempre presentes e, consoante o peso de cada um dos elementos da “trindade espantosa”, razão, paixão e acaso, assim a guerra se aproximará mais do modelo da guerra absoluta, com a “escalada” até ao extremo da violência absoluta ou se afastará dele, com a descida à “observação armada” e à paz possível, segundo Clausewitz, evocado por Mendo Castro Henriques.
O desenvolvimento de armas nucleares pelos estados mais poderosos provoca uma mudança significativa na teorização sobre a guerra. Bernard Brodie reconhece que “Até agora, o objetivo principal da nossa instituição militar tem sido vencer guerras. De agora em diante, o objetivo principal é evitá-las. Não tem mais nenhum propósito útil.” Formulava deste modo a teoria americana da dissuasão nuclear através do equilíbrio do terror que prevaleceu durante a guerra fria. Raymond Aron também recusou a lógica apocalíptica, considerando que o pior seria evitado e a dissuasão triunfaria. É certo que impediu o conflito aberto entre as duas superpotências, mas não os múltiplos conflitos localizados em que se confrontaram indiretamente.
A esperança de um mundo mais pacífico com o fim da guerra fria, tendo como pressupostos os direitos humanos, o multilateralismo no âmbito da ONU, a democracia, depressa se desvaneceu e fundamentalismos, nacionalismos, a indústria do armamento, ambições imperialistas alimentaram inúmeras guerras civis e entre estados.
As formas e teorias da guerra não param de evoluir, acompanhando o desenvolvimento económico, tecnológico e o surgimento de novas conjunturas. Muitos outros meios têm sido postos em prática para aniquilar o inimigo. Não se travam só entre exércitos, nos campos de batalha. O recurso à guerrilha em que os mais fracos, povos sob dominação colonial, afrontaram as potências coloniais que os dominavam, tiveram, em muitos casos, sucesso. As operações de propaganda, desinformação e teorias da conspiração levadas a cabo nos meios de comunicação (TV, plataformas digitais e redes sociais), o terrorismo, violência armada dirigida de forma indiscriminada contra massas de populações, os ataques informáticos capazes de paralisar serviços vitais (transportes, eletricidade, comunicações, sistema bancário…) são formas híbridas de destruição e morte, novas dimensões da guerra.
Os fenómenos climáticos extremos podem ser interpretados como um novo tipo de guerra em que a natureza se vinga em destruição e morte das agressões perpetradas por interesses, organizações e estados que não a preservam, nem respeitam.
E a Paz?

Luís Leal citou Aristóteles: “Se fazemos a guerra é para depois vivermos em paz… e ninguém amaria fazer a guerra só pela guerra”. Foto © António José Paulino.
Apesar da guerra ser uma constante da história da Humanidade, a paz desde a Antiguidade foi sempre um anseio. Os mitos da criação – o paraíso terrestre bíblico ou a idade do ouro de Hesíodo, entre outros – contemplam um estádio primeiro de Paz. A guerra é sempre apresentada por quem a desencadeia como um caminho para a paz, naturalmente a paz dos vencedores que pressupõe a aniquilação ou dominação dos vencidos. Luís Leal sublinhou-o, citando Aristóteles: “Se fazemos a guerra é para depois vivermos em paz… e ninguém amaria fazer a guerra só pela guerra” (Ética a Nicómaco, X, 7).
A raiz da palavra guerra remete para confusão, discórdia, enquanto a da palavra paz está associada a “juntar uma coisa a outra”, “pacto”, “acordo” através do diálogo no respeito pela integridade do outro. Nessa medida, é mais do que a mera ausência de guerra inscrevendo-se num horizonte utópico de justiça e harmonia.
No século XVIII, com o Iluminismo, com a confiança na razão e no progresso, a paz entre os estados começa a ser considerado um programa concretizável. “A Paz Perpétua” de Emanuel Kant exprime essa convicção. Como sublinha Rámon Ibeas: “A paz não é natural. É uma conquista da vontade. Estabelecê-la é um dever. Estas são três afirmações retiradas da obra “Paz Perpétua”, de Emmanuel Kant, que refletem três realidades fundamentais que devem ser levadas em conta se realmente quisermos promover processos de paz.”
A ONU e a União Europeia, com todas as suas limitações e fracassos, são tentativas de concertação e diálogo no respeito pelos direitos humanos e pela integridade territorial dos estados para a promoção da paz e cooperação na linha do ideal kantiano.
Mesmo quando, na atualidade, são inúmeros os conflitos armados geradores de destruição e morte, o dever da paz há de continuar a mobilizar a nossa vontade.
Os cristãos, a guerra e a paz: história e teologia

O autor do texto, com o padre Luís Maria Goicoechea, assistente internacional do MIIC, e Camino Beuno, do Solasbide, Navarra. Sobre René Girard, Paulo Melo lembrou que este defende que o Sagrado gera guerras enquanto o Evangelho gera a paz. Foto © António José Paulino.
São múltiplas as abordagens religiosas da guerra. As relações entre sagrado e guerra/violência atravessam a história da Humanidade em diversas formulações e tempos históricos.
No Antigo Testamento, a formação do povo de Israel surge em duas versões: a mosaica em que o povo nasce após a conquista violenta da terra prometida e a abraâmica em que o povo é constituído pela promessa de possessão pacífica do mundo. São expressões do caminho de aproximação a Deus que o povo judeu vai fazendo ao longo da sua história.
Na Bíblia a expressão “Senhor dos Exércitos” aparece 256 vezes e a guerra é interpretada como sacramento religioso de Israel com a consequente sacralização dos guerreiros. A travessia do Mar vermelho é apresentada como uma guerra salvadora e os soldados são considerados heróis e santos.
Mas no mesmo Antigo Testamento, Isaías é a voz de um messianismo profético de paz em que das espadas se forjarão foices, o lobo habitará com o cordeiro e no monte Sião, o Senhor do Universo vai oferecer a todos os povos um banquete. Apresenta o servo do Senhor como vítima sacrificial muda e mansa, figura da não-violência salvadora.
Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, profetizado por Isaías, rompe a relação entre sagrado e violência. A paz que anuncia e vive não é como a dá o mundo (Jo 14, 27), com vencedores e vencidos. Nas Bem-aventuranças, impedindo a resposta à violência com a violência[1], prescrevendo o amor aos inimigos, recusando ver neles o mal absoluto, abrindo portas ao perdão, Jesus Cristo “quer que os homens reconheçam o seu papel de fazedores de vítimas, de perseguidores. É porque proclama as regras do reino e renuncia totalmente à violência sacrificial que o próprio Cristo é sacrificado.”[2]
René Girard no livro A Violência e o Sagrado, defende que o Sagrado gera guerras enquanto o Evangelho gera a paz. A chamada “teoria mimética” indica que nos imitamos uns aos outros, invocando o nome de Deus, criando identidades coletivas, conforme rituais, mitos e éticas que vão evoluindo. Quando nas sociedades surgem conflitos, a solução corrente é considerar culpados um grupo ou indivíduo – bode expiatório (bouc émissaire) – expulsando-os da coletividade se necessário com violência até à morte, e segundo o conhecido princípio de Clausewitz de que o conflito toma sempre a forma de escalada.

Agostinho de Hipona esboçou um direito de guerra que definia regras para evitar a violência despropositada ou excessiva. Imagem: Philippe de Champaigne, Santo Agostinho (1602–1674)
Jesus Cristo veio desvendar os mecanismos da violência. A paixão de Cristo revela a inocência da vítima. Seguimos a mensagem evangélica no momento em que recusamos a escalada da violência como pretensa lei da vida e da história. Em vez do bode expiatório, o “cordeiro da paz”. Os evangelhos da Paixão – já prefigurados em Abraão, e nos profetas – revelam a origem sacrificial da humanidade, mas saem de uma noção compacta do sagrado, para uma noção diferenciada de santidade, sem violência.
O ideal da paz e da recusa da violência foi objeto de discernimento por parte das primeiras comunidades cristãs. Muitos apologistas e pensadores se pronunciaram perante situações concretas. Aristides e Justino, apologistas dos séc. II, rejeitam todas as formas de violência e consideram que a adesão ao cristianismo implica a rutura com a antiga cultura da guerra e do ódio aos inimigos. Tertuliano condena o serviço militar e a crueldade da guerra. Já Orígenes admite a possibilidade da guerra em legítima defesa, devendo evitar-se sempre a violência injustificada.
Depois do édito de Milão do imperador Constantino, em 313, que concede a liberdade de culto aos cristãos e do édito de Tessalónica que torna o cristianismo a religião oficial do Império Romano, em 380, novos desafios se colocam ao pensamento cristão. Lactâncio que rejeitava todo o tipo de violência, inclusive de legítima defesa passa a aceitar o serviço militar “ao serviço da Pátria”. S. Basílio Magno e Santo Ambrósio de Milão admitem o recurso à guerra como meio permitido por Deus para repor o bem comum.
Para Santo Agostinho (354-430) uma guerra poderia ser considerada justa, caso fosse conduzida dignamente, sem violência despropositada como resposta em último recurso a uma agressão e tendo como objetivo a obtenção de uma paz justa. Esboça um direito de guerra que define regras para evitar a violência despropositada ou excessiva.
A desagregação do Império Romano do Ocidente, no séc. V, com as invasões dos povos germânicos, alarga as competências dos bispos que passam a ser, em muitas situações, a única autoridade, sendo, portanto, responsáveis, pela defesa das cidades de que eram senhores. Construir muralhas e fortificações passaram fazer parte a das suas funções. Os eclesiásticos eram, portanto, homens treinados militar e culturalmente para a guerra… Mesmo se formalmente condenada pela Igreja, a guerra tornou-se, portanto, uma das suas funções, ao longo da Alta Idade Média (séculos V e X).

São Bernardo e São Tomás de Aquino (na imagem) fundamentam teologicamente a “Guerra Santa” contra os hereges e os infiéis, considerando que sempre que haja cristãos perseguidos em razão da sua fé, é legítimo usar da violência para os libertar. São Tomás de Aquino. Foto © Direitos Reservados
Nos séculos X e XI regista-se uma tentativa de cristianizar a função do cavaleiro, através de um processo de sacralização da guerra. A violência podia ser aceitável e praticável só em defesa do cristianismo. Mesmo assim, as instituições eclesiásticas intervieram como mediadoras dos conflitos e limitadoras da violência. Com ou sem a coordenação da Santa Sé, as igrejas locais promoveram as “Tréguas de Deus” com o fim de suspender os atos de violência e guerra, por exemplo, durante as festividades religiosas e as “Pazes de Deus” (Pax Dei), ou seja, assembleias com a participação do clero secular e regular e do poder civil para suspender os atos de violência nas dioceses.
No final do séc. XI, após conquista da Terra Santa pelos turcos, o Papa Urbano II, no Concílio de Clermont em 1095, mobiliza os cristãos europeus para libertar o Santo Sepulcro e outros lugares sagrados. As expedições militares sucedem-se até ao início do séc. XIII. Constituem-se ordens religiosas militares e recupera-se o conceito de “Guerra Santa”, na perspetiva do Antigo Testamento. Se travada contra um inimigo que ameaçava a sobrevivência da Cristandade era da vontade de Deus e, por isso, “Santa”.
São Bernardo e São Tomás de Aquino fundamentam teologicamente a “Guerra Santa” contra os hereges e os infiéis, considerando que sempre que haja cristãos perseguidos em razão da sua fé, é legítimo usar da violência para os libertar.
No início do séc. XIII, a associação entre Evangelho e violência é questionada. A força persuasiva da Palavra, protagonizada por São Domingos, e o compromisso evangélico com a pobreza, vivido por São Francisco, propõem outros caminhos para a missão da Igreja. Já não é necessária qualquer “Cruzada”: o Reino de Deus é instaurado não pela força das armas, mas pelo anúncio – palavra e testemunho – e pela pobreza radical, pacífica e redentora de Jesus Cristo.
A tensão entre imposição e anúncio, poder e serviço, perdurarão até à contemporaneidade. A inquisição, as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII, em que ambições imperialistas se cruzam com a divisão entre os cristãos, a instrumentalização da religião nos processos de dominação colonial, são muitas as situações históricas em que o cristianismo esteve associado à violência e à guerra. Houve sempre, também, vozes proféticas a anunciar e viver o Reino de Paz e Justiça, como discípulos de Jesus.
A Igreja e a guerra na contemporaneidade (séculos XX e XXI)

O Papa Paulo VI criou o Dia Mundial da Paz em 1968, celebrado anualmente no dia 1 de janeiro, mas nem sempre aproveitado pelos crentes para fazer da construção da paz um elemento estruturante da vivência da fé. Na imagem, Paulo VI na ONU em 1965, numa altura em que o Concílio Vaticano II se aproximava do final. Foto: Direitos reservados.
As duas grandes guerras do século XX e as muitas que durante a Guerra Fria lhe sucederam têm constituído desafios aos cristãos comprometidos com a construção da paz e motivaram por parte da Igreja Católica reflexões que perduram e constituem uma rutura com santidade da guerra.
Bento XV considera a Primeira Guerra Mundial um “massacre inútil”, adotando uma atitude diplomática de imparcialidade. Pio XII, na radiomensagem de 1944, condena a guerra de agressão como solução legítima para as controvérsias internacionais e apoia a democracia, repudiando os regimes autoritários.
O II Concílio do Vaticano vai reconhecer a justa autonomia das realidades terrestres e que a Igreja não detém o exclusivo da salvação. A partir de então o pensamento sobre a paz e a guerra a partir da leitura dos sinais dos tempos à luz do Evangelho tem sido uma constante no magistério da Igreja.
Ainda decorria o Concílio, em plena guerra fria, a encíclica Pacem in Terris, do Papa João XXIII, aprofunda o pensamento da Igreja sobre a paz. Esse documento, dirigido a todas as pessoas de boa vontade, afirma que “a paz entre os povos exige a verdade como fundamento, a justiça como norma, o amor como motor, a liberdade como clima” e defende “que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua.” A relação entre paz e justiça é sublinhada a partir de então no pensamento social católico.
A criação pelo Papa Paulo VI do Dia Mundial da Paz, em 1968, desde então celebrado anualmente no dia 1 de janeiro, evidencia a importância atribuída a este desígnio pela Igreja. As mensagens propostas todos os anos refletem os sinais dos tempos em que foram redigidas, assim como as prioridades e pensamento de cada pontífice. São diferentes abordagens, nem sempre aproveitadas pelas comunidades cristãs para fazer da construção da paz um elemento estruturante da vivência da fé.
O Papa Francisco, perante um contexto internacional que designou de “terceira guerra mundial aos pedaços”, atualizou o pensamento da Igreja. Rámon Ibeas, na sua comunicação, assinala os seus pronunciamentos mais significativos. A exortação apostólica Evangelii Gaudium, no nº 59 logo no início do seu pontificado afirma “Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão”. A relação da violência e da guerra com a desigualdade e injustiça social é inequivocamente reconhecida.

Capa da edição da encíclica Fratelli Tutti em russo, com o Papa Francisco e o Grande Imã Ahmed Al-Tayyeb, de Al-Azhar, na assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana, em fevereiro de 2019. Foto: Direitos reservados
Em 2019, no Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado e publicado em 4 de fevereiro juntamente com o Grande Imã de Al-Azhar, o egípcio Ahmed Al-Tayyeb, em nome de Deus, pedem “aos líderes do mundo, aos arquitetos da política internacional e da economia global, que se comprometam seriamente com a difusão da cultura da tolerância, da coexistência e da paz”.
Referindo-se à guerra na Ucrânia, o Papa disse que “devemos passar de uma estratégia de poder político, económico e militar para um projeto de paz global: não um acordo dividido entre potências em conflito, mas sim um mundo unido de povos e civilizações que se respeitem mutuamente”.[3]
Na nota 242 de encíclica “Fratelli Tutti”, Francisco recusa o conceito de “guerra justa”: “Mesmo Santo Agostinho, que elaborou uma ideia da “guerra justa” que hoje já não defendemos, disse que “matar a guerra com a palavra e alcançar e conseguir a paz com a paz e não com a guerra, é maior glória do que a dar aos homens com a espada.”
O discernimento a partir dos valores evangélicos é mais complicado quando se trata de situações em que se impõe o uso da violência perante uma agressão. O catecismo da Igreja Católica considera que “a legítima defesa pode ser não apenas um dever, mas um dever grave para quem é responsável pela vida de outrem. A defesa do bem comum exige que o agressor seja colocado em posição de não poder causar dano. Por isso, aqueles que detêm a legítima autoridade têm também o direito de repelir, mesmo com o uso das armas, os agressores da sociedade civil, confiados à sua responsabilidade”. No entanto, a sua legitimidade há de ter em consideração a proporcionalidade da resposta a uma qualquer agressão e a distinção entre quem decide e os que estão sob a sua autoridade. Os israelitas não são Netanyahu, nem os palestinianos de Gaza são o Hamas. A agressão militar indiscriminada do Estado de Israel à população de Gaza com o pretexto da eliminação do Hamas não é legítima defesa, mas ocupação violenta de um território. A tradição da Igreja prescreve o diálogo que ajuda à reconciliação, que requer a participação de terceiros[4] que buscam o consenso para criar as condições para a paz e avaliar as ações das partes.
Ser construtores da Paz

Neus Forcano: “O neoliberalismo está ocupado em fazer-nos acreditar que a guerra é necessária.” Foto © António José Paulino.
Discípulos de Jesus, prosseguindo este caminho na tradição católica, com contradições e equívocos, mas também de conversão, como podemos ser neste nosso tempo construtores de paz?
Nas últimas décadas tem-se afirmado correntes de pensamento que valorizam a competição e a agressividade como fatores de progresso social. Trata-se de uma aplicação simplista dos princípios de Darwin sobre a seleção natural às sociedades humanas, caindo no erro de deduzir regras morais de comportamentos instintivos, não mediados pela consciência que distingue o bem do mal. Neus Forcano denuncia esse pensamento dominante: “O neoliberalismo está ocupado em fazer-nos acreditar que a guerra é necessária. Tenta por todos os meios fazer-nos aceitar, sem direito a protesto, o uso da força, dos mísseis e dos tanques. Apercebemo-nos de que os Estados ocidentais não podem mediar os conflitos porque fazem parte dos interesses que os provocam”, nomeadamente pelos lucros da sua indústria do armamento.
Como sermos pacificadores e pacificadoras no nosso ambiente?
A mesma atitude de confronto está presente no nosso quotidiano. O medo do outro, federação russa ou emigrantes, a perda de qualidade de vida alimentam o ressentimento e os discursos de ódio. É mais fácil encontrar um culpado que se deve eliminar do que lidar com situações complexas sem soluções imediatas.
A escuta do outro diferente de nós, a empatia, o diálogo, a concertação são atitudes a promover através da educação e da formação nos nossos movimentos e comunidades cristãs.
Pela nossa fé estamos comprometidos com a construção da paz, em desarmar a violência, o desejo de domínio e eliminação dos outros que nos intimidam. Cremos que a paz não é a mera ausência de guerra, mas sim uma realidade que vem do transcendente, de Deus, e da relação que estabelecemos com essa experiência de transcendência e do amor ao próximo que dela decorre.
A construção da paz pressupõe um caminho espiritual pessoal e comunitário exigente e sem fim. Há responsáveis pela violência, pela guerra, pela dor, mas mesmo assim, o amor deve estar presente se quisermos avançar no caminho da verdadeira paz. Temos o dever de nos opor, de os chamar à razão, de procurar limitar o mal que fazem, mas sem os identificar com o mal. Segundo Emmanuel Levinas, citado por Luís Leal e Neus Forcano, “o rosto do outro é um rosto concreto, não é uma noção abstrata, e reconhecê-lo como tal é uma exigência ética que não permite reduzi-lo ou matá-lo”. “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem!” exclama Jesus na cruz, distinguindo o mal, das pessoas que o fazem. Somos convidados a assim estar nos conflitos na convicção de que, como João Paulo II afirmou num discurso de comemoração do fim da 2.ª Guerra Mundial, “A Igreja ensina que a verdadeira paz só é possível através do perdão e da reconciliação… o peso do pecado não pode ser esquecido, só pode ser aceite na presença do perdão reciprocamente oferecido e recebido. É um caminho longo e difícil, mas não impossível”. Só assim é possível romper com a reciprocidade destruidora da violência. O amor aos inimigos e o perdão são, como Rámon Ibeas acentua, dimensões da Paz a que Jesus nos chama.
Na sua comunicação, Neus Forcano sugere caminhos de construção da paz. Desvendar o desejo mais profundo de que cada um de nós e assim encorajar-nos a movermo-nos para um horizonte que nos dá espaço para agir e que espera um esforço da nossa parte, que dá sentido e coerência à vida, é um dos caminhos que propõe. Fazê-lo, diz Simone Weil, é uma necessidade da alma.
Incentivar o pensamento crítico, a leitura, a arte, o diálogo e o debate é outro dos desafios que faz. A leitura alarga a nossa visão e ajuda-nos a sair do nosso próprio egoísmo, impede-nos de cair num relativismo cínico – “não há nada a fazer” -, ou num niilismo vazio – “a vida não tem sentido”. A leitura descentra-nos, permite que nos encontremos com outras vidas, alimenta a reflexão interior e favorece o pensamento crítico.
“As artes plásticas e visuais, o teatro, oferecem experiências significativas de sentido e de coesão das relações sociais que devem ser encorajadas. Os jovens interessam-se por elas e devemos encorajar a transmissão da cultura, da espiritualidade e do sentido através destes instrumentos.
O importante não é ter tempo livre para o lazer e a cultura, mas criar cultura para ser livre”, afirma Neus Forcano.
Criar laços sociais com uma orientação e um objetivo políticos a favor da paz, é outro apelo de Neus Forcano. Transcreve-se a parte final da sua comunicação:
“A esperança é uma virtude moral que nada tem a ver com ilusão ou falsa utopia. É uma virtude resiliente de quem confia num trabalho empenhado em prol da justiça social e dos direitos humanos, em prol de uma governação participativa e contra qualquer tipo de violência. É a atitude de quem sabe situar-se na realidade do sofrimento dos outros e tenta – apesar de todos os impedimentos, leis e situações adversas – encontrar caminhos e estratégias de reconstrução pessoal e coletiva para o bem comum.
O trabalho pela paz está ligado à pedagogia da confiança. Precisamos de pôr em prática um paradigma que nos faça acreditar que somos mais do que aquilo que pensamos, mas menos do que aquilo que acreditamos ser, como diz a sabedoria do Islão Sufi, para nos convidar a ser humildes e a sentirmo-nos em pé de igualdade com os outros.
(…) A paz não é apenas a ausência de guerra, é uma forma de habitar o planeta. A paz não é, portanto, apenas a resolução mediada de um conflito armado, mas uma revolução mais profunda. A paz não se dá, constrói-se. É uma mudança de paradigma que implica uma praxis comunitária de processos de reflexão-debate-ação de políticas a favor da justiça social, económica e ecológica. A paz é política e assenta numa ética que não pode procurar apenas o pragmatismo a curto prazo ou a justificação dos interesses dos mais fortes, mas que abre o horizonte para um discurso e uma convicção a favor da não-violência.”
E agora?

Com o pensamento cristão e católico sobre as mesmas, procurámos caminhos exequíveis de paz. Imagem: “Viver o presente com a chave do futuro na mão de semear a paz”. Fotografia © Joaquim Félix
Confrontámo-nos com os sinais do nosso tempo, teorias sobre a guerra e a paz, assim como com o pensamento cristão e católico sobre as mesmas, procurámos caminhos exequíveis de paz.
Compete a cada um de nós, nos nossos movimentos e nas comunidades cristãs de que fazemos parte sermos ativos construtores da paz, isto é, fazer da paz um tema de estudo, oração e ação da nossa vivência comunitária da fé.
Demo-nos conta de quão profundo, pertinente e multifacetado, em função da sensibilidade dos seus autores e da conjuntura em que foi redigido, é o magistério da Igreja sobre a paz na contemporaneidade. Pode ser objeto de estudo e meditação, inspiração da ação dos cristãos, em conjunto com todos os homens e mulheres de boa vontade.
Cabe-nos ainda, na fidelidade ao Evangelho, denunciar o discurso do medo que fundamenta a corrida ao armamento e o lucro à custa da morte, contrapondo gestos e iniciativas de proximidade de criação de laços sociais com orientação e objetivo políticos a favor da paz, nas palavras de Neus Forcano.
Com tais gestos e iniciativas havemos de coerentemente desafiar os nossos bispos e conferências episcopais a serem mais atentos ao sofrimento infligido pelos interesses na guerra e ativos promotores da fraternidade e da paz, na fidelidade à fé de que são guias e vigilantes.
Nota final: Como se diz no início, o presente texto deve quase tudo aos textos e powerpoints gentilmente disponibilizados pelos autores das comunicações. Agradeço e relembro-os: Luís Leal, professor auxiliar convidado na Universidade Católica do Porto, Rámon Ibeas, teólogo, secretário-geral da Cáritas diocesana de Vitória, membro do BKA-Euskadi (País Basco), Mendo Castro Henriques, professor na Universidade Católica Portuguesa, e Neus Forcano, diretora da Comissão Justiça e Paz de Barcelona. A sua redação implicou uma seleção de conteúdos e a sua articulação segundo uma interpretação pessoal. Espero não ter traído o essencial do seu pensamento, mesmo tendo excluído reflexões relevantes e nem sempre ter referenciado devidamente os seus contributos.
Paulo Melo é coordenador do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais
[1] “Torna a pôr a tua espada na bainha, porque todos os que se servem da espada à espada morrerão.” (Mat 26, 52)
[2] René Girard, O Bode Expiatório e Deus, LusoSofia:press, Covilhã, 2009, p. 9.
[3] Mensagem de domingo, 3 de julho de 2022, no final do Angelus.
[4] Mat 18, 15-16: “Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e faz-lhe ver a sua falta, de maneira que o assunto fique só entre os dois. Se ele te ouvir, ganhaste um irmão, mas se não te quiser ouvir, leva contigo uma ou duas pessoas pois, como manda a Escritura, toda a acusação deve ser apoiada no testemunho de duas ou três pessoas”


![Apelo de Metz [texto integral] O Papa no encontro no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Foto Vatican Media](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-480x252.jpg)







