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Chamas, fuligem, humanidade

| 22/11/2019

Chamas, fuligem, humanidade

by | 22 Nov 19 | Entre Margens, Últimas

A Igreja da Assunção, em Santiago do Chile, depois do ataque a que foi sujeita, no dia 8 de Novembro. Foto ACN Portugal

 

Fito as imagens das igrejas queimadas no Chile e recordo. Trago de novo ao coração lembranças dolorosas: a iconoclastia que irrompeu em tantos momentos do devir humano; o saque de igrejas em demasiadas épocas da História, levado a cabo até por “paladinos” da cristandade que de cristãos pouco tinham; as esculturas e pinturas destruídas depois de 1563, porque não correspondiam aos ditames “decorosos” de Trento; os conventos portugueses de frades e de freiras esvaziados depois de 1834, com a dispersão, a destruição e a venda em almoeda de tanto património precioso; a igreja da Anunciada, em Setúbal, incendiada em 1910; a imagem de São João Baptista, padroeiro de Almada, atirada ao Tejo no mesmo ano (prontamente recuperada pelos pescadores); o património destruído ou abastardado por sacerdotes e leigos que não conseguem entender o valor evangelizador da arte na sua verdade expressiva; o incêndio purificador da igreja de São Domingos de Lisboa (“lavando” a memória viva, aí existente, dos cortejos da Inquisição) e a sensível e sensata decisão de manter no templo reaberto a lembrança das chamas e da erosão que provocaram. Recordo o incêndio que tem devorado tantos seres humanos, sendo eles (nós) “templos do Espírito Santo”…

Recordo tantas perseguições, tanto ódio – de judeus contra cristãos, de cristãos contra judeus, de cristãos contra cristãos, de muçulmanos contra cristãos e judeus, de judeus e cristãos contra muçulmanos, de ateus contra crentes, de crentes contra ateus, de ateus contra ateus… E pergunto-me se alguma vez a insanidade humana terá fim.

Dizem-me que a estupidez não tem limites. O fanatismo é uma expressão da estupidez que se agarra a Deus escarrando-Lhe na cara ou escarra na cara de Deus e dos seus seguidores dizendo que Ele não existe, mas – paradoxo ou parvoíce – tem de ser combatido em toda a influência benéfica, em nome de uma “liberdade” que é, na verdade, submissão à tirania, espécie de prisão perpétua.

Leio que o diabo é o pai da mentira e que esse nome do inimigo significa divisão (ao contrário do “símbolo”, que é união ou religação ou religião). Estamos divididos, talvez mais do que nunca. E sós, muito sós, desdenhando a companhia que nos é oferecida. Manifesta-se por todo o lado o “mistério da iniquidade”. Tudo me dá que pensar, que meditar. Olho para as fotografias e penso naqueles miúdos que esmurram as paredes para não esmurrarem aqueles de que têm medo. No Chile e noutros lugares queimam-se igrejas quando, na realidade, há apenas vontade de queimar outros seres humanos, porque erraram, porque pensam de maneira diferente, porque existem. Lembro Sophia e escrevo, de memória: “Perdoai-lhes, Senhor, porque sabem o que fazem.” Não tenho, todavia, a certeza. Saberão realmente o que andam a fazer? Conhecerão a mão que guia a sua fúria e a manipula? Fito a imagem e não paro de pensar. Uma imagem da Virgem, negra de fuligem, representa a humanidade.

 

Ruy Ventura é poeta, ensaísta e investigador, autor de Sob os braços da azinheira – leituras de Fátima e organizador da Antologia Poética, de Frei Agostinho da Cruz.

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