Trinta e sete anos após a repressão militar que pôs fim às manifestações pró-democracia na Praça Tiananmen, em Pequim, a China continua empenhada em apagar da memória coletiva um dos episódios mais traumáticos da sua história contemporânea. Paradoxalmente, os mecanismos cada vez mais sofisticados de censura parecem estar também a despertar a curiosidade de uma nova geração de chineses que procura compreender aquilo que o Estado insiste em ocultar.
Na primavera de 1989, milhares de estudantes e cidadãos reuniram-se na Praça Tiananmen para exigir reformas políticas, maior liberdade de expressão e o combate à corrupção. Na noite de 3 para 4 de junho, o Governo chinês ordenou a intervenção militar. Soldados e tanques avançaram sobre Pequim para dispersar os manifestantes. O número exato de vítimas continua desconhecido. As autoridades reconheceram 241 mortos, mas organizações de direitos humanos e diversos investigadores estimam que o número real possa ascender a vários milhares.
Desde então, o Partido Comunista Chinês construiu uma das mais vastas operações de apagamento histórico da era moderna. Nas escolas, os acontecimentos são frequentemente omitidos ou descritos como um período de “agitação política”. Na internet chinesa, referências ao 4 de junho são sistematicamente eliminadas. Expressões, imagens e até símbolos indiretos relacionados com Tiananmen são bloqueados por sofisticados sistemas de vigilância digital.
Uma investigação recente da ABC News australiana revelou que a inteligência artificial está hoje no centro desta estratégia. Documentos internos mostram que algoritmos são treinados para identificar não apenas referências explícitas ao massacre, mas também metáforas visuais que possam evocar a célebre imagem do “Homem do Tanque”, o manifestante solitário que enfrentou uma coluna de carros de combate. Segundo os documentos, até uma sequência aparentemente inocente de “uma banana e quatro maçãs” pode ser sinalizada pelos sistemas de censura por reproduzir a composição visual daquela fotografia histórica. “Se a censura continuar e for cada vez mais alimentada por inteligência artificial, as futuras gerações poderão deixar de saber o que aconteceu”, alerta o especialista em ciber-risco Lennon Chang. “Cria-se um mundo falso, uma história falsa.”

O chatbot chinês de IA DeepSeek recusou-se repetidamente a responder às perguntas da ABC sobre o massacre da Praça da Paz Celestial. Imagem © ABC News/Bang Xiao
Contudo, apesar deste controlo apertado, a verdade continua a vir ao de cima. Um artigo publicado pelo The Washington Post e pelo Público (exclusivo a assinantes) relata vários casos de jovens chineses que descobriram a história de Tiananmen através de episódios aparentemente banais na internet. Foi o caso da recente campeã mundial de patinagem artística Alysa Liu. Quando utilizadores das redes sociais chinesas começaram a discutir o passado do seu pai, Arthur Liu — participante nos protestos de 1989 e posteriormente exilado nos Estados Unidos — muitos jovens depararam-se pela primeira vez com referências aos acontecimentos da Praça Tiananmen.
Margaret Roberts, cientista política da Universidade da Califórnia em San Diego, observa que “quando a informação política e o entretenimento se cruzam, isso torna-se particularmente perigoso e difícil para os governos que tentam censurar”. E o esforço para apagar a memória acaba mesmo, por vezes, por produzir precisamente o efeito contrário: suscita perguntas, investigações e descobertas.
A historiadora Rowena He, investigadora da Hoover Institution e especialista na memória de Tiananmen, considera particularmente preocupante o impacto deste apagamento nas gerações mais jovens. “Quando os estudantes são ensinados a acreditar que vidas humanas podem ser sacrificadas em nome do crescimento económico e da ascensão da China, a opinião pública acaba por ser distorcida por valores fundamentalmente incompatíveis com o mundo democrático”, afirma.
Entretanto, também Hong Kong, durante décadas o único território chinês onde era possível recordar publicamente o massacre, deixou de ser um espaço seguro para essa memória. Desde a imposição da Lei de Segurança Nacional em 2020, foram encerrados museus, proibidas vigílias e restringidas iniciativas de homenagem às vítimas.
Ainda assim, a memória persiste, como relata a UCA News. Este ano, familiares das vítimas reuniram-se discretamente no cemitério de Wan’an, em Pequim, sob forte vigilância policial e sem autorização para utilizar telemóveis ou câmaras fotográficas. Apesar das restrições, continuaram a depositar flores junto às sepulturas dos seus familiares. “A cerimónia das Mães de Tiananmen é a expressão mais básica da humanidade, mas é tratada como um ato político”, declarou um antigo jornalista do People’s Daily à Radio Free Asia.
A persistência destas famílias lembra que a verdade histórica dificilmente pode ser eliminada por decreto. Trinta e sete anos depois, Tiananmen continua a projetar a sua sombra sobre a China contemporânea. E talvez a maior demonstração da força daquela memória seja precisamente o esforço extraordinário que continua a ser feito para a silenciar.










