Mutilado, com numerosas feridas de faca e já sem vida: assim foi encontrado, no meio de uma floresta, o corpo do padre Donald Martin Ye Naing Win, por membros da paróquia de Nossa Senhora de Lourdes (arquidiocese católica de Mandalay, no centro de Myanmar), onde dava assistência. O assassinato, o primeiro de um presbítero católico desde o início da guerra civil, terá acontecido na noite de 14 de fevereiro, causando choque e medo na comunidade católica do país.
Donald Win tinha 44 anos e havia sido ordenado em 2018 naquela arquidiocese, onde residem 38 famílias católicas.
“Estamos profundamente chocados e tristes com esta notícia”, disse o cardeal Charles Bo, presidente da Conferência Episcopal Birmanesa, num comunicado citado esta segunda-feira, 17, pelo jornal La Croix. “O padre Donald Martin, cujo lema de ordenação foi: ‘Amas-me realmente mais do que estes? Sê o pastor dos meus cordeiros’ (Jo 21, 15), derramou o seu sangue e sacrificou a sua vida por muitas pessoas inocentes para pôr fim à violência que assola o país”, sublinhou. “Assim, pedimos aos responsáveis que tomem as medidas adequadas e garantam que é feita justiça, para que tais incidentes não voltem a acontecer no futuro.”
“Vamos aprender com esta tragédia de partir o coração. Apelamos sinceramente a todos os irmãos e irmãs para que acordem e ponham fim à violência”, escreveu por seu lado o arcebispo Marco Tin Win, de Mandalay.
Já esta terça-feira, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre manifestava a sua solidariedade para com ambos os prelados “e com todos os sacerdotes, religiosos e fiéis da Arquidiocese de Mandalay, bem como com a família e os entes queridos do Padre Donald, que choram a sua perda prematura”. E alertava para “o desafio e o imenso risco que a Igreja enfrenta num contexto de violência generalizada, à medida que prosseguem os confrontos entre o exército de Myanmar e as milícias da oposição”.
“Perante esta violência, que afeta toda a população, sacerdotes como o padre Donald Martin dedicam-se a ajudar as suas comunidades, proporcionando conforto espiritual e apoio às pessoas que sofrem na região. A sua morte põe em evidência a difícil situação enfrentada pela comunidade católica em Mianmar e a coragem daqueles que continuam a servir o povo, apesar dos perigos”, pode ler-se no comunicado da fundação pontifícia.
De acordo com o Vatican News, dez homens suspeitos de terem cometido o assassinato foram entretanto detidos por milicianos das Forças de Defesa do Povo, que se opõem à junta militar e controlam toda a região.
A Fundação AIS manifestou também o seu consternamento pelo recente bombardeamento da Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Mindat, no estado de Chin, que havia sido designada como catedral pelo Papa Francisco alguns dias antes. [Ver 7MARGENS] “Estamos gratos pelo facto de não se terem perdido vidas neste ataque, mas devemos recordar que a destruição de um local de culto, seja qual for a sua religião, é um ataque não só contra a comunidade religiosa, mas também contra o direito fundamental de todas as pessoas a terem um local para expressar a sua fé”, escreveu Regina Lynch, presidente executiva da Fundação AIS Internacional.
Myanmar tem uma população de mais de 54 milhões de habitantes, a maioria budista, 6% cristãos e 3% católicos. Desde que o exército birmanês derrubou o Governo democraticamente eleito da líder Aung San Suu Kyi, em fevereiro de 2021, Myanmar está a viver uma espiral de violência, que já provocou mais de seis mil mortos civis.
(Imagem de destaque: Momento do funeral do padre Donald Martin Ye Naing Win, assassinado em Mandalay, Myanmar. Foto © Arquidiocese de Mandalay)
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