Chorar em Fátima

| 18 Out 20

Apeteceu-me dizer aos companheiros dos círculos ao lado que sou ateu, que me ensinem como é sentir o que eles sentem. Que importa? Senti o coração a abrir-se e descobrir que também sou uma árvore frondosa como o meu pai e a minha mãe desejaram que eu fosse.

Adriano Miranda. Fátima. 13 Outubro 2020. Covid-19.

Fátima, 13 de Outubro 2020. Foto © Adriano Miranda/Público, cedida pelo autor. 

 

O meu primeiro mergulho foi na pia baptismal. Não por minha vontade, mas por vontade dos meus pais. Ainda era tenro de mais para saber que estava neste mundo. Ou melhor, saber que mundo é este. Naquele dia realizei o sacramento e fiquei ligado a Deus. Um eterno cristão. Na igreja, num domingo de manhã, o meu coração recebeu a semente de Deus, que, na esperança dos meus pais, me tornariam numa árvore frondosa no meio da selva que tudo isto é – há árvores e espinhos.

Fui crescendo. Todos os anos o padre vinha visitar a escola. No estrado, com a cruz de Cristo por cima do quadro, o padre convencia as crianças a irem para a catequese. Devo ter sido o único que dizia “não”. Havia depois aquele domingo mágico do sacramento da eucaristia. Nunca tive domingos mágicos. Na matrícula escolar, sempre coloquei a cruz no “não” na disciplina de Religião e Moral. Quando perguntei ao amor da minha vida se casava comigo, ela riu-se. Fiquei nervoso. “Não é pela igreja, pois não?”, perguntou ela. Abraçámo-nos até hoje.

Fui descobrindo que era um ateu. Aprendi isso com a liberdade que os meus pais me deram de escolher os meus caminhos. Como a liberdade é tão boa… Se quando era mais rebelde – a juventude é uma maravilha – me inflamava contra o meu baptismo, agora sinto que aquele meu primeiro mergulho deixou os meus pais felizes. Isso já é uma boa justificação.

Neste mundo que está a regredir, os leões voltaram às arenas de Nero. As fogueiras voltaram a ter vida para acabar com a vida dos pecadores. As cruzes da crucificação voltaram a ser vistas no alto da colina. De norte a sul. De este a oeste. Percorremos os cantos do abismo. A fome aumenta. A miséria espalha-se. Os ricos enriquecem sem pudor. Os ditadores vestem a pele de democratas. O planeta apodrece. Estamos todos não no mesmo barco: uns estão em iates, uns em petroleiros e porta-aviões, outros em barcaças. Muitos agarrados a um improvisado flutuador. E tantos e tantos desesperados porque chegou a hora do afogamento. Como nos iremos salvar?

Estive nos círculos da fé. A profissão assim me obrigou. Em boa hora. Quatro mulheres entram pelo cimo do santuário. Param como o maratonista quando corta a meta, extenuadas. Objectivo cumprido. Olham umas para as outras. Abraçam-se as quatro e choram. Foi longo o abraço fraterno. Fiquei parado a olhar. Como são bonitos os abraços quando são sentidos. Ali ou em qualquer parte do mundo. Olhámo-nos. Não falámos. Não era necessário. Fui descendo e fui encontrando a comoção colectiva. Um silêncio de arrepiar. Um respeito enorme. Fotograva e sentia a necessidade de falar com as pessoas. É a fé que os move. Eu chamo convicção. Em cada ser humano que se ajoelha, que se verga, que chora, que reza, estão histórias de vida árdua e difícil: são trabalhadores explorados, são doentes, são gente simples. Novos e velhos, carne para canhão. Ajoelho-me num círculo. Quero experimentar. Sentir aquele silêncio. A luz suave da vela. Um ateu ajoelhado perante Deus. Não sei dialogar com Ele. Nunca aprendi a rezar. Olho o céu e choro. Sem vergonha. A liberdade é tão bonita… Apeteceu-me dizer aos companheiros dos círculos ao lado que sou ateu, que me ensinem como é sentir o que eles sentem. Que importa? Senti o coração a abrir-se e descobrir que também sou uma árvore frondosa como o meu pai e a minha mãe desejaram que eu fosse. Ali havia paz. Ali éramos todos seres humanos iguais, em círculos de fé. O meu continuava a ser de convicção.

Limpei as lágrimas. Pensei nos poderes da Igreja. Na Santa Inquisição. No braço dado com o fascismo. Nas ideias e práticas desajustadas nos dias de hoje. Pensei. Mas qual o lado da barricada que não tem os seus pecados? Pensei no lado social da igreja nos países do Terceiro Mundo. Nos missionários e missionárias que abrem escolas. Que lutam contra as guerras. Mas qual o lado da barricada que não tem as suas virtudes? Nos poderosos altifalantes, D. José Ornelas afirma: “Vivemos num tempo em que movimentos populistas manipulam a nostalgia do passado, o mundo real ou imaginário, o perigo do estrangeiro e do que pensa diferente, (…) a ganância de possuir e dominar (…) Para isso, constroem muros, exacerbam nacionalismos egoístas e conflituosos, que impedem que se chegue a consensos para os problemas de todos, como a pobreza, a injustiça e a depredação do planeta, que coloca em perigo o futuro”. Para depois afirmar: “Lutamos por um mundo melhor”. Naquele terreiro não havia punhos erguidos. Havia lenços brancos. Naquele terreiro havia Cristo. O primeiro lutador por um mundo melhor. Outros vieram. De todos os lados.

Serei ateu até me transformar em cinza. Tenho a semente no meu coração. Pertenço à grande floresta com árvores de todos os portes e de todas as cores, da diferença e da comunhão, a floresta que luta por um mundo melhor. Somos todos irmãos. Só assim nos salvaremos.

 

Texto reproduzido do Público deste domingo, 18. Uma fotogaleria da autoria de Adriano Miranda, sobre as cerimónias do 12-13 de Outubro em Fátima, pode ser vista nesta ligação.

 

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