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Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

| 14/05/2019

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

by | 14 Mai 19 | Cinema, televisão e média, Cultura e artes, Últimas

Este filme é muito mais que um filme: pelo modo como foi construído e realizado e por tudo o que congregou à sua volta, ajudando-nos a ver uma situação que é actual e premente – os índios ameaçados no Brasil [para além do filme, estão patentes, em Guimarães, quatro exposições dedicadas ao pensamento ameríndio, depois de já ter havido mostras de cinema em Lisboa e em Guimarães]. Tudo com o objectivo de nos levar a olhar e a ouvir os índios.

No entanto, não se trata de um documentário sobre os índios krahô, mas de uma ficção com os índios krahô, partindo da sua cultura e do seu dia-a-dia, na Aldeia de Pedra Branca, Estado de Tocantins, Norte do Brasil.

No centro do filme está um jovem índio que não quer ser o novo xamã da aldeia, porque isso lhe alteraria os planos que tem para a sua vida. É casado, tem um filho, e vive com uma grande inquietação: o seu pai já morreu, mas ainda falta fazer a festa que marca o fim do luto, que permitirá ao espírito do seu pai ir para a aldeia dos mortos e ficar em paz a ‘aldeia dos vivos’. E assim a vida seguirá com toda a normalidade ao ritmo das estações, das festas e das colheitas.

Os krahô não prestam culto aos mortos, despedem-se deles, da sua lembrança e saudade, e cada um segue ‘a sua vida’. Que bem nos faria parar um pouco a contemplar esta sabedoria ancestral, a nós que tantas vezes ‘carregamos’ os que morreram como fantasmas, e andamos como loucos a correr atrás do tempo e das coisas.

«Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido?Olhai as aves do céu… Olhai como crescem os lírios do campo… Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.»

O filme que acompanha Henrique Ihjãc Krahô, desde aquele momento inicial em que ele vai até à cascata para comunicar com o espírito do seu pai defunto, mostra principalmente a sua ‘fuga’ da aldeia para escapar ao chamamento a ser xamã, refugiando-se num centro de apoio aos índios, situado na cidade mais próxima. Ele quer ficar lá mais tempo, mas não lhe é permitido. A própria esposa vai lá tentar convencê-lo a regressar. Henrique acaba por voltar sozinho e a pé para fazer a festa que falta fazer, para viver a vida que é preciso viver. E para aceitar ser xamã?

O que é interessante neste filme que quase parece um documentário é ver como, apesar da contaminação por parte da ‘sociedade branca’, presente de várias maneiras (vernizes, flippers, rádio), a cultura índia luta para se manter neste tempo tão ameaçador e nos dá um testemunho daquilo que o Papa Francisco chama a ecologia integral. “Estando um em desequilíbrio, toda a comunidade está e esse é o princípio da ecologia. Daí que o desequilíbrio que Ihjãc sente por não conseguir fechar o luto pelo pai seja um problema que toda a comunidade se junta para ultrapassar” (Ípsilon, 8 de Março. Este suplemento do Público trouxe um belo dossier a propósito do filme, de como foi feito, e do que ele significa).

E termino com palavras dos realizadores, Renée Nader Messora e João Salaviza, o casal de cineastas que viveu em Aldeia Branca para fazer o filme: “É impossível não sentir uma enorme simpatia por um povo que, hoje, em 2019, num mundo que sabemos como está, não contribuiu nem para a pobreza, nem para a fome, nem para a miséria, nem para a destruição do planeta. Isto tem muito a ver com a construção da identidade e, se calhar, a ocidental precisa da anulação do outro. Vemos isso com os refugiados, os negros, os imigrantes. Enquanto a identidade dos povos ameríndios, pelo contrário, precisa de se alimentar do outro” (Ípsilon).

Não, não vamos ser todos índios, mas temos muito a aprender com eles. Por isso, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortosé muito mais que um filme.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos; o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Janeiro de 2019.

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