Cidadania e Moral – viagem educativa rumo à construção da cidade

| 12 Jan 20 | Entre Margens, Últimas

Uma das maiores conquistas que podemos alcançar em termos pedagógicos diz respeito à construção de pontes entre disciplinas e áreas do saber. Pontes e não muros. Porque pedagogia é “caminhar ao lado do outro”. Construir pontes que permitam encetar o diálogo e compreender a complementaridade na diversidade de aprendizagens sobre o humano. A busca de sentido para essa diversidade de aprendizagens transparece nas interrogações e interpelações iniciais dos discentes: “Os que vamos aprender? para que serve o que vamos aprender?”. Esta busca levará, cada um, ao encontro da bússola que há-de guiar e conduzir à construção da feli(z)cidade.

E qual a relevância de áreas do saber cujo objetivo é preencher o ser pessoa, contribuindo para a formação humana, ético-moral ou religiosa? Sabê-lo-emos por meio do desafio da descoberta de que, mais do que um conhecimento de fórmulas, há buscas que se revelam imprescindíveis para viver uma vida com mais sabedoria ou com mais sabor (etimologicamente falando!). O que, por outras palavras, equivale a dizer que temos uma necessidade intrínseca de encontrar um caminho para uma vida verdadeiramente significativa e plenamente vivida.

Assim, nada melhor do que recorrer a dois instrumentos que, em linguagem metafórica, ilustram diferentes contributos para a construção da cidade: o passaporte da cidadania e o GPS da Feli(z)cidade. Um e outro podem ser-nos muito úteis para uma viagem de descoberta do caminho para aprender a viver com mais sabedoria e obter essa vida significativa. O primeiro ilustra a importância do domínio da Cidadania, e o segundo a relevância da Educação Moral e Religiosa Católica, numa das suas três componentes específicas de formação humana – a moral. Como verdadeiras bússolas, estas propostas educativas concretizam o diálogo, apontam caminhos e evidenciam as suas infindáveis potencialidades, sem que uma possa substituir ou anular a outra, mas como propostas complementares, consolidantes. E que caminhos?

A cidadania transporta-nos aos domínios da construção da cidade; a moral norteia-nos quanto aos possíveis caminhos de construção da feli(z)cidade.

A cidadania conduz-nos à plena integração e inclusão, numa cidade onde todos têm o direito de ser pessoas. A moral orienta-nos para a plena convivência, assente na proximidade cuidadora, no apreço pela diversidade, onde é possível cultivar o bem de todos e o bem do todo.

A cidadania ensina a importância das regras, o respeito pelos direitos de cada um e de todos, como importante conquista civilizacional. A moral revela o poder transformador do amor, na descoberta de que cada um de nós é porque outros são connosco; e, em conjunto, somos uma pessoa de pessoas, e só na plena convivência construímos a civilização do amor.

A cidadania propõe-nos a rejeição de todas as formas de violência, o fim dos conflitos. A moral convida-nos a trilhar caminhos de superação de toda a turbulência interior que nos habita, desafia-nos a construir a fraternidade a partir do impulso interior humanizador, capaz de destruir amarras, injustiças e medos, optando pelo caminho da não-violência e da paz, do perdão, da compaixão e da reconciliação.

A cidadania adverte que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade de outro e que a cada um deve ser reconhecido o seu espaço de liberdade. A moral interpela-nos para a descoberta de como pode cada pessoa aumentar a sua liberdade na relação com os outros e como cada uma pode ser possibilidade de liberdade para outros – porque é num verdadeiro encontro de liberdades que cada um se torna mais pessoa, sem precisar de terminar nenhuma das liberdades.

A cidadania incute o respeito pelo ambiente e a proteção da natureza, como um desafio ecológico que urge pensar para garantir o futuro. A moral propõe itinerários de uma arte de cuidar, num desafio que se faz presente: onde o planeta seja assumido como a nossa casa comum, cada pessoa se sinta desafiada ao uso responsável dos bens da terra, a simplificar o seu modo de viver, para que, vivendo com menos, o planeta possa viver com mais, a colocar em prática a sobriedade feliz, que brota do desapego material e da criatividade capaz de gerar mais vida.

A cidadania move-nos para a prática de uma solidariedade que nos faz comunidade. A moral guia-nos para a prática do amor que nos faz próximos e irmãos.

Tal como dita o provérbio africano “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, assim também necessitamos de todos os recursos de cidadania e de moral para construir a cidade. Uma cidade na qual cada um se realize como pessoa e se sinta impelido a construir o equilíbrio entre a felicidade individual e a felicidade coletiva: a feli(z)cidade. Uma viagem que seja uma aprendizagem de como podemos, em conjunto, habitar a cidade, torná-la habitável para toda a família humana. E porque somos família, deveríamos aprender a viver como irmãos! Foi para isto que Jesus quis nascer! É este o verdadeiro sentido do Natal que acabámos de celebrar.

 

Dina Pinto é professora de Educação Moral e Religiosa Católica em Bragança

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