“Construir juntos um mundo mais justo” é a missão que deve unir as nações e também a educação, a ciência e a cultura, afirmou Leão XIV na tarde desta sexta-feira, 25, naquele que foi o primeiro discurso de um Papa na sede da UNESCO, em Paris, desde 1980.
A dignidade da pessoa humana, os desafios colocados pela inteligência artificial e pela tecnologia, e a necessidade de construir uma cultura de paz baseada na justiça, na verdade e no diálogo foram os eixos centrais da segunda grande intervenção do Papa nesta visita apostólica a França, depois de já ter discursado perante as autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático, no Palácio do Eliseu, durante a manhã [ver 7MARGENS].
Na sede da UNESCO, perante representantes dos Estados-membros e observadores, organizações internacionais, mundo académico e sociedade civil, Leão XIV retomou uma das ideias fundadoras daquela instituição: “Uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”. O Papa sublinhou que estas palavras, escritas depois da Segunda Guerra Mundial, permanecem atuais. Também hoje, “o progresso científico, quando separado da sabedoria, pode transformar-se numa arma devastadora; a cultura, quando se submete à ideologia, pode tornar-se mentira e propaganda; e a educação, quando renuncia à verdade, degrada-se em instrumento para manipular as consciências”.
A reflexão de Leão XIV prosseguiu depois a partir de uma pergunta: “O que significa ser humanos?”. Para o Papa, esta é uma questão fundamental que continua a interpelar todas as culturas e não pode ser dada como resolvida no século XXI. “Cada geração é chamada a lidar com este desafio cultural”, afirmou, particularmente perante as tragédias que continuam a marcar o mundo.
Depois, adiantando uma resposta, apresentou três dimensões da condição humana. Em primeiro lugar, o ser humano é alguém que é concebido e nasce e, por isso, é filho. Ninguém escolhe de quem, quando ou onde nasce, uma realidade que, segundo o Papa, permite reconhecer uma fraternidade original entre todos. Em segundo lugar, todos nascemos “nus e necessitados”, dependentes de cuidados, alimento, palavra e afeto. Esquecer esta condição pode levar a transformar a vida num produto e a pessoa numa mercadoria.
Em terceiro lugar, Leão XIV destacou a capacidade humana de crescer, aprender e trabalhar, mas também a responsabilidade que acompanha essa liberdade. E neste ponto introduziu a guerra como “a mais terrível das ‘obras humanas’”, precisamente porque coloca a ciência ao serviço de “uma vontade desumana de destruir e matar”.
O alerta sobre a inteligência artificial

Uma das frases citadas por Leão XIV no seu discurso está inscrita num mural em frente ao edifício da UNESCO. Foto © Vatican Media
Como seria de esperar, a tecnologia ocupou uma parte importante do discurso, com Leão XIV a insistir que as novas tecnologias devem permanecer “ao serviço da pessoa humana”, em vez de se transformarem “num novo instrumento de domínio e injustiça”.
O Papa chamou particularmente a atenção para o paradoxo de uma época em que alguns sistemas artificiais receberam o nome de uma faculdade humana — “inteligência” — ao mesmo tempo que a dignidade das próprias pessoas corre o risco de ser avaliada segundo critérios de eficiência. “Enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana”, assinalou.
A questão, para Leão XIV, não é apenas tecnológica, mas antropológica. Porque se é verdade que a inteligência artificial pode estabelecer correlações entre grandes quantidades de dados, também é verdade que “não consegue responder a perguntas sobre o sentido da existência humana”, porque esse sentido tem as suas raízes na experiência vivida. Ora, “os seres humanos não podem viver sem sentido. O sentido é o oxigénio da mente”, concluiu.
Por isso, o Papa considerou os desafios colocados pela comunicação também como desafios educativos e defendeu que a verdade seja encarada como uma questão de justiça social e de equidade histórica. Neste contexto, saudou o programa da UNESCO de Alfabetização Midiática e Informacional, destinado a promover um uso responsável dos meios de comunicação e das ferramentas digitais.
Leão XIV pediu ainda especial atenção para a proteção das crianças e dos jovens na era digital, para que a sua vulnerabilidade não seja transformada numa oportunidade de exploração. As tecnologias, defendeu, devem apoiar o seu crescimento, formação e relações, preservando a sua liberdade de pensar e discernir.
Entre Babel e Pentecostes
Para pensar a relação entre os povos e os riscos de uma globalização sem fraternidade, o Papa recorreu a duas imagens bíblicas: a Torre de Babel e a “praça de Pentecostes”.
Babel representa, na sua leitura, “uma unidade imposta pelo domínio”. Leão XIV associou esta imagem à “globalização sem fraternidade”, ao “ávido colonialismo financeiro”, às imposições ideológicas e aos “contactos sem laços” que reduzem a vida humana a comércio. Também a ciência, advertiu, pode deixar de servir a pessoa quando é reduzida a uma técnica de poder.
O Papa apontou ainda para um paradoxo da era digital: apesar de existirem instrumentos capazes de ligar instantaneamente pessoas e continentes, persistem novas formas de isolamento e abandono. “A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria”, afirmou.
Em contraposição a Babel, apresentou o Pentecostes como imagem de uma unidade que não elimina a diversidade. Ali, cada pessoa escuta a mensagem “na sua própria língua” e a comunhão não impede as diferenças, mas permite que floresçam “na harmonia das vozes e dos rostos”. “Não é a prepotência de Babel, mas a paz de Pentecostes que possibilita essa comunhão entre os povos”, afirmou.
Verdade, ética, dignidade

Para o Papa, a sociedade é o verdadeiro habitat da pessoa humana, não apenas num sentido físico, mas também moral e relacional. Foto © Vatican Media
Leão XIV alertou também para o risco de a linguagem se submeter à violência e à vontade dos poderosos, quando se perde a referência à verdade. Nesse contexto, afirmou que “qualquer ciência, praticada sem ética, corre o risco de perder o sentido”, depois de observar que a corrupção da lei tem origem na “corrupção do coração”.
A educação e a ciência, defendeu, não podem ser separadas da responsabilidade ética nem da dignidade humana. A mesma preocupação está presente na crítica à abundância de informação sem sabedoria e à utilização das novas tecnologias sem critérios que protejam a pessoa.
O Papa estendeu depois esta reflexão à relação entre humanidade e criação. Retomou a ecologia integral desenvolvida por Francisco e a ideia de uma “ecologia da pessoa humana” associada a Bento XVI, defendendo que corpo e alma, vida pessoal e relações, humanidade e ambiente não podem ser compreendidos separadamente.
A medida do compromisso com a dignidade humana, afirmou, encontra-se no cuidado pelos mais pobres e vulneráveis: “crianças no ventre materno e nos diversos cenários de guerra, pessoas com deficiências físicas e intelectuais, idosos, migrantes, refugiados e todos os que a soberba exclui como improdutivos”.
Foi neste contexto que declarou: “a atual crise ecológica é uma crise antropológica”. Porque, para o Papa, a sociedade é o verdadeiro habitat da pessoa humana, não apenas num sentido físico, mas também moral e relacional.
A paz como síntese da missão da UNESCO

O Papa acompanhado do diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany. Foto © Vatican Media
Na última parte do longo discurso – ultrapassou os 30 minutos -, Leão XIV apresentou a construção da paz como a síntese das tarefas educativas e científicas da UNESCO. Reconheceu que as instituições internacionais enfrentam hoje uma “crise de eficiência”, num contexto em que o diálogo pode ser visto como um obstáculo à ação e não como um recurso para a paz.
O Papa apelou, por isso, à recuperação da confiança: confiança em que as diferenças não constituem necessariamente uma ameaça e em que o diálogo sincero pode produzir um bem maior do que aquele que cada um conseguiria construir sozinho.
“Acreditamos que a educação seja o instrumento para superar medos recíprocos e que a ciência possa servir a vida de cada ser humano, semeando no presente a boa colheita do futuro”, afirmou.
No final, Leão XIV atribuiu também às tradições religiosas um papel “culturalmente necessário e insubstituível” na procura de respostas para as questões sobre a origem e o fim da vida e sobre o sentido da existência. Para o Papa, esta dimensão não conduz à dispersão da humanidade, mas pode contribuir para uma busca comum de sentido e para uma aliança entre povos que se reconhecem como “filhos do mesmo Pai e como irmãos e irmãs entre si”.
“Cada filho que nasce traz consigo uma esperança. Cada homem e mulher que dedica a sua vida à busca da verdade realiza um ato de esperança”, afirmou Leão XIV, antes de pedir à UNESCO que seja testemunha dessa esperança através do entendimento entre as nações e do diálogo entre as culturas.
“Dedicando-nos todos com coerência à nossa magnífica humanidade, a paz poderá finalmente florescer”, concluiu.










