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O Papa na sede da UNESCO, em Paris. Foto Vatican Media
Leão XIV saúda os presentes na sede da UNESCO, em Paris, na tarde desta sexta-feira. Foto © Vatican Media

Viagem apostólica

Ciência sem ética, cultura corrompida e tecnologia sem humanidade: os alertas do Papa na UNESCO

| 25/09/2026

“Construir juntos um mundo mais justo” é a missão que deve unir as nações e também a educação, a ciência e a cultura, afirmou Leão XIV na tarde desta sexta-feira, 25, naquele que foi o primeiro discurso de um Papa na sede da UNESCO, em Paris, desde 1980.

A dignidade da pessoa humana, os desafios colocados pela inteligência artificial e pela tecnologia, e a necessidade de construir uma cultura de paz baseada na justiça, na verdade e no diálogo foram os eixos centrais da segunda grande intervenção do Papa nesta visita apostólica a França, depois de já ter discursado perante as autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático, no Palácio do Eliseu, durante a manhã [ver 7MARGENS].

Na sede da UNESCO, perante representantes dos Estados-membros e observadores, organizações internacionais, mundo académico e sociedade civil, Leão XIV retomou uma das ideias fundadoras daquela instituição: “Uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”. O Papa sublinhou que estas palavras, escritas depois da Segunda Guerra Mundial, permanecem atuais. Também hoje, “o progresso científico, quando separado da sabedoria, pode transformar-se numa arma devastadora; a cultura, quando se submete à ideologia, pode tornar-se mentira e propaganda; e a educação, quando renuncia à verdade, degrada-se em instrumento para manipular as consciências”.

A reflexão de Leão XIV prosseguiu depois a partir de uma pergunta: “O que significa ser humanos?”. Para o Papa, esta é uma questão fundamental que continua a interpelar todas as culturas e não pode ser dada como resolvida no século XXI. “Cada geração é chamada a lidar com este desafio cultural”, afirmou, particularmente perante as tragédias que continuam a marcar o mundo.

Depois, adiantando uma resposta, apresentou três dimensões da condição humana. Em primeiro lugar, o ser humano é alguém que é concebido e nasce e, por isso, é filho. Ninguém escolhe de quem, quando ou onde nasce, uma realidade que, segundo o Papa, permite reconhecer uma fraternidade original entre todos. Em segundo lugar, todos nascemos “nus e necessitados”, dependentes de cuidados, alimento, palavra e afeto. Esquecer esta condição pode levar a transformar a vida num produto e a pessoa numa mercadoria.

Em terceiro lugar, Leão XIV destacou a capacidade humana de crescer, aprender e trabalhar, mas também a responsabilidade que acompanha essa liberdade. E neste ponto introduziu a guerra como “a mais terrível das ‘obras humanas’”, precisamente porque coloca a ciência ao serviço de “uma vontade desumana de destruir e matar”.

 

O alerta sobre a inteligência artificial

O Papa na sede da UNESCO, em Paris. Foto Vatican Media

Uma das frases citadas por Leão XIV no seu discurso está inscrita num mural em frente ao edifício da UNESCO. Foto © Vatican Media

Como seria de esperar, a tecnologia ocupou uma parte importante do discurso, com Leão XIV a insistir que as novas tecnologias devem permanecer “ao serviço da pessoa humana”, em vez de se transformarem “num novo instrumento de domínio e injustiça”.

O Papa chamou particularmente a atenção para o paradoxo de uma época em que alguns sistemas artificiais receberam o nome de uma faculdade humana — “inteligência” — ao mesmo tempo que a dignidade das próprias pessoas corre o risco de ser avaliada segundo critérios de eficiência. “Enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana”, assinalou.

A questão, para Leão XIV, não é apenas tecnológica, mas antropológica. Porque se é verdade que a inteligência artificial pode estabelecer correlações entre grandes quantidades de dados, também é verdade que “não consegue responder a perguntas sobre o sentido da existência humana”, porque esse sentido tem as suas raízes na experiência vivida. Ora, “os seres humanos não podem viver sem sentido. O sentido é o oxigénio da mente”, concluiu.

Por isso, o Papa considerou os desafios colocados pela comunicação também como desafios educativos e defendeu que a verdade seja encarada como uma questão de justiça social e de equidade histórica. Neste contexto, saudou o programa da UNESCO de Alfabetização Midiática e Informacional, destinado a promover um uso responsável dos meios de comunicação e das ferramentas digitais.

Leão XIV pediu ainda especial atenção para a proteção das crianças e dos jovens na era digital, para que a sua vulnerabilidade não seja transformada numa oportunidade de exploração. As tecnologias, defendeu, devem apoiar o seu crescimento, formação e relações, preservando a sua liberdade de pensar e discernir.

 

Entre Babel e Pentecostes

Para pensar a relação entre os povos e os riscos de uma globalização sem fraternidade, o Papa recorreu a duas imagens bíblicas: a Torre de Babel e a “praça de Pentecostes”.

Babel representa, na sua leitura, “uma unidade imposta pelo domínio”. Leão XIV associou esta imagem à “globalização sem fraternidade”, ao “ávido colonialismo financeiro”, às imposições ideológicas e aos “contactos sem laços” que reduzem a vida humana a comércio. Também a ciência, advertiu, pode deixar de servir a pessoa quando é reduzida a uma técnica de poder.

O Papa apontou ainda para um paradoxo da era digital: apesar de existirem instrumentos capazes de ligar instantaneamente pessoas e continentes, persistem novas formas de isolamento e abandono. “A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria”, afirmou.

Em contraposição a Babel, apresentou o Pentecostes como imagem de uma unidade que não elimina a diversidade. Ali, cada pessoa escuta a mensagem “na sua própria língua” e a comunhão não impede as diferenças, mas permite que floresçam “na harmonia das vozes e dos rostos”. “Não é a prepotência de Babel, mas a paz de Pentecostes que possibilita essa comunhão entre os povos”, afirmou.

 

Verdade, ética, dignidade

O Papa na sede da UNESCO, em Paris. Foto Vatican Media

Para o Papa, a sociedade é o verdadeiro habitat da pessoa humana, não apenas num sentido físico, mas também moral e relacional. Foto © Vatican Media

Leão XIV alertou também para o risco de a linguagem se submeter à violência e à vontade dos poderosos, quando se perde a referência à verdade. Nesse contexto, afirmou que “qualquer ciência, praticada sem ética, corre o risco de perder o sentido”, depois de observar que a corrupção da lei tem origem na “corrupção do coração”.

A educação e a ciência, defendeu, não podem ser separadas da responsabilidade ética nem da dignidade humana. A mesma preocupação está presente na crítica à abundância de informação sem sabedoria e à utilização das novas tecnologias sem critérios que protejam a pessoa.

O Papa estendeu depois esta reflexão à relação entre humanidade e criação. Retomou a ecologia integral desenvolvida por Francisco e a ideia de uma “ecologia da pessoa humana” associada a Bento XVI, defendendo que corpo e alma, vida pessoal e relações, humanidade e ambiente não podem ser compreendidos separadamente.

A medida do compromisso com a dignidade humana, afirmou, encontra-se no cuidado pelos mais pobres e vulneráveis: “crianças no ventre materno e nos diversos cenários de guerra, pessoas com deficiências físicas e intelectuais, idosos, migrantes, refugiados e todos os que a soberba exclui como improdutivos”.

Foi neste contexto que declarou: “a atual crise ecológica é uma crise antropológica”. Porque, para o Papa, a sociedade é o verdadeiro habitat da pessoa humana, não apenas num sentido físico, mas também moral e relacional.

 

A paz como síntese da missão da UNESCO

O Papa na sede da UNESCO, em Paris. Foto Vatican Media

O Papa acompanhado do diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany. Foto © Vatican Media

Na última parte do longo discurso  – ultrapassou os 30 minutos -, Leão XIV apresentou a construção da paz como a síntese das tarefas educativas e científicas da UNESCO. Reconheceu que as instituições internacionais enfrentam hoje uma “crise de eficiência”, num contexto em que o diálogo pode ser visto como um obstáculo à ação e não como um recurso para a paz.

O Papa apelou, por isso, à recuperação da confiança: confiança em que as diferenças não constituem necessariamente uma ameaça e em que o diálogo sincero pode produzir um bem maior do que aquele que cada um conseguiria construir sozinho.

“Acreditamos que a educação seja o instrumento para superar medos recíprocos e que a ciência possa servir a vida de cada ser humano, semeando no presente a boa colheita do futuro”, afirmou.

No final, Leão XIV atribuiu também às tradições religiosas um papel “culturalmente necessário e insubstituível” na procura de respostas para as questões sobre a origem e o fim da vida e sobre o sentido da existência. Para o Papa, esta dimensão não conduz à dispersão da humanidade, mas pode contribuir para uma busca comum de sentido e para uma aliança entre povos que se reconhecem como “filhos do mesmo Pai e como irmãos e irmãs entre si”.

“Cada filho que nasce traz consigo uma esperança. Cada homem e mulher que dedica a sua vida à busca da verdade realiza um ato de esperança”, afirmou Leão XIV, antes de pedir à UNESCO que seja testemunha dessa esperança através do entendimento entre as nações e do diálogo entre as culturas.

“Dedicando-nos todos com coerência à nossa magnífica humanidade, a paz poderá finalmente florescer”, concluiu.

 

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“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.

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