
Em 2019, Jair Bolsonaro entregou a Ordem do Rio Branco ao ministro da Ciência, Marcos Pontes. Foto © Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações from Brasília – DF, Brasil, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
O reitor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, conhecida pela Unisinos, no Brasil, é o mais recente académico a recusar honrarias e condecorações que o Governo de Jair Bolsonaro tem vindo, nos últimos tempos, a tentar atribuir.
O professor e padre jesuíta Marcelo Fernandes de Aquino tomou a posição nesta segunda-feira, dia 29, agradecendo a condecoração com a insígnia do grau de cavaleiro da Ordem de Rio Branco, mas assumindo que, face à “incapacidade do governo atual de dar rumo correto às políticas públicas para as áreas da saúde, educação, meio ambiente, ciência e tecnologia”, se via constrangido a recusar a distinção.
Marcelo Fernandes de Aquino, formado em Teologia (licenciatura e mestrado) pela Universidade Gregoriana, em Roma, e em Filosofia (mestrado e doutoramento) pela mesma instituição, dirige há vários anos uma das instituições mais prestigiadas dos jesuítas no Brasil.
Esta recusa segue-se a atitude semelhante de 21 cientistas que rejeitaram, no início de novembro, uma das maiores distinções do Brasil, a Ordem Nacional do Mérito Científico, que visa reconhecer as mais relevantes contribuições para o avanço da ciência e da tecnologia.
A lista governamental incluía inicialmente 25 nomes, mas dois dias depois de divulgada, e perante críticas da base eleitoral do Presidente, dois nomes foram retirados da lista oficial, ambos ligados à Amazónia – o de Marcus Lacerda, que demonstrou a ineficácia do medicamento que Bolsonaro arvorava como panaceia para o vírus da covid-19, e o de Adele Benzaken, diretora da Fundação Oswaldo Cruz – Amazónia.
A reação da esmagadora maioria dos condecorados não se fez esperar. Além de se solidarizarem com os dois colegas ‘saneados’, escreveram uma carta aberta em que denunciavam o comportamento do Presidente como “mais uma clara demonstração da perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do governo vigente”.
Antes da posição coletiva, dois dos 21 tinham já anunciado a sua recusa em receber a condecoração. Um deles é o antropólogo Alfredo Almeida, que tem projeção nacional e internacional na pesquisa sobre populações tradicionais, especialmente grupos quilombolas.
Disse recusar a condecoração por não poder recebê-la “das māos deste governo, que tantos danos tem causado ao campo científico” e aos impactos sociais de vários dos seus projetos. O outro, Cesar Victora, é tido como referência mundial em epidemiologia. Justificou deste modo a sua recusa: “não compactuo com perseguições a colegas e cortes no orçamento para a ciência. Nem com a forma de combate à pandemia deste governo”.
“A homenagem [é] oferecida por um governo federal que não apenas ignora, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva”, acrescentou.










