Cinco mil mortos depois, um cessar-fogo “doloroso” para a Arménia e festejado no Azerbaijão

| 10 Nov 2020

A capita do enclave de Nagorno-Karabakh/Artsakh, assinalada no mapa: o território está dentro do Azerbaijão e é reivindicado pelos dois países. Reprodução do Google Maps.

 

Dois mil militares russos chegaram nesta terça-feira, 10 de Novembro, às principais zonas de conflito entre a Arménia e o Azerbaijão, para trabalhar como força de manutenção de paz, depois de na véspera à noite ter sido negociado e decidido um cessar-fogo entre os dois países e que terá tido o envolvimento da Rússia e do seu presidente, Vladimir Putin.

O acordo, noticia o Público, está a ser celebrado pelos azerbaijanos – para cuja vitória militar o apoio da Turquia terá sido decisivo – e a provocar protestos na Arménia, já que é visto como uma capitulação deste país. O próprio primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, que se referiu ao texto assinado como “indescritivelmente doloroso” para si e “o povo arménio”, numa publicação no Facebook.

A guerra entre ambos os países por causa de Nagorno- Kharabakh reacendeu-se há seis semanas e, segundo a Rússia, terá provocado perto de cinco mil mortos em ambos os lados. Depois de várias tentativas de mediação fracassada, o acordo conseguido na segunda-feira seguiu-se a “uma análise profunda da situação militar”, como escreveu Pashinyan, tendo em conta a vantagem militar do Azerbaijão: os militares deste país aproximavam-se de Stepanakert, a capital do enclave, e dois dias antes tinham reclamado a conquista da cidade histórica de Shussha, a segunda mais importante do território que os arménios designam como Artsakh.

Ainda de acordo com o Público, o acordo de cessar-fogo foi assinado também pela Rússia e prevê que o Azerbaijão fique com o controlo de um extenso território que conquistou à Arménia no enclave de etnia arménia mas situado dentro das fronteiras oficiais azerbaijanas.

“Em 9 de novembro, o presidente do Azerbaijão [Ilham Aliev], o primeiro-ministro da Arménia [Nikol] Pachinian e o presidente da federação da Rússia assinaram uma declaração de anúncio de um cessar-fogo total e do fim de todas as acções militares na zona do conflito de Nagorno-Karabakh a partir da meia-noite de 10 de novembro, hora de Moscovo”, afirmou Vladimir Putin, numa declaração distribuída a vários meios de comunicação e citada pela TSF.

O Presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, disse que “a declaração trilateral assinada vai ser crucial na resolução do conflito” e que ela também envolve a mobilização de militares turcos, informação que foi desmentida por responsáveis russos citados no jornal The Washington Post . O que está a ser negociado é a possibilidade de instalar no Azerbaijão um centro de monitorização do cessar-fogo que poderia incluir a Turquia, disse o assessor de imprensa de Putin, Dmitri Peskov. “

Vladimir Putin manifestou, entretanto, a esperança de que os passos dados recentemente “conduzam ao estabelecimento de uma longa paz para benefício dos povos do Azerbaijão e da Arménia”.

Ainda de acordo com o Público, a declaração de cessar-fogo prevê a retirada da Arménia do enclave e a devolução de Aghdam e Kalbajar ao Azerbaijão nas próximas semanas, permitindo o regresso dos refugiados que dali fugiram nos anos 1990. O Azerbaijão controlará também o Corredor Lachin, onde está a auto-estrada que liga Artsakh à Arménia e será aqui que os militares russos ficarão colocados.

Contrastando com os protestos em Erevan, a capital da Arménia – que incluíram o ataque a edifícios governamentais e o saque do gabinete do primeiro-ministro – muita gente festejou o acordo em Bacu. O presidente Aliyev escreveu no Twitter. “Esta declaração constitui a capitulação da Arménia. Esta declaração põe fim a anos de ocupação. Esta declaração é a nossa Gloriosa Vitória.”

Depois do acordo, Aliyev falou com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan e ambos celebraram a “brilhante vitória” do Azerbaijão. A Turquia contesta que tenha enviado tropas para apoiar o Azerbaijão, mas há várias fontes que o confirmam. Além disso, a Turquia (e Israel) vendeu drones ao Azerbaijão, a eliminação de sistemas de defesa aérea e a destruição de centenas de tanques arménios.

Turquia e Arménia nunca se reconciliaram depois do genocídio arménio de há um século. E em 1991, depois do colapso da antiga União Soviética, a Arménia, de maioria cristã (a Igreja Arménia é uma das comunidades cristãs mais antigas do mundo) e o Azerbaijão, de maioria muçulmana, entraram em conflito. O cessar-fogo só se concretizou em 1994, depois de terem morrido 20 mil a 30 mil pessoas.

 

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