Dicastério para a Doutrina da Fé

Cinco novas denúncias no processo do padre e artista Mark Rupnik

| 5 Abr 2024

Marko Rupnik, Visão do Inferno, Mosaico, Fátima

Marko Rupnik, Visão do Inferno no painel da Basílica da Santíssima Trindade, Fátima. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Apesar de a Sala de Imprensa do Vaticano ter informado, em final de fevereiro último, que o Dicastério para a Doutrina da Fé estava já na fase de análise da documentação recebida e recolhida de várias entidades nos últimos meses, cinco denúncias de vítimas do ex-jesuíta padre Marko Rupnik foram apresentadas esta quarta-feira naquele Dicastério.

Segundo a agência noticiosa italiana Ansa, os depoimentos referem-se a duas ex-religiosas da Comunidade Loyola que deram recentemente uma conferência de imprensa em Roma, e mais três casos não identificados. Todos eles foram apresentados pela advogada Laura Sgrò, segundo a agência.

A investigação do Dicastério para a Doutrina da Fé, que acontece pela terceira vez nos últimos cinco anos foi reaberta na sequência de uma decisão do Papa Francisco de 27 de outubro último. Da primeira vez, aquele departamento da Cúria Romana decidiu pela excomunhão do padre Rupnik, perante um caso de absolvição de uma mulher com quem teve relações sexuais, mas a medida foi anulada três semanas depois. A segunda decorreu de várias denúncias de abusos psicológicos e sexuais de ex-religiosas da Comunidade Loyola. A decisão, sem pôr em causa a existência dos factos, concluiu pela sua prescrição.

Anda assim, a Companhia de Jesus, a que Rupnik pertenceu até recentemente, entendeu aplicar restrições ao seu ministério, as quais ele ostensivamente ignorou, recusando-se mesmo a dialogar com o seu superior imediato, durante anos seguidos.

A decisão do Papa de autorizar a reabertura do caso foi tomada, segundo o Vatican News, na sequência de relatórios enviados, em setembro último, pela Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores ao Papa Francisco. Nesses documentos, denunciavam-se “graves problemas” no tratamento do caso Rupnik e a “falta de proximidade com as vítimas”.

Desde a notícia de que o processo ia ser reaberto até 21 de fevereiro último, o tema Rupnik deixou de ser notícia. E, aparentemente, só o voltou a ser quando as duas religiosas, uma eslovena e outra italiana, acompanhadas por Laura Sgrò, realizaram naquela data uma conferência de imprensa. Precisamente à mesma hora, a Santa Sé, através da sua Sala de Imprensa, informou que, nos últimos meses, o Dicastério para a Doutrina da Fé “contactou as instituições envolvidas de diferentes maneiras na matéria, a fim de receber todas as informações disponíveis sobre o caso”.

“Depois de ter alargado o campo de investigação a realidades que não tinham sido contactadas antes e depois de recebidos os últimos elementos de resposta, trata-se agora de estudar a documentação adquirida para poder identificar os procedimentos que será possível e útil implementar”, explicou, nessa altura, o Vaticano. Pelos vistos, tem desde quarta-feira novas matérias para analisar.

O padre Marko Rupnik em audiência com o Papa Francisco, a 3 de janeiro de 2022. Foto Vatican Media

Marko Rupnik com o Papa, em janeiro 2022: quase dois anos depois, Francisco ordenou a reabertura do processo contra o padre. Foto © Vatican Media. 

Um setor para o qual as atenções do Dicastério não podem deixar de se voltar é o que resta da formalmente extinta Comunidade Loyola. O “decreto disciplinar”, divulgado pelo 7MARGENS, que foi produzido pelo encarregado da visita canónica a este instituto, ainda que não tivesse Rupnik no centro do seu foco, incorpora suficientes indicações de que o seu autor, o bispo Daniele Libanori, tem muito para contar, mesmo, ou sobretudo, quando acusa a religiosa Ivanka Hosta, superiora geral e fundadora da Comunidade, de encobrimento e imposição de silêncio às irmãs sobre “relações gravemente impróprias mantidas pelo Pe. Marko Rupnik, S.I. com algumas irmãs”.

Ivanka Hosta, que, ao que o 7MARGENS sabe, continua a residir em Braga, é, por óbvios motivos, uma peça crucial na avaliação do que se passou até 1993 na Comunidade por ela dirigida. E, como refere o bispo Libanori, algumas das conselheiras de Ivanka que, tal como ela, “estavam a par de tudo”, também serão importantes na questão.

“O afastamento do P. Rupnik da Comunidade em 1993, em vez de pôr a nu o comportamento do padre e o sistema que o tinha permitido, aumentou o sistema de controlo, dominação e omertà que [Ivanka] impôs às irmãs”, afirma o decreto.

Entretanto, o principal visado, uma vez forçado a abandonar os Jesuítas, conseguiu ser incardinado numa diocese eslovena que faz fronteira com a Itália, mas supõe-se que continua a ter por base de residência e trabalho o Centro Aletti, em Roma, de que foi fundador e, até 2020, diretor. De resto, sabe-se que a empresa de negócios dos trabalhos de mosaicos contratados com este Centro, que tinha Rupnik e uma religiosa por acionistas, com partes de capital de, respetivamente, 10 e 90 por cento, alterou recentemente a distribuição do capital, passando Rupnik a deter 90 por cento e a religiosa 10 por cento.

Ignora-se, por outro lado, se a investigação que está a ser realizada sobre este caso se limitará ao padre Rupnik ou, igualmente aos “graves problemas” no tratamento do caso Rupnik, denunciados ao Papa pela Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores.

 

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