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Aquilino Ribeiro. Cinco reis de gente. Desenho da capa

“Cinco réis de gente”, um hino à Vida e à relação com a Natureza

Saborear os clássicos (II)
Aquilino Ribeiro. Cinco reis de gente. Desenho da capa

Ilustração da capa da última edição de Cinco Réis de Gente. Direitos reservados

 

Quando um escritor se inspira na infância – e se a esta não faltou afectividade – o mistério da vida que as crianças intuem profundamente, os instantes gravados na memória, sublimam-se e ficam para sempre.

É disso que trata este “romancito”, expressão usada pelo autor na dedicatória.

 

O mano Quinzinho

“(…) – É o Quinzinho, Amadeu! É o mano Quinzinho…”

“Mano? Que era isso? (…) vagamente descortinei que era negócio de família, sim mau negócio (…) Mas já o mano recomeçava a sua jornada a quatro, a cabeça no chão, mãos em torquês, leva que leva (…)”.

“ – Não quero cá mano nem meio mano. Não quero!

– Não queres o mano?! – exclamou a boa tia Custódia – há lá mais bonito que um maninho?! Brincas com ele…

– Um ranhoso assim?! Não, não quero mano…

– Podiam-no trazer mais limpo, podiam. A ama é enxovalhada… mas ouve, o menino está constipadinho…”.

 

A Fada-Madrinha

“Como eu queria, para não ir mais longe àquela tia Custódia que inventava” [ou trouxera do Convento] “arremedilhos, sirventês, tais o do Gato nada abstracto atrás do rato, o Tiro-lico-tico e outros”.

A tia Custódia ficara marcada pelas “bexigas” e por esse motivo recusou casar-se com o noivo, um bom pretendente, um fidalgo.

“– Coitadinha da tia Custódia” – exclamava o Amadeu, ao ouvir “pela milésima vez” a mãe a contar esta história – “eu se fosse ao tal Fafe e Lérias casava mesmo assim com ela (…)”.

“– Fafe e Lérida, corrigiu [a mãe] olhando  sisuda para a Encarnação [a criada] que  arreganhava a tacha, – Uma fidalguia que por modos vinha de Noé e tivera raiz na Catalunha. Pois dizia eu bem, o senhor mandou dizer à Custódia que o dito dito (…) Depois quis falar com ela, mas esta não o recebeu. (…) Nunca mais ninguém a viu rir…nunca mais…”.

Em suma, a tia Custódia metera-se num túmulo. Um dia, o nosso rapaz estava com uma rabujice insuportável e então a tia Custódia cantou a Rosa Tirana.

“(…) Dali a pouco, viam-me como erguido por fios invisíveis… era a mesma voz de sortilégio. Fora eu que operara o milagre. (…)”

A mãe de Amadeu resumia assim as personalidades das duas irmãs que como fadas-madrinhas se abeiravam do sobrinho e afilhado:

“(…) esta Ana é uma paz de alma (…), mas a Custódia tem a varinha de condão”.

 

A noite dos sortilégios

No interior, ainda no século XIX e XX, tradições populares casavam-se com o cristianismo, resultando daí a medicina popular. O “Cinco Réis de Gente” tivera uma hérnia, consequência da “coqueluxe”. A família convidou amigos e alguns conhecidos para um ritual, a ter lugar à meia-noite, na noite de S. João, presidida pelo abade “que conciliava em si as práticas ancestrais dos mitos ignorados com os mitos romanos de que era representante”. O miúdo, arrancado da cama sem nada compreender, levado pela floresta nos braços do Monge (o criado de lavoura), com medo dos gritos dos noitibós, olhou para trás e distinguiu nas sombras, além dos pais e outros, o velho Tiago sapateiro, o José Loio e a mulher que viviam “numa casa de ripa” junto à casa dos pais do Amadeu. Os Loios eram “pais da Maria Loia, cujos cabelos fulvos e boca ridente douravam os meus sonhos”. Pararam numa clareira, um pouco antes da meia-noite. A tia pegou na criança e o Monge, com uma podoa, cortou um tronco secundário de um jovem carvalho, “de modo a formar uma elipse”. O abade, paramentado, pegou na criança e esta passou para os braços do pai que a balanceou “ao ar como uma pena (…). Apresentava-me a este segundo Simeão, tal como o Menino Jesus no Templo. O abade fez-me o sinal da cruz e bichanava várias rezas e todos respondiam “Ámen, Ámen”.

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O pai passou várias vezes a criança pela árvore e murmurava: “Aceite, Senhora Comadre, / este nosso afilhado / que nasceu são e é quebrado. / Passemo-lo pelo carvalho / e o  milagroso S. João / nos faça este milagre / o carvalho vá soldando / e o menino sarando”. Dali, a criança passou para a tia Custódia, sua madrinha baptismal.”(…) Depois, o Monge reajustou as duas vergas do carvalhiço, pôs-lhe barro à volta, ligou-as com vimes e tiras de riscado que haviam rasgado duma camisa minha”.

Terminara a cerimónia. “(…) Acredito pouco destas práticas que vêm do tempo da Maria Castanha. Mas a fé é que nos salva – filosofou o abade”.

Os pais do Amadeu analisavam a cicatriz da árvore e ficavam umas vezes cépticos, outras, optimistas. Na Primavera, a árvore cicatrizou e o rapazinho ficou livre da hérnia. “Eu considerava-o minha parte gémea do meu organismo. Estimava-o mais do que ao mano… se alguém lhe desse golpes ou o cortasse, eu não sofreria com ele?”.

 

A égua falante

“– Tem que se fazer homem! – sentenciava meu pai”. Isto significava que o rapaz deveria “largar à gandaia com os garotos”, permitindo-se-lhe até levar a égua a beber água ao ribeiro. Mais do que uma vez, Amadeu caiu da égua. Esta, “a passo, como se nada tivesse sido com ela, e eu atrás a passo também, nos dirigimos para casa”.

“Era um bicho inteligente, esta égua”, chamada Inácia. “Ano por ano, dava cria para a feira de Trancoso, pelo que os seus flancos eram amplos e dilatados”. O menino convivia com ela “como pessoa de família. Quando virava a cabeça para mim e eu me revia em suas pupilas ternas e melancólicas, tinha a impressão que ela me desejava falar. Sim, eu ouvia-lhe dizer em sua alma simples e compreensiva (…) – Viva lá o meu menino, viva! Vamos hoje até ao lameiro?… Venha, que eu levo-o de vagar ou depressinha, como o meu riquinho quiser. Devia ser assim, porque a mim nunca me fez mal”.

Quando dava à luz, tornava-se bravia, com medo de lhe tirarem a cria. O pai do Amadeu e o Monge não conseguiam entrar: “(…) de crinas no ar, a estrepe dos dentes à mostra, nitrindo”. Mas era necessário cuidar da cria, “que jazia nas palhas, flácida e amarfanhada como uma seda”. A mãe de Amadeu, que fora sempre branda com ela, conseguiu acalmá-la. Só, entrou brandamente, caminhou para ela e a égua “deixou-se ficar quieta como uma borrega. Minha mãe acalentou a cria e chegou-lhe às tetas”. O narrador pensa que o animal associava a figura da mãe à brandura ou então “no fundo do seu instinto materno sentia em minha mãe uma solidariedade remota que as associava na obra da criação”.

 

Pós-catrapós para a escola

A tiracolo, com o livro de aprender e a tabuada, Amadeu ia para a escola, “pós-catrapós”. O Berzebu nem lhe ligava, porque sabia para onde o seu companheiro de folguedos ia e continuava a dormitar no pátio. Embora tivesse que fazer um percurso mais longo, o rapaz passava pelo cardenho dos Loios. “(…) Afrouxava o passo e punha-me petulante e birbantão a assobiar o Compadre Chegadinho.”

Ia ver a Maria Loia, claro, que geralmente estava no pequeno pátio da casita de ripa; se estivesse lá dentro, “(…) vinha logo, porque eu tinha essa presunção. Mas a cachopa, embora acudisse logo, disfarçava”. Semi-escondida, parecia rir-se dele. Então, o rapaz “envergonhado, gracejava”:

“– Eh, cascaroleta!

– Eh, Magalhães [o apelido do miúdo], esfola-gatos, mata-cães…”.

O pior era a aparição da mãe, “a Senhora Mabília, mulherona mais que alta, escanifrada e febril, dava-lhe a ideia de uma gralha que perdera a pena (…). E a cana rachada:

– Ora vejam, um menino filho de boa mãe e tão pincha-no-crivo! Tenha vergonha, siga o seu caminho! Já a formiga tem catarro, hem? E querem fazer disto padre!?

– O seu Manel?

– O Manel!?…o menino não sabe que o Manel foi ao mato? “(…) À escola? A escola é boa para os ricos…Não que o meu homem já não pode (…)”

“A Maria Loia ria da minha confusão (…) “Eu devia saber quem era (…) a digna filha de ambos… ele era um manga-las-mangas, corcunda, bebedolas, a quem, se murmurava, a mulher sujava as barbas, o que eu não entendia pois o Loio usava a cara rapada… o melhor de todos era o Manuel, garranito que não dava o braço a torcer a mais velhos do que ele, e eu admirava.”

 

A faculdade do bocejo

“(…) A escola, com a D. Letícia, ter-se-ia tornado admirável faculdade do bocejo, se os alunos não fossem dotados duma frescura psíquica, primordial, refractária ao tédio. (…) Quando não exercia sobre nós o açoite do seu mau génio, abandonava-nos à rédea solta”.

Então a mestra vingava-se da anarquia instalada, tirando aos alunos os piões. “(…) Esta crueldade acendia em nós os mais briosos maus pensamentos. (…) foi com a D. Letícia que aprendi a odiar”. Amadeu adorava o seu pião e as lágrimas soltaram-se-lhe dos olhos:

“– Está a chorar, menino!” – exclamava ela com mordacidade.

– Foi um mosquito que me entrou para a vista!

– Eu tiro-lhe com o cabo da palmatória!

Explodia grande risota.”

(…) Muitas vezes, a criada dizia “em tom de arauto”:

“– Vão para as suas casas que a senhora hoje não dá aula”.

Era o que a rapaziada queria ouvir. Para casa, nunca. Então, associavam-se também as raparigas e começavam as aventuras. Ora debandavam para o riacho: “(…) não havia regalo maior do que ir subindo pelo seu leito, calças arregaçadas…”; ora para a capela do Senhor dos Milagres “e repartidos em dois bandos, guerrilharmos à pedrada (…) até “(…) largarmos para nossas casas contritos e timoratos, como cachorros com o rabo entre as pernas”, por causa dos “uivos (…) de uma cabeça rachada”. Ou então, com as raparigas, faziam “uma estranha colónia esponsalícia”. Cada rapaz tomava uma delas: “a mim cabia-me sempre a Emilinha, a mais fidalga, irmã do Chico”. Este escolhia a Maria Loia. Embora esta não frequentasse a escola, aparecia nestas ocasiões, “como por encanto.” Eles, cavavam na horta, caçavam “coelhos abstractos por uma pá velha”, cavalgavam “uma cana”… Elas, preparavam “o comer”: o azeite, “extraído dos copilos; com o arroz dos telhados, preparavam um caril que ingeríamos despachadamente, com dois pauzinhos, como os chineses”. Acabado o repasto, iam-se “deitar na boa harmonia de ditosos e honestos casais”.

“A Loia dardejava-me um olhar malicioso, a que eu respondia com outro furibundo.  (…) Bem me afagava a minha mulherzinha que era meiga, rechonchuda e uma gatinha a miar…” Mas o rapaz ficara despeitado com a outra e “não haviam ainda brotado para mim, em tal sector da alma, os dons da pluralidade”. À Emília, nunca lhe passara pela cabeça “que eu gostasse doutra”.

* * * * * *  

Sem dúvida que este “romancito” não fica nada a dever – pelo contrário – às outras obras do autor. Quem não se encanta com a infância, principalmente quando chega à maturidade e ainda mais à velhice que a recorda com grata emoção? Depois, surge naturalmente a pré-adolescência, intensificando outras emoções, contradições. Este livro é, sobretudo, um hino à Vida. À relação do homem com a natureza, os animais, o cosmos. Com o Mistério, jamais desvendado.

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