Cinema: À Porta da Eternidade

| 20 Jan 20

Van Gogh, Velho a sofrer (No limiar da eternidade)

 

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

A sua biografia e as 800 cartas que escreveu – a Theo, seu irmão, 652; o resto, a amigos – ajudam a apreciar a sua pintura, constituída por mais de duas mil obras.

Vincent van Gogh nasce numa família da burguesia holandesa, em 1853, cujas ocupações tradicionais eram as de pastor protestante e negociante de quadros. Vincent, desde jovem, inclina-se para ser um homem de Deus. Estuda, chumba duas vezes em Teologia, mas segue a via de pregador leigo. Estabelece-se junto de uma comunidade de mineiros e é muito bem acolhido pela população. Vive pobremente, como eles, quase despojado de tudo, o que não agrada aos dignitários religiosos, devido ao “excesso de zelo”.

Retoma outro rumo, mas Jesus Cristo continua a ser a personificação da sua visão do mundo, baseada no paradoxo do sofrimento redentor. Desenha, frequenta aulas e instituições de Arte. Frequenta os meios artísticos parisienses, mas não o atrai esse ambiente.

– “Pinto o Sol», responde ele a um companheiro, no Asilo de Saint-Rémy, na Provence. Mas é também aí, em liberdade, caminhando pelas planícies e escarpas rochosas, irradiadas de luz, que ele encontra a eternidade. A alegria mística dos pigmentos coloridos, em turbilhão nas telas; as formas retorcidas e em espiral, azuis e amarelos fundindo-se em visões oníricas, fealdade e beleza misturadas. Uma explosão, uma epifania pictórica. Estão ali impressos o coração e a sua alma: “Eu sou os meus quadros. Pinto para não pensar”: na criação, une-se a tudo, ao mundo, ao universo. “Num quadro, quero consolar, como uma música, homens e mulheres, com algo de eterno.”

Mas van Gogh é um visionário e por isso é incompreendido nos meios artísticos. Vendeu um só quadro, durante a sua vida. No ambiente estreito e provinciano, odeiam-no. A sua liberdade mete medo às mentalidades estreitas. O pintor Paul Gauguin vai ter com ele a Arles, mas logo surgem conflitos entre os dois. Nessa altura, Gaugin considera van Gogh um pintor menor e dá-lhe conselhos. Sente-se mal, naquele meio fechado e abandona van Gogh, que irrompe numa crise. É belíssimo, esse cenário: um antigo cemitério cheio de pedras tumulares, num tom azulado, quase branco. Vincent chora a partida do amigo. A angústia irrompe do corpo e da alma.

O seu irmão Theo é como um anjo protector que o acompanha. Embala-o suavemente, como uma criança. Ajuda-o monetariamente; soluciona as suas crises de angústia. Vincent parte depois para Anvers-sur-Oise, outro ponto da Provence e encontra um amigo no dr. Gachet, médico e amante de arte. Continua a pintar. Ele sabe que “a vida é para semear, a colheita não se faz aqui”. Escreve ao irmão: “Receio andar a causar-te muita ansiedade por ser um peso para ti.” Theo tem uma família para sustentar e o negócio não corre bem e comenta: “Será que tenho de viver sem pensar no dia de amanhã?”

Para van Gogh, comentam Ingo Walther e R. Metzger (in Van Gogh, Obra Completa de Pintura; ed. Tashen), “o preço da fama era a morte. O seu suicídio foi uma maneira de expressar o desejo de trabalhar em conjunto com o irmão”.

As últimas palavras do filme: “Deus, aceitas este filho?

 

À Porta da Eternidade, de Julian Schnabel

Título original: At Eternity’s Gate

Com: Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac.

EUA/GB/Irl/Fra; 2018; 111 min; disponível em DVD

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