Acusado de heresia

Cirilo deve deixar de ser patriarca, defende líder ortodoxo ucraniano

| 3 Ago 2022

Metropolita Epifânio, líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia e patriarca ecuménico Bartolomeu foto Presidential Administration of Ukraine, CC BY

O Metropolita Epifânio, líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (à direita), e o patriarca ecuménico Bartolomeu (à esquerda), a quem escreveu criticando fortemente o patriarca Cirilo. Foto © Presidential Administration of Ukraine, CC BY.

 

O patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa, “é um mestre da heresia, devido ao apoio que tem dado à invasão da Ucrânia” e deve ser privado do cargo que ocupa. A tomada de posição vem do Metropolita Epifânio, líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (independente) e surge numa carta que dirigiu recentemente ao patriarca ecuménico Bartolomeu, primus inter pares (o primeiro entre iguais) dos líderes cristãos ortodoxos, sediado em Istanbul, Turquia.

“Cada criança assassinada, cada mulher violada, cada edifício residencial e templo destruídos não é apenas um crime de guerra, mas também um ato de renúncia a Cristo”, diz a carta, aprovada numa reunião do Sínodo da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em 27 de julho, por ocasião da festa do Batismo da Rus de Kyiv, que comemora o batismo da Kiev medieval, também designado como Dia do Estado Ucraniano pelo governo do país.

A missiva salienta ainda que “a responsabilidade moral pelos crimes cometidos repousa não apenas nos perpetradores diretos, mas também nos seus inspiradores ideológicos – o patriarca Cirilo de Moscovo e seus hierarcas que ao longo de décadas propagaram a doutrina etnofilética (confusão ou mesmo identificação entre Igreja e Nação) e racista do ‘mundo russo’ e estão agora a abençoar o ataque à Ucrânia.”

A agência Religion News Service, que dá a notícia, explica, por sua vez, que a doutrina  do “mundo russo” imagina uma civilização russa “transnacional com um centro político em Moscovo, um centro espiritual em Kiev, língua russa e religião ortodoxa comuns e valores sociais tradicionalistas em oposição ao Ocidente ‘globalizado’ e ‘liberalizado’”.

Ainda que endereçada ao patriarca ecuménico, a carta fala de preocupações para a globalidade da comunidade cristã ortodoxa. “É importante entender que a ideologia da moderna ROC (acrónimo da Igreja Ortodoxa Russa) contém uma ameaça não apenas para a Ucrânia, mas também para todo o mundo ortodoxo”.

“A Rússia é um país que durante séculos vinculou a sua identidade à Ortodoxia”, diz também a carta, mas, desde então, “foi insidiosamente substituída por uma religião civil que aparentemente se baseia na tradição ortodoxa, mas alheia ao espírito do Evangelho e ao conteúdo da Igreja”.

 

Padres de ramos da ortodoxia dialogam em Kyiv

Entretanto, têm-se registado contactos entre as duas principais igrejas ortodoxas da Ucrânia, tendo em vista o diálogo sobre o que as une e as divide.

Aproveitando a festa do aniversário do batismo do príncipe S. Vladimir, o fundador das comunidades cristãs no mundo eslavo, realizou-se uma modesta oração inter-religiosa na catedral de Santa Sofia, em Kyiv. Esta festa foi, em anos recentes, ocasião para as confissões cristãs fazerem grandes procissões e manifestações públicas do seu vigor e iniciativa. Este ano, tudo decorreu no interior dos templos, devido à situação de guerra.

Dada a posição do patriarca Cirilo neste conflito e também as pressões internas na Ucrânia, muitos padres ortodoxos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, ligada a Moscovo, deixaram de invocar o patriarca nos seus atos litúrgicos e um concílio realizado no final de maio decidiu mesmo criticar Cirilo e aprovar um distanciamento de Moscovo, ainda que ambíguo quanto ao seu alcance.

Um dado novo foi a realização, em 5 de julho último, na simbólica catedral de Santa Sofia, em Kyiv, de um encontro de 21 padres (11 da Igreja Ortodoxa Ucraniana independente e 10 da que tem estado vinculada a Moscovo), para diálogo sobre assuntos pastorais.

Segundo relata o site católico Pillar, os padres discutiram a relação entre as igrejas e declararam “a conveniência e a necessidade de um diálogo construtivo entre os dois ramos da ortodoxia ucraniana”, um diálogo que, refere o site, é raro entre os ortodoxos.

Na reunião foi também decidido solicitar aos hierarcas de ambas as igrejas que “iniciem um diálogo oficial entre a Igreja Ortodoxa Ucraniana e a Igreja Ortodoxa da Ucrânia”, ponto que será certamente mais complicado, dado que os responsáveis da Igreja Ortodoxa pró-Moscovo se demarcaram de imediato da reunião havida, observando que ela apenas vinculava individualmente cada um dos participantes, visto não ter delegado ninguém para participar na iniciativa.

Grande parte do encontro foi dedicado a pontos relativamente consensuais, ainda que também tenham sido debatidas algumas matérias em que se regista desacordo.

A verdade é que o grande apoio que este encontro granjeou nos media ucranianos e as necessidades de convivência ao nível das comunidades locais constituem fatores que poderão acelerar este processo de encontro, empurrado em grande medida pelo conflito armado.

 

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