
Elvas fica a cerca de duas horas de distância de Lisboa. Fica a três horas se viermos diretamente do Algarve, lugar de onde parti para esta cidade fervente. As sombras são escassas, apesar das muralhas da cidade se erguerem com imponência em estrela. As ruas sinuosas transportam-nos aos pontos mais altos, entre casas pintadas de branco cal com retoques a amarelo vivo, e descem ao som das vozes das crianças que brincam na rua.
Entrei neste zigzag para visitar a Farra, Festa da Arte em Rede da Região do Alentejo, organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE). Em 2022, quando o museu celebrou 15 anos, já tinha visitado esta celebração em forma de evento periódico, à semelhança de bienais, onde as exposições são apresentadas pela cidade. O conceito não é novo, as exposições universais do século XIX tinham como principal objetivo a exposição de artistas ou cultura nacional em território competitivo. Neste caso, porém, várias instituições são chamadas a partilhar as obras de artistas que compõem as suas coleções, assim como organizações independentes, associações de artistas, e manifestações artísticas ativas de norte a sul, mostram projetos pensados para dialogar com vários domínios de artes e sobretudo convidar à experimentação dos espaços mais inusitados, pouco explorados – até então – na curadoria de exposições em Elvas.

“Um Lugar Chamado Sob”, obra de Isabel Cordovil, curadoria de Ana Cachola, Coleção A. Cachola, Cisterna, FARRA, Elvas,
Foram lugares revelados, em especial a velha cisterna da cidade, que foi construída em 1650. A estrutura abasteceria a população durante quatro meses de cerco. No fundo: água estagnada. A pairar, duas canoas. Este atravessamento da vida para a morte, as luzes brancas e vermelhas a definir o arco, o espelho infinito, a impossibilidade de vislumbrar Caronte, o barqueiro, a travessa do rio Estige, o eco e a reverberação do som que nos leva ao inesperado. Vozes angelicais, por um lado, distorções e camadas, com mais de 100 batimentos por minuto, por outro, consubstanciam-se num cruzamento perfeitamente sincronizado de memento mori. Permitia a paz e o tal exame de consciência, que se lia na folha de sala da exposição “Um Lugar Chamado Sob” com a obra de Isabel Cordovil, curadoria de Ana Cachola, Coleção A. Cachola.
Éramos quatro no total. Em silêncio. Ficámos mais de 30 minutos, mas poderíamos perfeitamente ter permanecido mais de 30 horas e perder as noções de tempo. A luz ténue, depois de minutos, passou a estar visível aos nossos olhos que se habituaram à revelação do claro-escuro. Nesse ambiente profundo, regressei às questões da compreensão humana sobre: a passagem – a vida – a morte – a ressurreição – a redenção – o pagamento – o transporte – as formas possíveis de deixar uma espécie de legado – os gestos – o amor. E foi nessa cristalização, neste pequeno-grande oásis, difícil de encontrar no meio da cidade – revele-se no telemóvel a quantidade de chamadas que fiz para o museu e amigos para tentar encontrar esta bandeira de um território ocupado por uma comunidade partilhada, com relações de proximidade ao museu e à cidade raiana, sem fronteiras físicas estabelecidas, mesmo à porta da cisterna -, foi aí que encontrei refúgio.
Para aprofundar:
– A República, Platão
– A Divina Comédia, Dante Alighieri (1320)
– Ser e Tempo, Martin Heidegger (1927)
– O Mito de Sísifo, Albert Camus (1942)
– A Arte de Ver, Aldous Huxley (1942)
– A Morte do Autor, Roland Barthes (1967)
– Tudo sobre o Amor, bell hooks (1999)
Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.









