Foram publicados, em 2025, no Brasil, dois livros ligados à teóloga Maria Clara Bingemer. Um de sua autoria, outro, coordenado por ela. São dois livros que, poderíamos dizer em termos gerais, articulam a espiritualidade com o compromisso de vida. Maria Clara Bingemer é uma mulher de uma rara sensibilidade que, por isso, sabe ligar o seu imenso saber teológico com a sua profunda cultura configurando um olhar sobre o mundo que tem uma intencionalidade ao mesmo tempo de denúncia mas sem perder de vista um horizonte de sentido superador; por outras palavras, a sua crítica é sempre atravessada pela esperança e pela convicção do bem e do seu triunfo.

A característica deste olhar sobre a vida está particularmente expressa no livro A Sede de Deus nos Desertos Contemporâneos. Aproximações Teopoéticas, publicado pela editora Recriar, de São Paulo. É um livro sobre a busca de Deus, aqui designada como sede, mas também sobre a memória; melhor dizendo, sobre muitas memórias, compondo um palimpsesto de memórias dessa busca ou sede. Memórias textuais, memórias culturais, memórias históricas.
Basicamente, o livro está dividido em duas partes. A primeira é um itinerário pelos textos bíblicos que falam do deserto, da sede e da água que desaltera. A segunda fala dos desertos da violência, da opressão e da exploração e da vitória humana sobre eles.
No prefácio, Peter Casarella, a quem o livro é dedicado, diz a determinada altura: “O itinerário intelectual parece muito tranquilo até à entrada no deserto de Atacama. A partir desse deserto chileno, o modo de discursividade muda. Não falamos mais de textos e tradições bíblicas. Falamos dos cadáveres dos filhos das mães chilenas com uma forte memória da repressão durante a ditadura de Pinochet” (10).
Este conjunto de afirmações descreve, de modo magistral, a diferença entre a primeira e a segunda parte do texto de Maria Clara Bingemer porque, na verdade, tudo muda com o aparecimento do deserto do Atacama, porque se deixam para trás uma investigação e uma reflexão de natureza puramente intelectual – embora elas expressem um profundo conhecimento e uma grande sensibilidade espiritual aos temas e aos seus significados –, para se entrar no cerne do deserto humano do sofrimento, da dor, da injustiça e da impotência. De um certo ponto de vista, pode-se dizer que se abandona o plano do simbólico para se penetrar na dureza da realidade, de onde se recorta com toda a crueza a vulnerabilidade humana. Por isso, de facto, a discursividade tem também de mudar e a teóloga vai buscar em seu auxílio diferentes linguagens artísticas para mostrar quer os abismos do sofrimento humano quer a sua vontade de sentido.
A segunda parte do livro intitula-se Para uma teopoética da sede de Deus, procurando analisar aproximações decorrentes do uso da linguagem poética em geral – poemas, filmes, narrativas –, às imensas e diversificadas situações da precariedade da vida humana. Não se trata apenas do deserto de Atacama, mas também da repressão urbana de Buenos Aires ou da fome do Nordeste brasileiro, entre outras situações. Em todos os exemplos tratados, a autora explora, confrontando, o deserto e a dimensão salvífica da água.
São aproximações teopoéticas, como sublinha o subtítulo da obra, porque é a fecundidade da linguagem poética, seja qual for a forma que assuma, que, na polissemia que a habita, pode hoje, mais facilmente que o formalismo da teologia clássica, nomear o Transcendente e aliviar “a sede de Deus [que] permanece viva e aguda no mundo de hoje” (135).

No segundo livro que referi acima, Maria Clara Bingemer é coordenadora. O livro tem por título Teologia de Mulheres. Desafios Epistemológicos Hoje, numa edição da editora Vozes. Porquê teologia de mulheres e não recorrer a designações já consagradas como teologia e género ou teologia feminista, por exemplo? Trata-se de uma opção que foi explicitada durante a apresentação do livro. O objetivo era incorporar uma paleta diversificada e ampla de perspetivas sobre a relação entre a teologia e as mulheres, pelo que qualquer título mais específico seria desadequado.
Há, na verdade, uma grande diversidade de autoras, desde nomes consagrados como o de Ivone Gebara e da própria Maria Clara, até jovens ainda em formação ou no início do seu percurso académico. Contudo, mesmo os textos das teólogas mais jovens são textos de maturidade e que relevam de uma consciência clara da situação precária das mulheres no universo doutrinal e teórico do cristianismo e do catolicismo.
A diversidade que atravessa o livro também está patente nos princípios hermenêuticos de análise, que vão desde perspetivas feministas radicais às que salientam, sobretudo, o contributo que o feminino que as mulheres transportam tem dado à teologia tradicional e à sua lente masculina monocórdica, passando por abordagens que, embora de horizonte feminista, se mantêm no quadro de uma análise conciliadora. Todavia, há que dizê-lo, em todos os casos está em questão a defesa da necessidade de que as mulheres sejam sujeitos de enunciação no campo da teologia, não só por uma questão de justiça, mas igualmente para o enriquecimento da própria reflexão teológica. No conjunto, são textos escritos do interior da Igreja, por mulheres com um profundo vínculo a ela e com trabalho pastoral e académico no seu interior, mas incisivos quanto à denúncia da situação das mulheres dentro do cristianismo e do catolicismo, tanto do ponto de vista das representações discriminadoras de que são alvo, como da sua total subalternidade em termos de participação nos centros de poder e de decisão, como, finalmente, da resistência em relação ao seu contributo no campo doutrinal.
O livro tem como subtítulo Desafios Epistemológicos Hoje, que descreve a intencionalidade funda de cada texto que o compõe, textos que, no conjunto, se dedicam a marcar, de várias maneiras, o lugar hermenêutico de cada fala e, por essa via, a desocultar o lugar de fala da teologia tradicional “que se institucionalizou como um ‘discurso verdadeiro’”, mas que “nada mais é do que um saber situado e parcial, construído a partir da visão de sujeitos masculinos e com base em teorias produzidas em contextos históricos e culturais específicos”(143).
Nessa perspetiva, o mesmo artigo, citando a teóloga Delir Brunelli, sublinha esta ideia dizendo “que a teologia é masculina não só porque foi sempre produzida por homens, mas porque se desenvolveu numa cultura na qual o masculino era o normativo e porque se serviu de um conhecimento filosófico produzido dessa forma.” (157).
Nesse quadro da chamada de atenção para a radical situação hermenêutica de cada discurso, o tema da linguagem tem uma importância fundamental nesta obra, não só preconizando o uso de uma linguagem inclusiva no seio das práticas religiosas, mas, mais fundo, mostrando a linguagem como veículo de transmissão das ideias e das doutrinas, evidenciando, ao mesmo tempo, o papel das traduções como processos invisíveis de discriminação e de subalternização das mulheres. Neste âmbito da linguagem, é mesmo tratada a ideia de que há uma dimensão de idolatria numa linguagem exclusiva sobre Deus, porque nela,” o simbolismo e a analogia acabam-se se confundindo com a realidade”. (216).
Embora haja, como se disse, uma grande diversidade de perspetivas nos temas e na sua abordagem, todavia há muita clareza na denúncia da opressão que as mulheres têm sofrido por parte do cristianismo e do catolicismo, ao longo do tempo. Por isso, temas como silenciamento, ocultação, exclusão ou patriarcalismo ocorrem de modo sistemático, configurando um quadro opressor para as mulheres.
Uma tónica também muito acentuada ao longo da obra é a defesa da ideia de que a teologia feminista não tem como único objetivo a libertação das mulheres, mas sim estar “ao serviço da transformação de situações injustas geradoras de desigualdades e exclusão.” (208).
No fundo, este livro ajuda-nos a compreender que “Deus tem o rosto de quem o conta” (207).
A Sede de Deus nos Desertos Contemporâneos. Aproximações Teopoéticas
Autora: Maria Clara Bingemer
Editora Recriar (São Paulo, Brasil), 2025
146 páginas
Teologia de Mulheres. Desafios Epistemológicos Hoje
Coordenação: Maria Clara Bingemer
Editora Vozes (Petrópolis, Brasil), 2025
240 páginas
Fernanda Henriques é professora emérita de Filosofia da Universidade de Évora
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










