Clarice há 50 anos

| 18 Jan 19

É uma experiência extraordinária, que ocorre no interior da igreja de Santa Teresinha, no Rio de Janeiro, aquela que Clarice Lispector relata no dia 18 de Janeiro de 1969 (faz hoje mesmo 50 anos) num texto publicado no Jornal do Brasil. É aí que a escritora decide procurar refúgio quando circulava de táxi. Manda-o parar e entra “na penumbra fresca da igreja”. Clarice Lispector sente, primeiro, o cheiro de flores sufocando-a brandamente. Depois: “Pouco a pouco meu tumulto interior foi se transformando numa resignação melancólica: eu dava minha alma em troca de nada.”

Repara nos santos, ao mesmo tempo esquece a sua dor. Sobre eles, escreve: “Todos tinham desistido de uma vida maior em prol de uma vida mais profunda e mais machucada. Todos não tinham ‘aproveitado’ da vida única que nós temos. Todos tinham sido tolos, no sentido mais puro da palavra. E todos haviam sido perpetuados para sempre, para o nosso coração sedento de misericórdia.” As reflexões conduzem-na a algumas perguntas, que a levam a uma observação: Santa Teresinha, com os pés cobertos de flores, deitada num caixão colocado no centro da nave principal.

Clarice Lispector olha com atenção sem conseguir identificar o material da imagem. Percebeu logo que não seria de porcelana. Admitiu que fosse de cera, mas descartou rapidamente a hipótese. Só tocando na santa, ficaria a saber de que era feita. Estando a igreja deserta, fez avançar a mão para resolver a dúvida. Fê-lo no mesmíssimo instante em que duas moças se encaminharam para o caixão. Deteve-se a tempo e escutou uma delas: “Afinal de contas quando é que vem todo o mundo para o enterro de vovó? Ela não pode ficar morando na igreja!”

O resto do texto narra a recomposição do susto – de um quase desmaio, quando percebeu que quase tocou numa pessoa morta – até à saída da igreja: “Na rua fiquei de pé muito tempo aspirando o cheiro que estar vivo tem. É uma mistura de carne, de corpo com gasolina, com vento de mar, com suor de axilas: o cheiro do que ainda não morreu.” Por fim, seguiu de táxi de novo.

O texto encontra-se em Todas as Crónicas, que colige a colaboração da escritora brasileira em jornais e revistas entre os anos 40 e 70 do século XX. O Jornal do Brasil é aquele em que Clarice Lispector mais publica. Fá-lo entre 1967 e 1973. Marina Colasanti, a secretária do Caderno B do Jornal do Brasil, escreve o prefácio da colectânea que serve para recordar os momentos em que recebia as crónicas da escritora, no início, pessoalmente, a seguir, por interposta pessoa. A recomendação de cuidado com os textos porque não havia deles cópia e a escritora pretendia reavê-los manteve-se invariável. Constante era também o pedido para que não lhe tocassem nas vírgulas. Marina Colasanti recorda o que, em diversas ocasiões, lhe dissera Clarice Lispector: “Minha pontuação é a minha respiração.”

Todas as Crónicas foi editado no passado mês de Dezembro pela Relógio d’Água, que publicara já Todos os Contos (2016), além de várias outras obras de Clarice Lispector.

Os primeiros textos de imprensa da escritora datam de 1946 e foram publicados em O Jornal. Os derradeiros encontram-se em Última Hora e são datados de 1977.

 

Clarice Lispector – Todas as Crónicas

Prefácio de Marina Colasanti, organização e prefácio de Pedro Karp Vasquez, pesquisa textual de Larissa Vaz.

Lisboa: Relógio d’Água, 2018

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