Clarice Lispector e Deus

| 8 Mar 19

Clarice Lispector, numa imagem captada do ecrã, durante a sua última entrevista, à TV Cultura, do Brasil, em Janeiro de 1977, meses antes de morrer

Clarice Lispector, grande escritora brasileira, nascida de uma família que teve de abandonar a Ucrânia devido às perseguições aos judeus, é considerada uma das grandes escritoras do século XX, a maior escritora judia depois de Kafka.

Escreve o seu primeiro livro, “Perto do Coração Selvagem”, aos 24 anos. Para ela “escrever é uma indagação”. Não a podemos confinar a um único género literário, “não caibo em nenhum género”, afirma ela, mas tem consciência da importância da sua escrita: “Eu já nasci incumbida!” e afirmava: “Eu quero atingir o mais íntimo segredo daquilo que existe. Estou em plena comunhão com o mundo” (…) “O milagre é a simplicidade última de existir”. Confrontamo-nos aqui com a profunda espiritualidade de Clarice.

A sua obra tem carácter universal, carregada de complexidade, numa escrita “no feminino”. Escreve sobre o trivial, o quotidiano, levando a descrição de um determinado momento ao detalhe: a barata; o ovo a ser estrelado; o saco de compras. Clarice não olha. Contempla. É “a epifania das personagens comuns em momentos do quotidiano”, segundo um dos seus críticos. Tinha uma vocação solar: “Vamos não morrer como desafio?”, afirmou.

A sua relação com Deus é complexa e contraditória. Clarice era uma inquieta de Deus: “Sou um objeto querido por Deus. E isso me faz nascerem flores no peito (…) É por isso que me dou à morte todos os dias. Morro e renasço”.  A forma como escreve, a atenção ao quotidiano, o sentido de contemplação tornam-na uma mística: a procura de Deus estava no cerne da sua existência. “A escrita humanizou-me”, dizia.

Clarice vai dando visibilidade a um outro mundo possível. Afirma a escritora e ativista brasileira Rosiska Darcy de Oliveira: “A vida não enganava Clarice: por baixo dos factos, do enredo, borbulha a matéria misteriosa de que é feita a existência e é ela que emerge fulgurante em sua literatura vinda de atrás do pensamento”.

Para Clarice, escrever “é uma maldição… que salva”. “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos”… Define Deus como “uma coisa que se respira”. Por outro lado, mais adiante, exprime a sua inquietação: “Eu não tenho fé em Deus. A sorte é às vezes não ter fé. Pois assim poderá ter a Grande Surpresa dos que não esperam milagres”.

O movimento da sua vida “enquanto escritora e enquanto mística é em direção a Deus”, afirma o seu biógrafo, Benjamim Moser. Clarice afirma, no final da sua vida: “Eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte”. A Fonte que é Deus, sempre num além inominável.

Já muito doente – morreu prematuramente com um cancro aos 56 anos de idade – escreve na sua caligrafia já trémula: “Eu sei que Deus existe”. E adiante: “Quando acabardes este livro chorai por mim mais um aleluia (…) No entanto eu já estou no futuro”.

Este último desejo – “Eu quero simplesmente isto: o impossível. Ver Deus! ouço o barulho do vento nas folhas e respondo: sim!” – lembra que Clarice buscou um “Deus caminhando na brisa da tarde” do livro do Génesis.

A mística busca do transcendente coloca Clarice Lispector perto  do Castelo Interior de Teresa de Ávila. O desejo da fusão. Até sempre, Clarice, no futuro!

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e membro do Movimento Graal de mulheres católicas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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