
Cerimónia de abertura, em que o presencial e o online se ligam e interagem. Foto © Margarida Belchior.
Se os participantes da VIII Conferência Internacional de Sociodrama que aconteceu em Budapeste, entre os dias 26 e 30 de junho, podem ser considerados como uma amostra da humanidade, penso que este encontro nos trouxe esperança para o nosso futuro coletivo nesta Casa Comum de que somos parte.
A conferência teve como foco a atualidade e a realidade social, valorizando o contributo de cada um e de cada uma para a co-construção coletiva de um planeta, uma terra mais humana e mais sustentável, mais pacífica, com maior diversidade, onde cada uma e cada um possa ser ouvido e contribua, através da sua expressão, para esta urgente co-criação coletiva.
O tema da Conferência foi: “Call for Creation!” – New visions for a collective future [“Apelo pela Criação!” – Novas visões para um futuro coletivo]. Foram cinco dias intensos de um interessante programa, com trabalhos de grupo no local da conferência e em diferentes comunidades da cidade. Também com espaço e tempo para comunicações orais, momentos de grande grupo, pequenos grupos de partilhas (home groups) e momentos culturais. Abrangendo domínios tão diferentes como a educação, a política e a democracia, as alterações climáticas, a transformação e a resolução não violenta de conflitos, o papel das artes e das relações interpessoais.
Em simultâneo, realizou-se uma versão online, organizada pelo TELE’Drama Internacional, tendo a cerimónia de abertura e de encerramento tido o formato híbrido, ou seja, o espaço presencial e o online estiveram em comunicação.
Participaram cerca de 250 profissionais que trabalham com grupos de todo o mundo, de diversos contextos sociais e culturais, de várias idades. São profissionais da área da saúde, da educação, da psicologia, de serviço social, das artes, de educação social, da sociologia e ainda outras. Com nacionalidades variadas, desde a Nova Zelândia à Austrália, de Singapura aos Estados Unidos, da Ucrânia à Rússia, Brasil, Roménia, Reino Unido, Jamaica, Portugal, Israel, Espanha, Bulgária, Áustria, Jamaica, Bélgica, Turquia, Países Baixos, Grécia, Itália, Suécia, Croácia, Noruega, Índia, Sérvia, Finlândia, Costa Rica, Alemanha, Coreia do Sul e Hungria, o país organizador. Devo certamente estar a esquecer-me de alguma nacionalidade. E que excelente organização!
Foi um belíssimo encontro – em todos os sentidos: de amigos e amigas que não se viam há anos, sobretudo devido à pandemia; mas também de amigos e amigas que só se conheciam do online e se puderam abraçar, partilhando a alegria de se encontrarem no mesmo espaço físico pela primeira vez. Foi uma grande oportunidade de partilhas, de celebração, de fazer novos amigos, de aprendizagens diversas.
De Portugal estivemos apenas três participantes.
Lembro que a I Conferência Internacional de Sociodrama aconteceu em Portugal, em 2007. A próxima será organizada na Turquia, em 2026. A metáfora destas Conferências Internacionais de Sociodrama tem sido “A viagem para Ítaca”: mais importante do que a chegada, é a viagem.

Um dos cartazes produzidos na cerimónia de encerramento pelos participantes sobre os subtemas da conferência. Foto © Margarida Belchior.
O sociodrama foi criado por Jacob Levy Moreno (1889-1974), de origem sefardita, que estudou medicina e psiquiatria no início do século XX em Viena (Áustria). Moreno acabaria por emigrar para os EUA, em 1925, onde, a par do sociodrama, desenvolveu também o psicodrama e a sociometria. O sociodrama é uma abordagem centrada em grupos, cujos participantes são convidados a expressarem-se utilizando o seu corpo, tal como acontece na expressão dramática, a par da linguagem verbal, pondo em cena, de forma espontânea, criativa e improvisada as situações ou narrativas que pretendam partilhar, perceber melhor, ou resolver. É utilizado para o treino de diferentes papéis sociais (role-play), para a transformação e resolução de conflitos, para perceber situações complexas em domínios como a educação (vários níveis de ensino, desde a educação pré-escolar ao ensino superior), a formação, a educação comunitária e social, as artes e a saúde.
A sua filosofia assenta em valores como o “encontro” do outro, daquele que é diferente, convidando-nos a “andarmos com os seus sapatos”, para o compreendermos melhor, ou seja, visa o desenvolvimento da empatia, a par do desenvolvimento da espontaneidade e da criatividade, no momento presente, no aqui e agora, pondo o corpo em ação. Nos seus desenvolvimentos atuais é frequentemente usado a par de outras técnicas expressivas como as artes plásticas ou a expressão musical.
Em Portugal, o sociodrama tem sido mais utilizado no campo mais estrito da saúde mental. Começam agora a ser exploradas as suas potencialidades no âmbito da educação e da formação de professores, assim como na educação comunitária.
Margarida Belchior é professora, sociodramista e investigadora.










