Os dez anos da publicação da carta encíclica Laudato Si’ – Sobre o cuidado da Casa Comum, do Papa Francisco, forami assinalados com um encontro promovido pela Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade, no final de outubro, que agora se traduziu numa carta escrita com base nas reflexões e partilha de cerca de centena e meia de participantes que conversaram e rezaram sobre os passos que se foram dando, inspirados na Laudato Si’.
Numa síntese enviada à redação do 7MARGENS, refere-se que, apesar dos sinais preocupantes do mal-estar do planeta, hoje “já podemos saborear muitos dos frutos da encíclica”, apontando “com alegria os frutos que vêm despontando e crescendo em Portugal e no mundo a partir da publicação deste documento vivo que nos deixou o Papa Francisco e cuja importância tem sido reforçada pelo Papa Leão XIV”.
“Ainda temos muito caminho a percorrer no cuidado da Criação e no cuidado de uns pelos outros”, reconhece o texto de apresentação da carta, que “pretende assinalar o momento vivido e apelar a toda a Igreja em Portugal para reforçar o seu compromisso com a ecologia integral”.
De entre os aspetos positivos, a carta afirma “que hoje temos comunidades mais conscientes, escolas e paróquias que cuidam da Criação, movimentos que unem fé e justiça ecológica”, exemplificando com a Rede Cuidar da Casa Comum, os focos de conversão ecológica em diferentes paróquias, a Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade e a criação do capítulo português do Movimento internacional Laudato Si’”. O texto refere ainda “o lançamento recente da certificação Eco-Igrejas Portugal, que incentiva boas práticas de sustentabilidade nas comunidades de fé” e sauda “o compromisso das Igrejas Cristãs europeias na ‘Charta Oecumenica’, que identifica a crise ecológica como uma falha espiritual e ética e assume responsabilidades pelo ambiente e pelos migrantes”.
O caminho é, no entanto, longo, “dez anos após este importante documento do Magistério social da Igreja e a assinatura do Acordo de Paris”: “As alterações climáticas continuam a ser um desafio urgente, num mundo marcado pela destruição dos ecossistemas, por desigualdades, conflitos crescentes e múltiplas formas de pobreza, onde o grito da Terra se junta ao grito dos pobres. Em Portugal, enfrentamos também desafios significativos, como o envelhecimento da população, a pobreza, o abandono rural, os incêndios florestais, o desordenamento do território, a crise na habitação e na saúde e a exclusão social.”
O grupo que esteve reunido na Casa Velha, em Ourém, reafirma a urgência do “valor da proposta de uma ecologia integral, dando testemunho de uma nova relação com a Criação, a partir da experiência de que tudo é dado por Deus, tudo é frágil, e somos chamados a agir com responsabilidade, cuidado e gratuidade perante o mundo que nos foi confiado”.
Com esta urgência, perante a realidade, surge o desafio para cada um “cultivar um olhar integral, fruto de uma verdadeira conversão ecológica que, em essência, corresponde a uma conversão mais profunda ao Evangelho e a Jesus pobre e compassivo”.
Ao renovarem o “compromisso com o cuidado da Casa Comum” e ao desafiarem-se, “enquanto Igreja em Portugal, a fazer da ecologia integral um caminho espiritual, sinodal, comunitário e pastoral”, os promotores desta carta, querem “partilhar as práticas já existentes em prol de estilos de vida simples e sustentáveis, dos processos de educação e espiritualidade ecológicas, bem como das ações no espaço público que estão a germinar a nível local e global, de modo que cada prática ou projeto possa inspirar iniciativas semelhantes noutros contextos, alimentando redes e parcerias para a conversão ecológica”.
Com esta carta fica o apelo “à criação de equipas ou delegados Laudato Si’ nas dioceses e paróquias, capazes de acompanhar, articular e sistematizar experiências, promovendo diálogo, práticas e intercâmbio entre diferentes realidades, competências e saberes”, e à adesão pelas paróquias, movimentos e organizações cristãs à certificação Eco-Igrejas Portugal.
Entre outras propostas, é sugerido que “a Laudato Si’ seja incorporada em todas as dimensões da pastoral, com particular atenção às crianças e aos jovens, através da EMRC [Educação Moral Religiosa Católica], catequese, pastoral juvenil e universitária, fomentando uma consciência ecológica que brote da fé” e a “necessidade de investir na formação espiritual, pastoral e teológica sobre a Laudato Si’, dirigida a todos os que têm responsabilidades de liderança nas comunidades de fé”.










