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Na peregrinação deste ano juntaram-se dezenas de bispos, um núncio apostólico, arcebispos e cardeais, entre estes Tolentino Mendonça, enviado extraordinário do Papa, que presidiu à celebração. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Cardeal Tolentino presidiu à celebração

Com o povo, bispos e cardeais também foram à peregrinação do Sameiro

| 02/06/2024

Na missa de encerramento do 5.º Congresso Eucarístico Nacional, no Santuário do Sameiro, em Braga, o enviado do Papa e que presidiu à celebração, o cardeal Tolentino Mendonça, defendeu — recordando os 50 anos da Revolução do 25 de Abril — uma “aliança que garanta o pão do futuro para os jovens hoje cercados pela precariedade e o pão do amor para os mais velhos que não podem ser postos fora da equação social, porque já não são produtivos”. Outra aliança necessária, acrescentou o cardeal, deve assentar na “compreensão da diversidade cultural como uma barreira à coletiva maturação do bem-comum”. A reportagem do 7MARGENS acompanhou a peregrinação à Senhora do Sameiro. 

 

Na peregrinação deste ano juntaram-se dezenas de bispos, um núncio apostólico, arcebispos e cardeais, entre estes Tolentino Mendonça, enviado extraordinário do Papa, que presidiu à celebração da Eucaristia. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Na peregrinação deste ano juntaram-se dezenas de bispos, um núncio apostólico, arcebispos e cardeais, entre estes Tolentino Mendonça, enviado extraordinário do Papa, que presidiu à celebração. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Ainda a Braga do centro histórico dormia o seu sono dominical e, nas imediações da Sé, centenas de pessoas oriundas das paróquias urbanas e suburbanas, iam-se concentrando e procurando dar forma à procissão. Da galilé chegava uma revoada de palmas, na sequência da bênção aos peregrinos que o cardeal Tolentino de Mendonça, representante do Papa, acaba de dar. Às 7h em ponto, do carrilhão sai um hino mariano e a imagem da Senhora do Sameiro em seu andor começa a sair do templo. Misturam-se palmas, cântico e pétalas de flores que os devotos lançam sobre o andor. A peregrinação arranca e, poucos minutos depois, tem diante dos olhos a corda de monte que apresenta em primeiro plano o Bom Jesus e, mais longe e mais alto, a Basílica do Sameiro. São mais de sete quilómetros, em grande parte a subir.

Àquela hora matinal, com os primeiros raios de sol a baterem de frente, são escassos os mirones, ainda que algumas poucas casas tenham colocado colchas brancas ou de cor. Aqui e ali, há grupos paroquiais que se associam à peregrinação. Um ou outro turista madrugador arregala os olhos para o insólito que lhe é dado ver.

Quando se inicia a subida, já os peregrinos se contam por largos milhares, serpenteando as curvas da estrada e estendendo-se por umas boas centenas de metros. À frente de cada grupo, uma bandeira identificadora. Jovens vão-se revezando no seu transporte, este ano dificultado pelo vento por vezes forte que se faz sentir. Cada grupo tem dinâmica própria de participação. A mais frequente é a reza ou o canto do terço. Por vezes surgem vozes espontâneas a entoar hinos marianos conhecidos das gerações dos avós, alguns especificamente dedicados à Senhora do Sameiro, a que o conjunto responde, com afinação e ousando até uma segunda voz. Atrás, a fechar, segue o andor, com Maria, coroada e de manto azul, aquela que “não apareceu no Sameiro, mas está no Sameiro”, como recordou o arcebispo de Braga, José Cordeiro, citando um predecessor seu. E, vindo a talho de foice, vale a pena referir que este prelado lá vai também ele a caminhar, tal como alguns outros bispos que este ano se juntaram, e um bom grupo de padres e seminaristas. 

Quando se inicia a subida, já os peregrinos se contam por largos milhares, serpenteando as curvas da estrada e estendendo-se por umas boas centenas de metros. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Quando se inicia a subida, já os peregrinos se contam por largos milhares, serpenteando as curvas da estrada e estendendo-se por umas boas centenas de metros. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Muitos peregrinos ou porque vêm de mais longe – e este ano isso passou-se, devido ao 5.º Congresso Eucarístico Nacional (5CEN) – ou porque têm dificuldades de locomoção ou por comodidade vão diretamente para a basílica e seu recinto. São tantos ou mais do que os que chegaram a caminhar. E é lá que, três horas depois, a peregrinação desemboca e que se vibra com a chegada da Senhora, de volta a casa, acompanhando os devotos que a buscam.

Se a peregrinação a pé é primordialmente um fenómeno popular, dos devotos, a que o clero se associa, a partir do momento em que ela chega ao santuário, os protagonistas são claramente os clérigos, até porque se trata da celebração da Eucaristia. E por muito que o cardeal Tolentino (e muitos mais) ache que os leigos não deveriam “assistir” à missa, mas ter parte ativa nela, como explicou este sábado, em resposta a uma questão do 7MARGENS, estas celebrações multitudinárias são inevitavelmente o terreno cerimonial do protagonismo dos clérigos – e na peregrinação deste ano juntaram-se, devido ao 5CEN, dezenas de bispos, um núncio apostólico (‘embaixador’ do Papa), arcebispos e cardeais, entre estes o cardeal português enviado extraordinário do Papa, que presidiu à celebração da Eucaristia, Tolentino Mendonça.

Sob um sol que sem ser inclemente já mostrava o seu vigor, a multidão (que andou longe dos números propalados, mas era grande) escutou o enviado papal falar-lhe do significado do pão, que é repartido na Eucaristia, e que é “indispensável à manutenção da existência”, pelo que “a fome e as necessidades materiais do ser humano” não são indiferentes a Jesus. Mas o pão que Jesus dá é, diz Tolentino à multidão, mais do que pão, é o “dom inteiro da vida”. 

Disse a todos os que o quiseram escutar que “o horizonte da nossa humanidade não se esgota na materialidade pura” e que “o humano em nós não se realiza na exclusiva procura do ter, mas é convocado a mais: é convocado a escutar a universal vocação divina que nos atravessa”. E, prossegue ele, “sem o reconhecimento dessa vocação divina o homem [e supõe-se que também a mulher] não chega a humanizar-se; fica aquém do seu destino e não compreende, de modo cabal, a dignidade do seu ser”.

Cardeal Tolentino deixou na sua homilia deixando três “grandes chamamentos fundamentais” à Igreja em Portugal: um é ser uma Igreja samaritana, ou seja de proximidade relativamente às “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” das pessoas de hoje. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Cardeal Tolentino deixou na sua homilia deixando três “grandes chamamentos fundamentais” à Igreja em Portugal: um é ser uma Igreja samaritana, ou seja de proximidade relativamente às “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” das pessoas de hoje. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Falando especificamente sobre o 5CEN, de cuja realização a maioria dos seus ouvintes provavelmente nem sequer ouviu falar, o cardeal Tolentino disse que, “no ano em que celebramos os 50 anos da democracia portuguesa, voltamos a celebrar o congresso eucarístico para repensar o contributo da Igreja na nossa sociedade em acelerada transformação e que experimenta desafios  epocais tão grandes como, por exemplo, algumas alianças intergeracionais e interculturais a construir urgentemente no Portugal contemporâneo”. Uma dessas alianças é a que “garanta o pão do futuro para os jovens hoje cercados pela precariedade e o pão do amor para os mais velhos que não podem ser postos fora da equação social, porque já não são produtivos”. Outra aliança necessária, acrescentou o cardeal, deve assentar na “compreensão da diversidade cultural como uma barreira à coletiva maturação do bem-comum”.

Terminou a sua homilia deixando três “grandes chamamentos fundamentais” à Igreja em Portugal: ser uma Igreja eucarística, isto é, que não se coloca a si mesma como prioridade, mas a Cristo; uma Igreja samaritana, ou seja de proximidade relativamente às “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” das pessoas de hoje; e uma Igreja mariana, inspirada na figura de Maria, na sua gentileza, feita de “coração desarmado e manso”; na contemplação e dimensão mística, que responda à sede de espiritualidade; e, finalmente, beleza que, tal como o pão é alimento para o corpo, é “nutrimento para a alma”.

Senhora do Sameiro. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Senhora do Sameiro. Foto © Manuel Pinto/7MARGENS.

Os participantes na celebração deste domingo no Sameiro escutaram ainda, no final da celebração, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o bispo José Ornelas, referir-se às conclusões do 5.º Congresso Eucarístico Nacional. De entre elas, sugere-se que a Igreja deve redescobrir que a centralidade eucarística vai para além do domingo e deve manter as igrejas abertas e revalorizar a adoração eucarística; deve também reforçar a eucaristia como escola de fraternidade e sacramento de unidade; deve procurar responder à “necessidade de introduzir novas linguagens na liturgia, integrando os jovens nesse processo de renovação e adequando a espiritualidade cristã aos ambientes digitais e ao mundo secularizado”. A Igreja deve ainda “assumir a sinodalidade a partir da Eucaristia como lugar onde a Igreja se renova na comunhão, na participação e na missão”.

 

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