Combate pela dignidade humana: olhar de frente a violência doméstica

| 18 Abr 20

Os números não nos enganam. Segundo os dados que vão sendo publicados, a violência doméstica tem aumentado muito, nos últimos anos, no nosso país. Agora, com esta situação de confinamento a que todos estamos forçados, devido à pandemia de covid-19, sem sabermos ao certo quando terá o seu termo, os psiquiatras e psicólogos não se cansam de nos alertar para os múltiplos casos de violência entre casais, fruto da constante proximidade das pessoas, ao longo de tantos dias. Aumentando o desemprego, com os filhos em casas muito pequenas, com as despesas certas a manterem-se, o futuro profissional cada vez mais periclitante, estão a ser criadas as condições ideais para que a violência possa aumentar em meio familiar.

O fenómeno da violência doméstica, sobretudo do homem para com a sua companheira, não sendo novo em Portugal, apresenta novos contornos e razões. Em tempos mais recuados, a violência doméstica era praticada sobretudo devido ao excesso de álcool, consumido pelos homens nas numerosas tabernas das aldeias. A esposa e os filhos eram então as grandes vítimas do descontrolo do todo-poderoso chefe de família. Porém, este grave problema da violência, longe de ter sido ultrapassado, infelizmente, tem-se também estendido à juventude.

Pelo menos é o que nos mostra um recente inquérito feito aos adolescentes das nossas escolas secundárias. Dois terços confessaram ser normal para eles haver violência no namoro, seja sob a forma de insultos, seja de proibições ou de assédio sexual.

Por isso, não nos podemos admirar que esteja a aumentar o número dos assassínios por violência doméstica, em ambiente familiar. A algumas crianças, em vez de carinho e afeto, é-lhes oferecido um clima tão agressivo que, certamente, os irá afetar ao longo das suas vidas, embora o clima de violência na escola já não seja como noutros tempos. Agora, já não são os professores, como no Estado Novo, a serem violentos com os seus alunos, mas os agressores são os próprios colegas, com o generalizado bullying e, mais raramente, alguns alunos também agridam professores nas aulas.

Como sabemos, as imagens agressivas da internet, telemóveis ou televisão, entre outros meios, deixam certamente algumas marcas negativas nos jovens.

Se analisarmos bem, todos nós poderemos vir a ter comportamentos violentos. Basta que a ocasião se proporcione, como é o caso do confinamento atual, para que estes baixos instintos possam revelar-se, mostrando o pior que há em nós, porque todos somos humanos.

Face a este complexo problema da violência social ou doméstica, recheado de muitas e complexas variáveis, o Estado não pode olhar para o lado e terá que implementar políticas urgentes e eficazes, conducentes a tentar, o máximo possível, que a violência seja banida da nossa sociedade, nomeadamente, através da educação das crianças nas escolas, punindo exemplarmente os faltosos.

Como é fácil de prever, os tempos que aí vêm poderão potenciar a violência doméstica nas famílias, porque onde não há pão, lá diz o ditado, todos ralham…. Não podendo fechar os olhos a esta realidade, temos que lutar contra a violência, com medidas adequadas e eficazes, de inclusão social e tolerância mútua. Ser fraternos e solidários, como temos mostrado nos últimos dias do nosso já longo e doloroso confinamento. Estes dias difíceis para todos devem ser sobretudo momentos de um grande humanismo, porque todos nos sentimos frágeis e responsáveis uns dos outros, porque estamos todos no mesmo barco. Cuidemo-nos. De mãos dadas, fraternalmente, iremos certamente vencer este longo e difícil desafio.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

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