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Combater bem o mal

“A descoberta de que alguns preferiram proteger a imagem, em prejuízo das vítimas, provocou um duro golpe no sacerdócio ministerial que carece, a bem da Igreja, de rápida resolução.” Gravura: JLEG21 / Wikimedia Commons

 

Os tempos que se vivem na Igreja Católica suscitam especial dor a todas as pessoas, sejam ou não crentes, provocando revolta em muitos contra um aparentemente imobilismo na resposta a uma crise que já se prolonga por demasiado tempo.

A Igreja, enquanto realidade operante no mundo, não ficou imune a este fenómeno transversal à humanidade que é o abuso sexual de menores. Podemos dizer que, infelizmente, desde que há seres humanos com vida sexual, existem abusos, perversidade, aproveitamento dos mais frágeis, em particular dos menores. Na verdade, a pedofilia e o abuso sexual de menores invadiram a Igreja não só no grupo dos clérigos e religiosos, mas também nas famílias católicas, perpetrado por leigos batizados, membros de pleno direito da Igreja. Combater a pedofilia pressupõe a capacidade de olhar o fenómeno na sua transversalidade e, sobretudo, significado.

A crise que vivemos agora, importa notar, deriva em grande medida não só da descoberta do abuso sexual de menores por quem deveria ser exemplo para os demais, mas também do encobrimento repetido dos crimes em questão, por bispos, padres, religiosos e leigos com especiais funções eclesiais. A crise é, sobretudo, de confiança. O fenómeno não é novo – visto que desde o pós-guerras de religião e do cientificismo do início do século XIX, as religiões parecem ter perdido credibilidade enquanto fonte de verdade e de saber –, mas a descoberta de que alguns preferiram proteger a imagem, em prejuízo das vítimas, provocou um duro golpe no sacerdócio ministerial que carece, a bem da Igreja, de rápida resolução.

Combater este mal, vergonhosamente antigo, exige escolher os métodos mais eficazes, sem ceder a vagas justiceiras ou populistas. A Igreja Católica tem o dever de ser exemplar na reação à crise dos abusos sexuais, particularmente na prevenção. Em Portugal, a Conferência Episcopal determinou a constituição de uma comissão para a investigação dos casos de abusos sexuais, procurando recuperar a verdade histórica sobre a matéria. É o primeiro passo: na sequência do Jubileu 2000, ficou claro que a reconciliação começa com a “purificação da memória”, assumindo o passado.

Ainda assim, o sucesso desta comissão dependerá, quase na totalidade, dos seus membros. A escolha das pessoas que comporão a comissão é uma tarefa difícil, mas essencial, que não pode ser feita à pressa. Alguma comunicação social, talvez habituada à reação dos órgãos políticos a qualquer escândalo, esperava que no dia seguinte ao anúncio houvesse já uma comissão constituída. Não pode ser assim! Se me é permitido, julgo que esta comissão deverá conter profissionais reconhecidos na área da psicologia (também forense), psiquiatria, direito, sociologia e comunicação, sendo de todo recomendável que possa ter profissionais de ligação aos órgãos de polícia criminal e Ministério Público, assegurando a rápida resposta aos abusos ainda passíveis de acusação. Em todo o caso, a participação de clérigos deve ser reduzida ao essencial (desde logo o próprio apoio espiritual aos membros da comissão).

É essencial que esta comissão possa apresentar elementos claros e cientificamente trabalhados, através de um relatório circunstanciado, quanto aos abusos sexuais da responsabilidade de clérigos e religiosos em Portugal, evitando a divulgação de números infundados ou suspeitos. Não pode acontecer aqui o que está a acontecer com o relatório Sauvé, onde a dúvida sobre a veracidade dos números continua a pairar, (uma estimativa de 216 mil casos, após 243 entrevistas, 2700 cartas e 28 mil chamadas anónimas, ou seja, 30943 casos, com uma margem de erro de 50 mil casos) ao invés de nos concentrarmos no essencial: apoiar as vítimas, identificar os agressores.

E depois do relatório? A vida depois do relatório não pode circunscrever-se a pagar indemnizações (que são devidas) e publicar nomes. É preciso um grupo de trabalho especializado que determine ações concretas para a Igreja na recuperação das vítimas, psíquica, profissional e espiritualmente; no campo da formação sacerdotal e religiosa; na educação sexual de jovens e adolescentes (continua a faltar um plano de educação sexual católica com profissionais de saúde, professores e catequistas com formação especializada); no acompanhamento de casais na preparação da vida conjugal (como podem os pais prevenir o desenvolvimento de futuros abusadores?).

Particularmente, importa a Igreja socorrer-se das comunidades científicas na área da psicologia e da psiquiatria de modo a assegurar que os dados recolhidos contribuem para um melhor conhecimento do que é a pedofilia, dos mecanismos de diagnóstico antecipado que ajudem a prevenir os abusos sexuais nas comunidades, escolas, grupos católicos, catequese, etc.

Por fim, não esquecer o tema que ninguém quer tocar agora: a missão da Igreja é salvar almas e não aplicar penas civis. Há que definir mecanismos de recuperação clínica e espiritual dos agressores. É preciso que a comunidade, diante dos atos de um dos seus membros – que nunca deixa de o ser – busque tudo, por qualquer forma eticamente admissível, quer por ação ou omissão, física, psíquica e/ou espiritual, para reconstrução do outro, que o prepare para se reintroduzir na comunidade que o espera, porque o considera seu. Quando é que tal está concretizado e esgotado não sabemos, mas temos a plena convicção que a Justiça, como a misericórdia em ato, exige a busca de todos os modos possíveis de revelar o humano que em cada um existe.

 

Carlos Moreira Antunes é catequista no Patriarcado de Lisboa e jurista.

 

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