Dia de Naw-Ruz

Começa o Ano Novo para os bahá’is, mas muitos estão impedidos de celebrar

| 20 Mar 2024

Jardins do Báb, iluminados ao final do dia, Haifa (Israel). Foto Руслан Кальницкий Pexels

Jardins Bahá’i iluminados ao entardecer, em Haifa (Israel). Foto © Руслан Кальницкий/Pexels

 

“Feliz Ano Novo!” foi uma das frases mais proferidas nesta quarta-feira, 20 de março, no nosso planeta. Não, não é engano, nem brincadeira: é que este é o dia de Naw-Ruz (ou Nowruz), expressão persa que significa “novo dia”. Começou a ser celebrado há mais de três mil anos pelo Zoroastrismo – religião monoteísta com origem na antiga Pérsia (atual Irão) – e ainda hoje é assinalado por mais de 300 milhões de pessoas no Médio Oriente, Ásia Central e não só. Para a comunidade Bahá’i em todo o mundo, trata-se do dia sagrado que assinala o início de cada novo ano. É a festividade mais importante de todas, apesar de muitos não poderem celebrá-la como gostariam.

“Nestes tempos de grandes desafios, o Naw-Ruz promove o diálogo, a boa vizinhança e a reconciliação”, sublinhou António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, citado na conta da ONU na rede X. De resto, a data está inscrita desde 2009 na Lista Representativa da UNESCO para o Património Cultural Imaterial da Humanidade. A partir de 2012, a ONU passou a assinalar também nesta data o Dia Internacional da Felicidade.

 

E é, de facto, um dia feliz para a maioria dos bahá’is. “Como a maioria dos dias santos felizes, a celebração do Ano Novo Bahá’í geralmente inclui cânticos, comida, dança e socialização. Nas comunidades bahá’ís, reúne-se um grupo caloroso, diversificado e fascinante de pessoas para celebrar, divertir-se, desfrutar da companhia uns dos outros, e acolher com alegria as possibilidades emocionantes e ilimitadas de um novo ano. Se visitar hoje a sua comunidade bahá’í local, é provável que encontre uma festa”, pode ler-se num artigo publicado esta quarta-feira no blogue Povo de Bahá.

De acordo com esta religião monoteísta fundada por Bahá’u’lláh – um nobre persa que viveu no século XIX -– o Naw-Ruz coincide com o equinócio da Primavera, quando o Sol ilumina igualmente todo o planeta. Este é, para os bahá’is, “o Dia de Deus”, aquele em que começa também “uma primavera espiritual”. “Assim, o Naw-Ruz, um dos dias mais felizes de todo o ano Bahá’í, celebra não apenas o Ano Novo, mas uma era inteiramente nova na evolução humana. Temos agora a capacidade, o poder e a orientação espiritual – prometem-nos os ensinamentos Bahá’ís – para unir a humanidade e acabar com os flagelos da guerra, da fome e da miséria”, explica o mesmo artigo.

Precedido por um jejum de 19 dias – durante o qual os bahá’ís devem meditar sobre o ano que passou e esforçar-se por melhorar virtudes como a paciência, o desprendimento e a firmeza – o Naw-Ruz “é uma ocasião perfeita para contemplar como podemos lutar, dia após dia, para crescer espiritualmente, servir a humanidade e esforçar-nos por melhorar o mundo”, conclui Sanaz Khosravi – que cresceu numa família bahá’í em Shiraz, no Irão – num outro artigo partilhado no mesmo blogue.

 

Relator especial no Irão “extremamente chocado” com perseguição aos bahá’is

Mapa mundo, Irão. Foto Lara Jameson Pexels

No Irão, tem havido uma perseguição contínua e persistente de membros da comunidade bahá’í ao longo dos últimos 40 anos. Foto © Lara Jameson/Pexels

 

Não há dúvidas de que o mundo precisa, efetivamente, de ser melhorado, e que o digam os bahá’is que vivem no Irão. O relator especial das Nações Unidas para os direitos humanos naquele país destacou esta terça-feira, 19 de março, no Conselho dos Direitos Humanos em Genebra, a perseguição “extrema” que a comunidade bahá’í tem sofrido.

Ao entregar o seu relatório final, Javaid Rehman partilhou com os membros do Conselho: “Estou extremamente angustiado e chocado com a perseguição contínua e persistente, as detenções arbitrárias e o assédio de membros da comunidade bahá’í” no Irão. E sublinhou que estes continuam a não ser reconhecidos pela constituição da República Islâmica.

“Durante mais de quatro décadas, os membros da fé bahá’í, enquanto maior minoria religiosa não-muçulmana e constitucionalmente não reconhecida, têm sofrido as formas mais flagrantes de violações dos direitos humanos, incluindo execuções, perseguições, privação de direitos de propriedade, profanação e destruição de cemitérios, violência e detenções arbitrárias, negação de direitos educativos, encerramento de empresas, propaganda de ódio e injustiças sociais, e desigualdades em todos os domínios da vida pública e privada”, acrescentou Rehman.

Na sua intervenção perante o Conselho, o relator referiu especificamente a recente demolição e profanação de mais de 30 sepulturas de bahá’ís iranianos numa vala comum em Teerão. A Comunidade Internacional Bahá’í (BIC, na sigla inglesa) havia relatado as destruições no início deste mês, descrevendo-as como “sem precedentes e desumanas” e denunciando a tentativa do Governo iraniano de “limpar” a memória dos bahá’ís falecidos da sociedade.

Referindo-se ao mesmo incidente, Simin Fahandej, representante da BIC nas Nações Unidas em Genebra, sublinhou por seu lado: “Eram seres humanos, cada um com uma história vivida de tremendo sofrimento e perseguição pela sua fé… Entre eles, estava uma mulher idosa cujo marido foi executado por ser bahá’í, os seus filhos foram banidos das universidades, também pela sua fé, e depois, ambos foram presos durante anos.”

Fahandej deixou duas questões para o Governo iraniano: “Que ameaças os mortos representam para a sociedade? Como justificar estes atos, em consciência, sabendo que mesmo na morte os bahá’ís não são deixados em paz, impondo-lhes brutalidade mesmo na sua dor?” E concluiu: “Não existe nenhuma norma religiosa ou cultural que apoie este tipo de crueldade.”

“Os bahá’ís e todos os iranianos buscam direitos iguais”

O relatório apresentado recorda ainda os “pelo menos 70 bahá’ís” que estão detidos ou a cumprir penas de prisão, e outros 1.200 que enfrentam processos judiciais ou “severas e longas sentenças de prisão”, assinalando também que as casas de quase 100 famílias bahá’ís foram revistadas e saqueadas desde outubro de 2023, tendo as autoridades iranianas apreendido dinheiro, cartões bancários, jóias, escrituras de propriedade, documentos de identidade e passaportes, dispositivos eletrónicos e livros sagrados. [ver 7MARGENS]

O documento apresentado nas vésperas do Naw-Ruz foi o último preparado por Javaid Rehman, após seis anos como relator especial sobre a situação dos direitos humanos na República Islâmica do Irão. “Estou esperançoso de que o mandato [do relator especial] continue a ser a voz de milhões de iranianos”, disse ele ao Conselho, reiterando que são ainda muitos os iranianos “vitimados e abusados, e cujos direitos fundamentais são violados persistentemente e com impunidade”.

“Fazemos eco das suas esperanças de um futuro Irão que já não precise de um relator especial para os direitos humanos da ONU e que o seu Governo reconheça e defenda os direitos de todos”, concluiu a representante da Comunidade Internacional Bahá’í, agradecendo a Rehman “pelos seus esforços incansáveis ​​pela comunidade bahá’í e pelos seus repetidos apelos ao Governo iraniano para acabar com a perseguição. Os bahá’ís e, na verdade, todos os iranianos buscam direitos iguais”, sublinhou.

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