De Lisboa ao Médio Oriente

Começou o Ramadão: tempo de jejum, solidariedade, alegria… e tensões

| 23 Mar 2023

Começou, para os muçulmanos em todo o mundo, o mês sagrado do Ramadão. Desde esta quinta-feira, 23 de março, até 21 de abril, cumprirão 30 dias de jejum, não podendo comer ou beber entre o nascer e o por do sol. O principal objetivo? Aproximarem-se de Deus e dos que mais sofrem. Mas o que é exatamente o Ramadão? Porque se celebra agora? Resume-se ao jejum? Todos são obrigados a praticá-lo? E como está a ser vivido em diferentes lugares, de Lisboa ao Médio Oriente? Aqui ficam algumas pistas para compreender melhor esta época sagrada do calendário islâmico.

lanterna alusiva ao Ramadão, foto Baramyou0708

Após dois anos marcados pela pandemia da covid-19, a Mesquita Central de Lisboa prepara-se este ano para receber “centenas de pessoas” diariamente para quebrarem o jejum, depois da oração do pôr-do-sol. Foto © Baramyou0708

 

Para os muçulmanos, estamos no ano de 1444 (que começou a 30 de julho de 2022 e terminará a 18 de julho de 2023). Terá sido no nono mês do calendário islâmico, o mês do Ramadão, que o anjo Gabriel revelou o livro sagrado do Corão ao profeta Maomé. No entanto, o período do Ramadão, que assinala esse importante acontecimento, não acontece exatamente nas mesmas datas todos os anos. É que o calendário islâmico rege-se de acordo com as fases da lua, e o Ramadão só se inicia quando a lua entra em fase crescente. Isto significa que pode até variar ligeiramente de acordo com o local onde os fiéis se encontram, mas geralmente é tomada como referência a noite em que a lua crescente fica visível no céu de Meca (cidade mais sagrada do Islão, na Arábia Saudita). Foi o que aconteceu na noite desta quarta-feira, 22, pelo que o primeiro dia de jejum para os muçulmanos é esta quinta-feira.

Sendo o ano lunar mais curto do que o ano solar, a cada ano a data do Ramadão aproxima-se do início do ano em 10 ou 11 dias. Assim, em 2030, o Ramadão será celebrado duas vezes: no início do ano (por volta de 5 de Janeiro) e no final (por volta do dia 25 de dezembro).

Tal como acontece em outras tradições religiosas, o jejum, que é um dos cinco pilares do Islão, é encarado como uma forma de purificação física e espiritual. Por isso, além de se absterem de comer e beber desde que o dia amanhece até ao anoitecer (algo que, de acordo com sondagens, é cumprido por entre 70% a 80% dos muçulmanos), os praticantes da religião islâmica devem também evitar atitudes maldosas, procurar rezar mais e praticar a caridade.

Estão dispensados do dever de jejum físico as crianças, idosos, pessoas diabéticas ou que sofram de outras doenças, mulheres grávidas ou a amamentar e ainda aqueles que estejam a percorrer grandes distâncias. Podem também incluir-se neste grupo os atletas de competição a participar em provas.

Este ano, pela primeira vez, as autoridades do futebol inglês recomendaram aos árbitros que durante o mês do Ramadão concedam paragens nas partidas que se realizem ao final do dia para que os jogadores, ou elementos da equipa de arbitragem, possam quebrar o jejum e alimentar-se. Até agora, os clubes combinavam diretamente com os árbitros momentos para os jogadores poderem fazê-lo, com líquidos ou géis energéticos, mas desta vez foi mesmo feita uma recomendação geral que deverá ser aplicada em todos os jogos da Premier League.

 

Mesquita de Lisboa solidária e Londres iluminada

“Cada caso é um caso”, afirma o imã da Mesquita Central de Lisboa, xeque David Munir, em declarações a Lusa, citadas no Expresso. Para o líder religioso, o jejum é sobretudo “valorizar aquilo que nós temos e sentir na pele aquilo que os outros não têm”.

“Nem todos, infelizmente, têm condições de terem uma refeição em casa”, observa o xeque Munir, acrescentado que, tal como já vem sendo habitual, neste Ramadão serão facultados, na Mesquita de Lisboa, cabazes aos mais carenciados.

Após dois anos marcados pela pandemia da covid-19, a Mesquita Central de Lisboa prepara-se este ano para receber “centenas de pessoas” diariamente para quebrarem o jejum, depois da oração do pôr-do-sol.

“A expectativa é de haver um aumento [de crentes que irão à Mesquita], comparando com os anos anteriores”, sublinha David Munir, não apenas devido à ausência de restrições sanitárias, mas também porque o número de muçulmanos está a aumentar no país devido à imigração, situando-se atualmente entre os 60 mil e os 65 mil.

Já em Londres, onde o número de muçulmanos chega a 1,3 milhões, o Ramadão é assinalado pela primeira vez com iluminação pública, à semelhança do que acontece no Natal. As 30 mil luzes, em forma de luas, estrelas e lanternas, foram acesas pelo presidente da câmara, Sadiq Khan (ele próprio muçulmano), e decoram uma das mais movimentadas artérias da cidade: a Coventry Street, que liga Leicester Square a Piccadilly.

Para que não restem dúvidas sobre o motivo desta impactante decoração, a artista responsável pelo projeto, Aisha Desai, também ela londrina e muçulmana, incluiu, ao centro, a mensagem “Happy Ramadan” (“Feliz Ramadão”). Até porque, sublinha em declarações à BBC, o principal objetivo desta iniciativa é “aumentar a consciencialização de que este é um mês muito importante para os muçulmanos”.

Sadiq Khan destaca por seu lado que “Londres é a primeira grande cidade na Europa a acolher uma espetacular exibição de luzes para assinalar o Ramadão. É um verdadeiro símbolo de como a nossa capital celebra a nossa diversidade”.

 

Tensão no Médio Oriente e apelos à paz

Na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, milhares de pessoas aplaudiram igualmente a iluminação de uma lanterna gigante para marcar o início do Ramadão. Mas nesta região a alegria mistura-se com o medo, devido à intensificação do conflito israelo-palestiniano, que já fez pelo menos 100 mortos desde o início do ano.

De resto, neste primeiro dia do Ramadão, foi já registada a morte de um palestiniano, assassinado a tiro por tropas israelitas na cidade de Tulkarem, no noroeste da Cisjordânia ocupada.

A ONU fez um apelo a todos os líderes políticos para que se abstenham de ações provocatórias nesta altura particularmente sensível. “Este é um momento de reflexão e aprendizagem. Um tempo para nos unirmos num espírito de compreensão e compaixão, ligados pela nossa humanidade comum”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, numa mensagem em vídeo divulgada esta quarta-feira, que pode ser vista abaixo. “Nestes tempos desafiantes, os meus pensamentos estão com aqueles que enfrentam o conflito, deslocamento e sofrimento. Uno-me a todos os que observam o Ramadão para pedir a paz, respeito mútuo e solidariedade”, acrescentou.

 

Também o Presidente norte-americano, Joe Biden, publicou esta quarta-feira uma mensagem a propósito do início do Ramadão, assegurando que os EUA se mantêm “com solidariedade ao lado dos muçulmanos que continuam a enfrentar a opressão, como os uigures na China, os rohingyas na Birmânia e outras populações muçulmanas perseguidas no mundo”.

A referência aos uigures, que de acordo com o governo norte-americano estão a ser vítimas de genocídio por parte das autoridades comunistas chinesas, surge num momento de elevada tensão entre Washington e Beijing.

“Durante este período sagrado de reflexão, os EUA reafirmam igualmente o seu apoio às comunidades muçulmanas confrontadas com problemas e devastação”, acrescenta Biden, mencionando as vítimas do sismo de fevereiro na Turquia e Síria e as das inundações em 2021 no Paquistão.

“Durante este mês sagrado, também homenageamos as comunidades muçulmanas em todo o país que fazem parte da história americana desde a nossa fundação”, assinala ainda Biden, para depois concluir: “Aos meus compatriotas americanos que observam o Ramadão e aos muçulmanos em todo o mundo: Ramadan Kareem“.  O mesmo é dizer: “tenham um Ramadão generoso”.

Ao Ramadão seguir-se-á, entre os dias 21 e 22 de abril, o Eid al-Fitr, ou “celebração do fim do jejum”: um dia de festa, que nos países de maioria islâmica é normalmente considerado feriado, para que os muçulmanos possam reunir-se com as suas famílias, apreciar iguarias tradicionais, trocam presentes e vão rezar às mesquitas ou, nalgumas cidades, a grandes espaços públicos preparados para o efeito. A data precisa desta celebração, mais um vez, está dependente da lua. Manda a tradição que o Ramadão termine depois do avistamento da lua nova.

 

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