Comentário 7M: A boa notícia ou a má notícia?

| 2 Set 19 | Cristianismo - Homepage, Destaque 2, Igreja Católica, Últimas

Com a nomeação de Tolentino Mendonça para o Colégio Cardinalício, passa a haver três cardeais portugueses que podem votar num conclave para eleger um novo Papa: além do bibliotecário do Vaticano, são eleitores o patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e o bispo de Leiria-Fátima, António Marto.

Quer dizer que, de repente, o catolicismo português passou a ter muita importância no Vaticano? Não, de todo. Os cardeais nomeados – nomeadamente por Francisco – são-no a título pessoal e para serem seus conselheiros e não para “representarem” uma conferência episcopal ou uma realidade católica. No caso presente, o arcebispo Tolentino chegou ao cargo de bibliotecário do Vaticano (e agora a cardeal) porque o Papa percebeu o seu valor há ano e meio.

Com o patriarca de Lisboa, pode ter pesado também a razão histórica: “manda” a tradição que o patriarca de Lisboa passa normalmente a cardeal. António Marto, bispo de Leiria, que foi surpreendido pelo anúncio da decisão do Papa quando se preparava para celebrar uma missa, foi escolhido depois da visita do Papa a Fátima – o que não pode deixar de ser visto também como uma razão a pesar na decisão.

Há outro motivo que nega qualquer importância “patriótica” do catolicismo português actual no Vaticano: a nomeação, quinta-feira passada, do novo núncio apostólico (embaixador) da Santa Sé em Lisboa, cuja escolha recaiu nada mais nada menos que no até agora representante pontifício no Chile, Ivo Scapolo.

O núncio que virá para Portugal sai do Chile com uma grande lista de questões por esclarecer, no que à grave crise dos abusos sexuais do clero católico diz respeito. Terá sido ele a omitir informação importante ao Papa, já que era a ele que competia dizer o que se passava. Isso levou Francisco a reconhecer os “graves erros de avaliação e percepção da situação, em particular pela falta de informações verdadeiras e equilibradas.”

Mas Scapolo já antes insistira em impor o nome de um bispo – Juan Barros – que muitas vítimas acusavam de ter encoberto o padre Karadima, entretanto condenado pela justiça civil e irradiado do ministério de padre.

Vítimas de abusos e destacadas personalidades católicas chilenas falam do núncio como encobridor e “nefasto”, caracterizam o seu rasto no Chile como “pobre” e “lamentável” e avisam os católicos portugueses contra este “demónio” e “malfeitor”. Exageram? Os títulos da imprensa católica chinela eram claros: “até que enfim” (que vai embora), o Chile “liberta-se de uma pessoa macabra”, “vítimas celebram saída”…

O núncio que saiu de Lisboa era mal-querido por vários bispos (que só falavam disso à boca pequena ou em declarações anónimas. Mas se muitos católicos (desde logo, padres e bispos) pensavam que a sua saída era uma boa notícia, enganaram-se redondamente. Vem aí pior, muito pior. E a má notícia fica completa com outro elemento: é que, mais uma vez, os bispos portugueses não reagirão, junto do Vaticano, a uma tal nomeação.

(Texto publicado inicialmente na edição do Público de segunda-feira, 2 de Setembro)

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