As transformações situam-se no centro do estudo da cultura popular.
Stuart Hall.
Subjectividade e fraternidade, à guisa de uma introdução
O livro intitulado Clube dos Entas: 50 anos da música ligeira de Moçambique, tem origem no programa radiofónico Clube dos Entas, sobretudo a parte que diz respeito à música ligeira moçambicana. Não se trata de uma transcrição daquele programa, uma vez que agrega material inédito.

Luis Loforte falando sobre o livro. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
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No livro, de 193 páginas e 21 capítulos, Loforte homenagea músicos moçambicanos, da música ligeira; incluindo uma nova geração, representados por Zé Pires. Samuel Dabula e Matânia Odete Dabula, são uma grande referência, por terem sido quem disseminou esse tipo de música. A obra invoca ainda Edmundo Galiza Matos, criador e co-produtor do programa. Mais ainda, sendo proto-cultura nacional, em várias vertentes cultural e artística, o livro inclui o poeta José Craveirinha.
A importância de Craveirinha nesse desiderato também é revelada por Rui Laranjeira, no livro A Marrabenta: sua evolução e estilização, 1950–2002 de 2014, que cita Rachide (Armando da Conceição), a afirmar: “O Senhor Craveirinha convida-nos a fazer parte da AA [Associação Africana] e insiste connosco para que toquemos ritmos moçambicanos.” Um pormenor importante é o de que esta obra de Rui Laranjeira dialoga com e complementa o presente livro de Loforte.
Loforte fala-nos da música, imbuída no seu contexto cultural. Fala-nos do seu percurso, do contexto e dos significados que ela tem, sem descurar explicações relativas aos instrumentos utilizados para a produzir e veicular; sem negligenciar, também, o facto de que a cultura pode ser explicada, mas não traduzida. Traduzir seria trair alguma essência.
Além disso, regista o seu conhecimento, marcado por essa trajectória de saber escutar. O livro sugere, ao longo de várias páginas, o quão importante é aprender a escutar; até porque, como nos ensina uma célebre frase de Jimi Hendrix: knowledge speaks, but wisdom listens (ou seja, o conhecimento fala, mas a sabedoria escuta). Diz-nos o autor: “A música que me entra de pequenininho é sul-africana, há bem mais de seis décadas. Evolui, vai evoluindo, é certo, mas quando a escuto, qualquer que seja o seu estágio evolutivo, consigo sempre identificar, lá no fundo, as suas raízes.”
Há uma dedicatória a Matos, irmão de Loforte, um radialista nato, falecido em Junho de 2021. Para além do programa Clube dos Entas, Matos trabalhou no programa Zilizopendwa [1], designação suaíli, que significa, em português, “o mais apreciado”, e que era uma recriação do Clube dos Entas. Fez passar, naquele programa, boletins informativos, reportagens relativas ao que ocorria ao redor dos projectos de gás, em Cabo Delgado, com recurso à voz dos residentes locais e sobretudo programas culturais com música, contos e poesia nativa, em quimuâni, makwé, suaíli e maconde, com tradução para o português; essa informação ainda existe e parte dela está a ser trabalhada por Loforte no seu novo livro intitulado Judeus Tatuados.
Loforte explica-nos que, com a criação da Rádio Moçambique, em Outubro de 1975, a música ligeira moçambicana ganha espaço por direito; daí esta obra constituir-se, também, como celebração dos 50 anos de Moçambique.
“Clube dos Entas”: conceito e origem

Cantora Onésia Muholove. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
Loforte situa-nos no contexto do que antecedeu o programa Clube dos Entas. Revela-nos o celeiro das músicas nele passadas; daí remeter-nos ao programa Hora Nativa, iniciado em 1959, e sucedido pelo programa Voz de Moçambique, em 1962; ambos foram para o ar com diferentes vozes, incluindo as de Matânia e Samuel Dabula (filha e pai).
A abertura do Hora Nativa consistia numa rubrica designada de A Tingoma ta Portugal, ou seja, “As canções de Portugal”, na qual eram tocadas músicas de origem portuguesa, o que era estranho aos locutores nativos, que o transmitiam em changane e no ronga. Sendo incoerente com o seu nome, e para parecer “politicamente correcto”, por instruções da chefia, foi imperioso, segundo Loforte, integrar música ligeira de autóctones.
Isso impulsionou Samuel Dabula, responsável pelo programa, a selecionar discos de intérpretes moçambicanos, gravados na África do Sul, para passar na rádio. Para além dessas músicas, eram também tocadas a sungura, do Quénia e Tanzânia, e o rumba, do Congo. Mais tarde, passou a tocar-se a marrabenta.
O Clube dos Entas iniciou-se por volta do ano 2000. Segundo Loforte, o programa tinha um genérico de abertura e de fecho com acordes rock, do tema Who Knows, de Jimi Hendrix. Esta música sugere desejo de liberdade, num contexto de incerteza. O programa começou por passar música ligeira internacional, especialmente o rock and roll, dos anos entre 1940 e 1980. A escolha de passar música internacional foi consciente, para que com ela os nossos músicos pudessem conviver. Não viver em casulo é também sinal de liberdade; portanto, o genérico era uma escolha acertada, embora difícil de ser “politicamente bem aceite”, na época em que o programa foi para o ar.
Cônscio também estava Matos, sobre a necessidade de dar um cunho de cultura local ao programa; daí que, em 2010, aquele passou a ter uma dupla produção: a do seu criador, que dava voz a textos produzidos por Loforte a seu convite, a quem coube introduzir a vertente de música nacional, neste programa, que foi galordoado “melhor programa de rádio”. Colaboraram com ele realizadores como José Zacarias Amone e Estevão Mucavel Jr., que sucederam a Nassurdine Adamo, após a sua morte. O programa deixou de ser emitido em 2016.
Música ligeira e cultura popular

Alguns dos assistentes durante a apresentação do livro. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
Neste livro encontramos uma vasta informação acerca da música ligeira moçambicana, descrita a partir da transcrição do programa Entas – no qual vários músicos foram entrevistados acerca do seu trabalho e da música moçambicana – do seu tempo; mais os depoimentos e entrevistas a outros músicos que consubstanciam as conversas realizadas no Entas. Há informação biográfica dos intérpretes antologiados, bem como a transcrição e a tradução das letras de algumas dessas músicas. A tradução linguística mantém o modo de falar português de cada músico. O autor do livro respeitou a originalidade de cada “falar”. Há ainda sugestões sobre que outras músicas poderemos escutar, no contexto daquele programa. O autor afirma que não foi possível fazer constar, nesta obra, material referente a todos os intervenientes naquele clube.
Loforte começa, então, por esclarecer o conceito de música ligeira, com o intuito de situar o leitor no âmbito do que vai ler. É importante afirmar que, antes de se tornar música ligeira, esse fenómeno ocorre na cultura popular – na qual a canção não está dissociada da dança, com letras simples e com ritmos transmitidos por instrumentos artesanais – feita para a compreensão de massas.
A cultura popular tem o condão de condessar conhecimento, dando significado a símbolos e eventos ligados a costumes, tradições, crenças (história, identidade e folclore de um povo). Pode ser transmitida a partir de lendas, mitos, adágios, provérbios, performance – canção e dança. No caso da canção neste livro, vindo desse contexto, passou a ser música ligeira, dada a introdução de mais instrumentos para a sua sonorização.
Entretanto, do conjunto de músicas seleccionadas por Loforte, pude constatar que a referida leveza das letras das canções carece de uma chave que a explique. São músicas simples, mas não há como usufruir do significado de algumas, se não forem traduzidas e contextualizadas. Mais do que traduzidas e contextualizadas, para consumidores de uma cultura diferente daquela em que são originadas deve haver uma explicação, porque se trata de canções carregadas de símbolos e de metáforas; daí eu achar pertinente o esclarecimento de Loforte, quando afirma que “comer a limão com casca dele” é usufruir do âmago da questão.
Sugerida pela ideia de ir ao “âmago da questão”, pesquisei no YouTube a música de Armando Mabjaia, intitulada Xiquelekedana, para apreender o sentido da expressão “comer a limão com casca dele”, nela inserida. Confesso que mesmo sendo falante de ronga e de changane (línguas inteligíveis), não pude captar o significado da expressão.
Recorri a diferentes informantes. Os da cultura gitonga explicaram-me que “vender limão”, significa prostituir-se. E os rongas e changanas, disseram-me que “comer limão com casca dele” é “consumir o pacote todo e deliciar-se na íntegra do que se come, seja o que for: fruta, comida ou sexo”. Para mim, isto seria ir ao “âmago” referido por Loforte. Mas claramente que não se chega a essa explicação pela tradução da letra da canção ou dessa expressão, em particular. E mais, a própria música sugere que a expressão é mencionada de modos diferentes, dependendo do contexto.
“Clube dos Entas”? Porque registá-lo além dos acervos discográficos?
… para guardar memórias, fazer arquivos, celebrar a cultura e homenagear os seus percursores. Além disso, dá prazer a quem faz o registo e aos entrevistados, porque, na maior parte das vezes, participar de momentos desses é fazer História, é reavivar a memória. É, no fundo, registar a história da música ligeira em Moçambique e não só, criar outro tipo de acervos culturais e literários. Eis alguns aspectos relevantes, nesse mister.
O papel da mulher na sociedade e na música

Onésia Muholove. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
Descurar o trabalho de Dabula e de Matânia no âmbito da abordagem e da promoção da música ligeira moçambicana, seria omitir o que, de facto, é uma base desta obra.
Loforte informa-nos que se sabe mais acerca de Dabula, a partir do seu trabalho em associativismo e promoção da música e da cultura. A par dessa informação, Matânia, quando entrevistada por Matos, referiu-se ao papel preponderante de seu pai na gravação da música moçambicana, para ser passada na rádio. Segundo ela, o facto deu-se em função da carência de discos dos intérpretes dessa música.
Matânia conta-nos ainda que Dabula fez uma “chamada” para que os seus intérpretes fossem realizar gravações na Rádio Moçambique, onde compareceram alguns músicos, e ela menciona quais. De destacar que, para serem passadas na rádio, algumas dessas músicas eram “controladas”, dado o contexto político-social, em 1962; ela rejeita o uso do termo censura, mas sabe-se que o Estado Colonial Português controlava a rádio, bem como os lugares onde a arte se fazia.
Percebe-se, através do livro, o cuidado que Dabula e Matânia tinham em serem politicante correctos, à altura do momento político-social, e que o seu trabalho foi importante para a afirmação da nossa identidade musical. Constato que ambos, mesmo num contexto no qual os assuntos da metrópole se sobrepunham aos da cultura local, as suas acções tiveram um forte impacto na promoção dessa cultura, a julgar pelo que se diz que realizavam no Tsindza.
A entrevistada recorda-nos, também, a difícil inserção da mulher na arte e na música; em particular, ser cantora, naquela altura, era estar sujeita a conotações negativas [2], como nos faz saber Loforte. Entretanto, Matânia foi estimulada pelo pai a interpretar algumas músicas que eram cantadas por Eusébio Johane Tamele (Zeburane). Lendo acerca desses depoimentos, à distância dos acontecimentos, aprendo, através deste livro, que, afinal, num contexto patriarcal como o nosso, havia quem pensava diferente, e estas atitudes carecem de um reforço que as faça ressoar [3].
Cantar as suas tristezas
Ainda no âmbito da defesa e da valorização da mulher, destaco a figura de Zeburane, o cantor que, segundo depoimento de José Mucavel, dá-lhe voz, cantando as suas tristezas. Tratava-se de um crítico social, tal como o afirmaram Matânia e Joaquim Chissano. Este último recorda que as mulheres cantavam em trabalho e, nesse âmbito, criticavam o comportamento dos seus maridos, das suas sogras e dos cunhados; pelo que seria importante aferir o significado cultural dessas músicas.
Chissano e Loforte lamentam o facto de Zeburane ter falecido sem que um estudo sobre as letras das suas canções acontecesse, até porque este cantor era visto, pelos actores acabados de mencionar, por Matos e por Gabriel Muthisse, como alguém que valorizava a mulher, através da música. A par disso, Muthisse acrescenta que, para além da temática sobre a mulher, Zeburane cantava música erótica, mas não pornográfica.
As afirmações acerca da importância de se estudar essas músicas, mais a afirmação relativa ao erotismo, despertaram-me curiosidade de escutar algumas músicas desse cantor. Voltei ao YouTube e encontrei a que se intitula Wada bomu keee, i.e., comes ou não limão? Há nela um diálogo entre um homem e uma mulher. Entre muitas questões culturais ligadas à mulher e ao seu resguardo pós-parto, fala-se em homens que andam com muitas mulheres e daqueles que gostam de mulheres de diferentes esteatopigias e de ancas. São até citados nomes de alguns cantores e suas preferências.
Ligada à ideia do limão, o homem diz que “come o limão com a casca”, incluindo os caroços. Valeria a pena escutar a música e usufruir da sua linguagem e da sua melodia. Mas, claramente que quem não é dessa cultura, não terá como se inteirar da maior parte dos significados que contém. Daí ser imperioso que haja mais trabalhos da mesma natureza. O tema desta música, em particular, é suficiente para uma dissertação para obtenção de um grau académico. Condensa muitos significados, tal como referi que acontece na cultura popular.
Foi, entretanto, para mim, uma surpresa e um prazer ler a explicação dos nomes de mulheres que essas músicas celebravam e mencionava, por exemplo, o caso de Ana e de Georgina, nas músicas interpretadas por Fany Pfumu; Zabela, nas de Muthetho e Albino M.
Identidade, irreverência e arte: da (in)tolerância a disputas evitáveis

Luis Loforte falando à comunicação social. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
Estão antologiados, nesta obra, os músicos: Zeburane; Fany Fumo; Hortênsio Langa; Jaimito (Felizberto Joaquim Machatine); Inácio Eugénio; Aurélio Le Bom; José Mucavel; Mário Mara, Maclin Comiche; Gabriel Chiau; João Wate; Roberto Chitsondzo; Mussa Rodrigues, Matconguezi (Muhamad Mubaya) e uma nova geração de músicos, através de Zé Pires.
Sobre a origem da marrabenta, Loforte coloca, didacticamente, o facto e estimula o leitor a tirar as suas ilações, salientando que a disputa em torno da sua origem é desnecessária. Não é que não seja importante conhecer-se a origem de fenómenos, mas isso poderia acontecer sem querelas e com isenção. No entanto, a entrevista realizada por Matos a Alfredo Caliano da Silva (Fêdo) esclarece que Dilon Djinji e Fany Fumo eram jovens, na altura dessa criação. Li, com interesse, a ideia de que o confronto entre Djinji e Pfumo, músicos que muito popularizaram a marrabenta, era simulado. Isto é o melhor da arte.
Fêdo levanta factos equivalentes aos afirmados em Laranjeira, citando Cuche, que a marrabenta surgiu por volta dos anos 30. Laranjeira atribui o nome marrabenta a Zagueta e afirma que, aparentemente, esta música não tem autor conhecido.
Ainda no contexto da função da arte e do seu papel, destaco, no livro, a celebração, em 2009, da passagem dos 40 anos do festival Woodstock, cuja primeira edição foi em 1969. Em 2014, Matos e Loforte recriaram esse festival na Fundação Fernando Leite Couto (FFLC). Nessa reinterpretação, os músicos Hortêncio Langa, José Mucavel e Máximo Nhantumbo tiveram performances musicais; o radialista Anwar Abdul Latif foi entrevistado por Matos e outros convivas que, à altura do primeiro festival Woodstock, eram jovens, designadamente Mia Couto, Fernando Amado Couto, João Trindade (Calica), deram testemunhos, após a projecção de um documentário relativo ao festival.
Loforte informa ter havido alguma relutância, por parte da direcção da FFLC, em que tal evento acontecesse; entretanto, cita Fernando Couto, um dos membros desse colectivo, para quem o patrono da instituição não faria objecção à realização do evento, […] “à partilha de novas ideias, novos conceitos musicais, sobretudo que compreendia a mudança de gerações que estava a acontecer naquela altura”.
Langa narra que ele e outros jovens assistiram a um documentário relativo à primeira edição do evento no Cinema Scala e que, depois disso, ficaram horas a comentar. Não deixa de ser curioso este depoimento, sabida que é a capacidade que a arte tem de estimular mudanças, por vezes radicais. Ainda assim, sabe-se através desta obra que Langa, Mucavel, Jaimito, entre outros, permaneceram defensores das suas raízes africanas.
Mucavel foi caracterizado, neste livro, como cantor de resistência (não ideológica) e aponta o cantor Matchonguezi como um dos maiores músicos de Moçambique. Matchonguezi, esse trovador moçambicano cego, foi, também, dado a conhecer pelo radialista Amâncio Miguel Vilanculos, na sua obra Marrabentar: vozes de Moçambique. Vale a pena ler, no livro em apresentação, a explicação em torno da escolha de Mucavel e ainda a secção dedicada a esse trovador.
Irreverências e disputas tribais

Luis Loforte autografando o livro. Foto © Zé Pires, cedida pelo autor.
Langa refere que Jaimito era um músico habilidoso e dotado (tocava múltiplos instrumentos, cantava e compunha). A partir do depoimento de Langa, ficamos a conhecer a irreverência deste músico, que se recusou a ser comando, quando chamado à tropa portuguesa em 1972, e sobre a importância de se recolher os materiais da sua produção musical, entre 1972 e 1973, para melhor conhecê-lo. Ficamos, também, a saber, através de uma entrevista a Mário Mata que, tendo ido viver em Portugal, Jaimito inovou a sonoridade na música portuguesa.
Loforte recorda-nos as recorrentes disputas tribais em Moçambique, sinalizadas, no caso, pela sua interferência na avaliação e na apreciação da música, numa parada musical. Sobre essa parada, Matânia, que a organizou, recorda-se que recebeu ameaças de morte, dados os contornos tribais que o evento ganhou, relativamente a quem o público desejava que ganhasse. É importante ler-se o livro, para conhecer os factos.
Vale ainda destacar, a este propósito, que o trovador Mussa Rodrigues, mencionado por Eduardo White, cantou uma música que a todos deveria ensinar a inutilidade do tribalismo. Há um excerto dessa música neste livro. Entretanto, a parte que acrescento e que destaco, pode ser escutada através do YouTube: e diz: “[…] Nós somos cantores/Nós somos cantores da província da Zambézia […] Nós somos moçambicanos da província da Zambézia […].” Em meu entender e, também, em função do pensamento de Loforte e de White, esta música ensina-nos que não nascemos no mesmo lugar, que somos diferentes, mas deveria unir-nos a moçambicanidade; ou seja, a moçambicanidade é uma irmandade e isso não nos deveria separar.
É por isso que Eduardo White, ao se referir a esse trovador afirma: “A poesia do Doutor Mussa Rodrigues é pura, mesmo que não percebas a língua, e porque a música é uma linguagem, é como ‘comer a limão com casca dele’”; o que equivaleria a afirmar que existe pureza na linguagem da defesa da moçambicanidade, que deveríamos aceitar a moçambicanidade como um todo, respeitando as nossas origens e diferenças de cada um.
Termino destacando o árduo trabalho de Loforte na pesquisa da música ligeira, em arquivos sonoros da Rádio Moçambique, arquivos privados, de amigos e outras estações radiofónicas. Dado o formato em que se encontra, seria muito útil que as gerações actuais de músicos, e não só, criassem condições digitais inovadoras, para a preservação desses materiais. Lembrando Stuart Hall, na epígrafe, disso depende o futuro da música, em Moçambique.
Por fim, reafirmo que esta obra permite-nos imergir no contexto e nos significados da música ligeira moçambicana. Ensina-nos a apreender os significados, a partir de explicações, demonstrando a intraduzibilidade da cultura, para não traí-la; daí o “comer a limão com casca dele”. Não traduzir não significa não poder conviver, há sempre possibilidades abertas para intercâmbio. E distingamos contextos reais de contextos ficcionais e ainda de sátira, ensinando ou inserindo as crianças, desde cedo, nas suas culturas.
[1] Numa Rádio Comunitária criada por Loforte, em Cabo Delgado.
[2] As mulheres cantoras eram tidas por guele-guele, traduzido por Loforte como tendo origem na palavra inglesa girl, significando, em português, rapariga.
[3] Li, com um misto de sentimentos, sobre a existência da banda feminina as “Moyoni Chuabo”, que interpretavam a música “Mudanga”, cujo teor o autor do livro nos convida a escutar. Entretanto, pouco ou nada se sabe acerca dessa banda da Zambézia.
Sara Jona Laisse é docente universitária e membro do Graal-Moçambique, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.
O título deste texto vai buscar a sua inspiração ao que Loforte explica na página 159 do livro em apreço: a expressão entre aspas é referente a uma música de Armando Mabjaia, cancionista dos anos 80, que traduziu wadla bomu, ni makamba ya drone, para “você come a limão com casca dele”.










