Saída de Zollner em questão

Comissão de Proteção de Menores do Vaticano em crise leva a pedido de intervenção do Papa

| 4 Mai 2023

Hans Zollner

A saída de Hans Zollner da Comissão está no centro do pedido das irlandesas Mary McAleese e Marie Collins. Foto © Rebecski_Wikimedia Commons

 

Duas destacadas mulheres católicas irlandesas acabam de pedir ao Papa Francisco que intervenha pessoalmente para salvar a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores (PCPM), por entenderem que esta sofreu “danos existenciais” com a saída do padre jesuíta Hans Zollner, um reconhecido perito em abusos. Por esta razão sugerem mesmo que o Papa desencadeie uma avaliação externa da situação e funcionamento daquela Comissão.

A tomada de posição, assumida por Mary McAleese, ex-Presidente da República da Irlanda e por Marie Collins, que foi vítima de abusos e integrou a PCPM nos primeiros anos de funcionamento, foi divulgada no jornal Irish Times, na última quarta-feira, 3, precisamente o dia em que se iniciava em Roma uma reunião daquela Comissão, que se prolonga até este sábado, 6.

Em anos recentes, a Comissão vaticana para a Proteção de Menores, que é presidida desde o início pelo cardeal Sean O’Malley, de Boston, tinha sofrido já deserções de dois membros que tinham em comum terem sido abusados em criança: a de Marie Collins, irlandesa, uma ativista de longa data e especialista no combate a abusos; e Peter Saunders, um britânico fundador de uma associação de vítimas. Na altura expressaram desmotivação decorrente do que entendiam ser a burocracia do Vaticano e a sua cultura de secretismo.

Num texto que então escreveu no National Catholic Reporter (NCR), agora recordado por aquela publicação católica dos Estados Unidos, Collins escreveu: “O problema mais significativo tem sido a relutância de alguns membros da Cúria do Vaticano em implementar as recomendações da Comissão, apesar da sua aprovação pelo Papa”.

Contudo, o abandono de Zollner, em 29 de março último, constituiu para muitos um sinal de alerta e mesmo de alarme, atendendo sobretudo à projeção do seu nome e às razões que divulgou para sair. Em questão, para ele, já não era tanto o contexto organizacional em que a Comissão vinha a funcionar, mas a própria Comissão: a sua liderança e falta de transparência.

Zollner, que, além de padre, é psicólogo e psicoterapeuta e um académico que dirige na Universidade Gregoriana um centro de pesquisa sobre a problemática dos abusos, mostrou-se igualmente muito crítico relativamente ao processo de seleção de novos membros e de recrutamento de funcionários para a Comissão, que considerou pouco claros, tal como a definição das respetivas funções e responsabilidades.

O cardeal O’Malley não escondeu a incomodidade e a surpresa pelo gesto e declarações de Zollner, dizendo não compreender as motivações. Sugeriu mesmo que ele poderia estar deslocado da vida da Comissão, por, alegadamente, ter estado pouco presente nas atividades, durante o último ano.

Mas a questão talvez mais importante, que a carta das duas individualidades coloca em decorrência das mais recentes declarações do padre Zollner, prende-se com o presente e futuro da Comissão.

Um dado fundamental que tem sido colocado vem da integração da Comissão no Dicastério para a Doutrina da Fé, no quadro da reestruturação da Cúria, operada pelo Papa. Esta integração foi bem acolhida pelo presidente da PCPM, mas nem todos, mesmo na Comissão, entendem a medida do mesmo modo.

Um outro ponto diz respeito à escolha recente do secretário executivo da Comissão, alguém que não tem, aparentemente, uma grande ligação à problemática de que ela trata. A ação deste funcionário do Vaticano na seleção e recrutamento de novos membros, aumentando significativamente a equipa, está por detrás das preocupações expressas por Zollner.

Os membros da Comissão eram, nos primeiros anos, peritos independentes e externos. Agora, na visão de Marie Collins, em declarações ao NCR, “já não propõem projetos, mas recebem tarefas”. Por sua vez, os funcionários contratados respondem perante as hierarquias da Cúria, o que leva Collins a interrogar: “Não está claro quem é a comissão. São os peritos que são nomeados ou são agora os membros do pessoal que decidem o trabalho a realizar e apresentam as coisas à comissão para que as carimbe?”

Estes sinais de indefinição ou degradação levaram Mary McAleese e Marie Collins a pedir ao Papa que intervenha para “reconstruir a confiança abalada das vítimas e dos fiéis”, papel em que o padre Zollner teve uma importância geralmente reconhecida, diz a carta enviada.

” Para que a Comissão não se afunde agora, “sem deixar rasto e levando consigo a credibilidade da Santa Sé”, as duas católicas irlandesas solicitam a Francisco “uma nova intervenção papal”.

(Fontes da informação utilizada: National Catholic Reporter, Religión Digital e Rete Abuso/Italia).

 

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