
Uma manifestante abraça um polícia, depois de este ter baixado o escudo, num dos protestos contra o Presidente Lukashenko, acusado de fraude eleitoral. Foto reproduzida da página de Mary Ilyushina no Twitter.
O comité executivo das Comissões Justiça e Paz da Europa, da Igreja Católica, apelou ao respeito pelos direitos humanos por parte das autoridades da Bielorrússia, num momento em que crescem as manifestações contra a reeleição de Alexander Lukashenko, que governa o país de forma autoritária há 26 anos e é acusado de ter adulterado os resultados das eleições do passado dia 9: de acordo com a Comissão Eleitoral Central do país, Lukashenko foi reeleito com pouco mais de 80% dos votos.
As comissões Justiça e Paz denunciam ainda “qualquer forma de violência” e condenam “veementemente o uso de tortura”, pedindo ao mesmo tempo “a libertação imediata de todos os que foram presos sem qualquer justificação”. E acrescentam: “Instamos as autoridades bielorrussas a respeitarem plenamente os direitos humanos, incluindo o direito à vida, a proibição da tortura, a liberdade de reunião, media e expressão, e a aderirem aos princípios democráticos”, lê-se na declaração, citada pela agência Ecclesia.
No documento, diz-se que a “violência desproporcional” já causou a perda “de duas vidas e causou centenas de feridos” na Bielorrússia, onde cerca de seis mil manifestantes “foram detidos e muitos, posteriormente libertados, apresentam marcas de tortura”.
“Esta situação alarmante representa uma séria ameaça à justiça e à paz, não só na Bielorrússia, mas em toda a região”, alerta o comité católico.
A União Europeia já acusou Lukashenko de fraude eleitoral e de repressão violenta das manifestações, o que merece um elogio das comissões europeias Justiça e Paz: “Saudamos a unidade dos Estados-Membros da União Europeia na demonstração da sua solidariedade com o povo da Bielorrússia e manifestamos o nosso apoio aos esforços da UE para trabalhar em medidas direccionadas contra as pessoas responsáveis por graves violações dos direitos humanos.”
“Pessoas têm o direito de conhecer a verdade”, diz arcebispo
No texto, referem-se ainda as posições dos bispos católicos do país, nomeadamente do arcebispo de Minsk, Tadeusz Kondrusiewicz, que apelou à busca da verdade e do diálogo “pacífico e inclusivo” entre a liderança política bielorrussa e a sociedade para “evitar mais violência”.
O arcebispo denunciou a “tragédia nacional” da violência pós-eleitoral: “O nosso país está a atravessar um período difícil, que, infelizmente, está a ser marcado pelo derramamento de sangue e pelos milhares de civis detidos e brutalmente espancados que querem saber a verdade sobre as eleições presidenciais de 9 de Agosto”, afirmou Kondrusiewicz, que é também presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Bielorrússia, num discurso, na sexta-feira, 14, dirigido a Lukashenko, às autoridades estatais e a todos os que exercem o poder a diferentes níveis no país.
“Deus criou-nos livres” e “as pessoas têm o direito de conhecer a verdade, que não pode ser sacrificada para agradar os interesses políticos ou oportunistas de alguém”, afirmou o arcebispo, criticando o espancamento de quem participa em manifestações pacíficas por querer saber a verdade. “O tratamento cruel e a detenção desumana são um pecado grave na consciência daqueles que dão ordens criminosas e semeiam violência”, avisou Kondrusiewicz, citado pelo Novena News.
O arcebispo pediu ainda que as autoridades iniciem “um diálogo construtivo com a sociedade”, de forma a pôr termo à violência e a libertar imediatamente todos os cidadãos inocentes detidos em manifestações pacíficas” e para conseguir “a paz tão necessária”.
O comité das comissões Justiça e Paz europeias convidou também “todos os cristãos” a unirem-se em oração “pelo povo da Bielorrússia”, às 18h00 desta terça-feira, dia 18 de Agosto, “para que a verdade, a justiça e a paz prevaleçam”.
O Papa Francisco também se referiu ao tema no domingo, pedindo o fim da violência e o respeito pela justiça e pelo Direito. No mesmo dia, milhares de ortodoxos, católicos e protestantes organizaram na Bielorrússia um dia de oração pela paz. Já antes, na quinta-feira, 13, houve orações em várias igrejas e muitos crentes saíram depois para as ruas levando Bíblias, ícones e terços nas mãos, de acordo com a agência italiana SIR.
Numa das suas últimas declarações públicas, nesta segunda-feira, 17, Lukashenko admitiu a possibilidade de entregar o poder após a realização de um referendo, mas nunca sob pressão dos manifestantes, como noticiou o DN.





