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autores - Mendo Castro Henriques

Como chega o Chega?

“Muito preocupante de uma parte dos quadros do Chega, é a vertente negacionista no jogo de Verdades e Mentiras. Este jogo alimenta a difusão de ficções políticas e ameaça direitos sociais alcançados, regimes de proteção da natureza, e só ajuda a complicar os problemas complexos do Contrato Digital.” Foto: Assembleia da República. © IPPAR

 

Números redondos causam impressão e nos 50 anos do 25 Abril, ao eleger 50 deputados para a Assembleia da República de onde sairá o XXIV Governo Constitucional, o partido Chega causou a impressão de que modificou a política em Portugal. Trata-se de uma ilusão provinciana, e pior ainda é a deceção que se vai seguir. O Chega é um reflexo da crise da sociedade civil e da secessão das elites.

A expectativa de que a atividade política e cívica humanizasse a sociedade desapareceu, 50 anos após o 25 de Abril. Em vez disso, o que há é a tentativa desesperada de sobrevivência entre ruínas ou, mais modestamente, manter-se face às pressões crescentes. Este prognóstico pessimista de Christopher Lasch em livros de há 40 anos, como A Cultura do Narcisismo, O Eu Mínimo e A Revolta das Elites, podia ter sido escrito ontem.

O acontecimento de “ontem”, contudo, foram os 50 deputados do Chega, a que muitos chamam, preguiçosamente, de partido da extrema-direita. Essa é a designação conforme ao modelo antigo de distribuição de partidos políticos anterior à globalização e à sua crise. Vivemos em tempos de ruína e de transição tão rápida que até votantes ex-comunistas da cintura da Grande Lisboa ou do Alentejo, com provas dadas de liberdade, votam Chega.

O Chega representa a direita localista e anti-globalista e aqui começa o seu problema. Só alcança Portugal após a devastação moral e económica da crise COVID -19 e após o episódio da “3ª guerra mundial aos bocados” que é a guerra na Ucrânia, ou seja; o Chega “chega” atrasado a Portugal, quando a situação internacional lhe começa a ser desfavorável, devido às pressões para uma Europa da integração.

Haverá três correntes para explicar o voto no CH: 1) que a informação pública é enviesada. 2) que é um voto de protesto. 3) que é um voto ideológico. Creio que são vetores necessários mas insuficientes para a explicação.

A vaga de direita localista, e anti-globalista e que pretende “fazer a nação outra vez grande” levou muito tempo a alcançar Portugal. Em França, a antiga Frente de Le Pen obteve 10% dos votos desde 1985 e teve 18% em 2022. A AfD Alternative für Deutschland obteve 13 % na Alemanha em 2017. O Vox obteve 15% em 2019 em Espanha (12,5% em 2023).

Em todos estes casos, os eleitorados reagiram às “políticas da inevitabilidade” do centro governativo, preso aos “interesses do costume”. E que fizeram? Entre as oposições ao Centrão escolheram “a mais disruptiva”, tornado irrelevantes outras forças tradicionais de protesto (PCP em Portugal).

Após anos a escutar “Não há alternativa!”, “mais de um milhão de portugueses” reagiu pela negativa e procurou a mudança por via eleitoral. Castigou os partidos de centro direita (AD) e centro esquerda (PS), incapazes de efetuar uma renovação (voto ideológico), ou que tornaram a vida um inferno (voto de protesto), ou nem sabem comunicar (informação enviesada).

O “Chega” chega tarde a Portugal. Desde a crise COVID-19 de 2020, a Europa está a reforçar a integração; financeira para responder à pandemia; com os valores da democracia e da soberania da lei contra o princípio ditatorial de Putin; militar por via da NATO com a adesão da Finlândia e da Suécia.

Como situar o Chega, perante os grandes princípios políticos atuais?

a)  O substrato ideológico do Chega é uma Nova Direita, ou Direita alternativa com elementos personalistas, mas sem componente totalitária, como existe em alguns partidos radicais europeus e em Putin e Trump.

b)  O Chega parece aceitar o princípio da sucessão democrática e não se vislumbra nele, até agora, traços de golpismo ou de tentativas de colapso da política democrática, como por exemplo no movimentos trumpista nos EUA.

c)  Terá tido a ambição inicial de um “Lusexit”, como proposto por grupos sociais preteridos e desfavorecidos pelas benesses económicas da integração europeia. Mas agora que é “grande” o Chega deve alinhar pela integração sem cenários de divisionismo alimentadas pelo putinismo imperial. (Brexit, Órban, Escócia, Catalunha).

d)  A moldura cultural do Chega é de conformismo provinciano, não de novidade ou vanguarda. Não corresponde a nenhuma vaga cultural de fundo na sociedade portuguesa. Provoca um efeito de “déjà-vu” que lhe fará perder votos no futuro. Símbolo: o convite patético a “Quim Barreiros” para encerrar o comício de Lisboa.

e)  Muito preocupante de uma parte dos quadros do Chega, é a vertente negacionista no jogo de Verdades e Mentiras. Este jogo alimenta a difusão de ficções políticas e ameaça direitos sociais alcançados, regimes de proteção da natureza, e só ajuda a complicar os problemas complexos do Contrato Digital.

f)  Na luta entre Igualdade e Oligarquia, o Chega dificilmente poderá ser “o partido de Ricardo Salgado”; terá tendência a refugiar-se na “igualdade de alguns” contra os outros, numa aplicação do princípio político de “nós, os amigos” contra “eles”, que claramente já não são os “ciganos”.

Os livros de Christopher Lasch na década de 1970 anteciparam os debates muito atuais: guerras culturais entre wokes e anti-wokes, a ascensão de uma “elite liberal”, o individualismo corrosivo, a invasão dos mercados na vida social, a cultura da celebridade, a mentalidade de auto ajuda, do “vai acabar tudo bem” e do “ser feliz”. Foi nesse panorama das ruínas crescentes da sociedade civil, onde o indivíduo tenta sobreviver que cresceu o Chega e o voto daqueles que um dia serão defraudados por ele.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

 

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