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Papa Francisco durante celebração na Basílica de São Pedro. Foto Vatican Media

Novo documento "O bispo de Roma"

Como conciliar o primado do Papa com a unidade dos cristãos? O Vaticano publicou um estudo que tenta responder

| 13/06/2024

Papa Francisco durante celebração na Basílica de São Pedro. Foto Vatican Media

O Papa Francisco deu a sua aprovação para que o novo documento fosse publicado, o que não significa que subscreva todas as conclusões apresentadas pelo Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Foto © Vatican Media

O desafio foi lançado há quase 30 anos por João Paulo II, na encíclica Ut Unum Sint – Sobre o empenho ecuménico: o então pontífice pedia aos líderes e teólogos das várias Igrejas cristãs que se envolvessem num “trabalho paciente e corajoso” sobre a primazia papal. A resposta tardou, mas chegou, e pode ser encontrada no novíssimo documento de estudo do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, intitulado “O bispo de Roma”.

Apresentado  esta quinta-feira, 13 de junho, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o texto resume as reflexões de cerca de 30 comunidades cristãs ortodoxas e protestantes e ainda 50 documentos de diálogo ecuménico sobre o assunto que tantas divergências tem provocado ao longo dos séculos.

Além de resumir essas reflexões, o novo documento – disponibilizado online em inglês, italiano e francês – parte da leitura das mesmas para fazer uma série de recomendações tendo em vista “um exercício sinodal” do primado papal. Uma delas é que “é necessária uma sinodalidade crescente dentro da Igreja Católica” e que “muitas instituições e práticas sinodais das Igrejas Católicas Orientais poderiam inspirar a Igreja Latina”.

O Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos vai mais longe e propõe uma “sinodalidade ad extra” que poderia incluir reuniões regulares entre representantes cristãos a nível mundial numa “comunhão conciliar” para aprofundar a união.

Quanto à primazia petrina, o estudo sugere “que seja feita uma distinção mais clara entre as diferentes responsabilidades do Papa, especialmente entre o seu ministério como chefe da Igreja Católica e o seu ministério de unidade entre todos os cristãos”.

As Igrejas Ortodoxa e Ortodoxa Oriental enfatizaram a importância da liderança regional na Igreja e defenderam “um equilíbrio entre primazia e primazias”. No mesmo sentido, alguns diálogos ecuménicos com comunidades cristãs ocidentais apelaram a “um fortalecimento das conferências episcopais católicas, inclusive a nível continental, e a uma ‘descentralização’ contínua inspirada no modelo das antigas Igrejas patriarcais”.

O documento destaca como alguns desses diálogos ecuménicos argumentaram que “o poder do Bispo de Roma não deve exceder esse exigido para o exercício do seu ministério de unidade a nível universal” e sugeriram “uma limitação voluntária no exercício do seu poder”.

 

Um assunto que não se esgotou, um debate que vai continuar

19 September 2023, Krakow, Poland LWF General Secretary Rev. Dr Anne Burghardt (right) and Cardinal Kurt Koch of the Roman Catholic Church (left). Photo LWFAlbin Hillert

O cardeal Kurt Koch e a secretária-geral da Federação Luterana Mundial, reverenda Anne Burghardt, em setembro de 2023. “Esperamos continuar o debate evidentemente juntos”, afirma Koch. Foto ©  LWF/Albin Hillert

Reconhecendo que alguns dos ensinamentos do Vaticano I “foram profundamente condicionados pelo seu contexto histórico”, o documento avança que “a Igreja Católica deveria procurar novas expressões e vocabulário fiéis à intenção original, mas integrados numa eclesiologia communio e adaptados ao atual contexto cultural e ecuménico”.

Em suma, ao longo de cerca de 140 páginas,  é proposta uma “leitura renovada” dos textos petrinos que historicamente se tornaram um obstáculo para a unidade entre os cristãos, ressaltando-se que a primazia do bispo de Roma é tanto uma “instituição de direito divino” quanto de direito humano, como destacou o cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, durante a conferência de imprensa desta quinta-feira.

A conclusão mais importante, assinalou Koch, citado pela Catholic News Agency, é que “todos os documentos coincidem na necessidade de um ministério de unidade a nível universal, mesmo que os fundamentos desse ministério e as formas de exercê-lo estejam sujeitos a diferentes interpretações”.

Tratando-se de um “documento de estudo”, este pretende oferecer “uma síntese objetiva das discussões ecuménicas” sobre o primado papal, e não “esgotar o assunto nem resumir todo o magistério católico sobre o assunto”, salvaguardou o cardeal, explicando ainda que o Papa Francisco deu a sua aprovação ao dicastério para que o publicasse, mas isso não significa que subscreva todos os seus conteúdos.

Seja como for, uma coisa é certa: “Ao contrário das polémicas do passado, a questão do primado já não é vista apenas como um problema, mas antes como uma oportunidade para uma reflexão comum sobre a natureza da Igreja e a sua missão no mundo”, concluiu. “Esperamos assim continuar o debate evidentemente juntos, para um exercício do ministério de unidade do Bispo de Roma reconhecido por uns e por outros.”

 

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