
O Papa Francisco deu a sua aprovação para que o novo documento fosse publicado, o que não significa que subscreva todas as conclusões apresentadas pelo Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Foto © Vatican Media
O desafio foi lançado há quase 30 anos por João Paulo II, na encíclica Ut Unum Sint – Sobre o empenho ecuménico: o então pontífice pedia aos líderes e teólogos das várias Igrejas cristãs que se envolvessem num “trabalho paciente e corajoso” sobre a primazia papal. A resposta tardou, mas chegou, e pode ser encontrada no novíssimo documento de estudo do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, intitulado “O bispo de Roma”.
Apresentado esta quinta-feira, 13 de junho, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o texto resume as reflexões de cerca de 30 comunidades cristãs ortodoxas e protestantes e ainda 50 documentos de diálogo ecuménico sobre o assunto que tantas divergências tem provocado ao longo dos séculos.
Além de resumir essas reflexões, o novo documento – disponibilizado online em inglês, italiano e francês – parte da leitura das mesmas para fazer uma série de recomendações tendo em vista “um exercício sinodal” do primado papal. Uma delas é que “é necessária uma sinodalidade crescente dentro da Igreja Católica” e que “muitas instituições e práticas sinodais das Igrejas Católicas Orientais poderiam inspirar a Igreja Latina”.
O Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos vai mais longe e propõe uma “sinodalidade ad extra” que poderia incluir reuniões regulares entre representantes cristãos a nível mundial numa “comunhão conciliar” para aprofundar a união.
Quanto à primazia petrina, o estudo sugere “que seja feita uma distinção mais clara entre as diferentes responsabilidades do Papa, especialmente entre o seu ministério como chefe da Igreja Católica e o seu ministério de unidade entre todos os cristãos”.
As Igrejas Ortodoxa e Ortodoxa Oriental enfatizaram a importância da liderança regional na Igreja e defenderam “um equilíbrio entre primazia e primazias”. No mesmo sentido, alguns diálogos ecuménicos com comunidades cristãs ocidentais apelaram a “um fortalecimento das conferências episcopais católicas, inclusive a nível continental, e a uma ‘descentralização’ contínua inspirada no modelo das antigas Igrejas patriarcais”.
O documento destaca como alguns desses diálogos ecuménicos argumentaram que “o poder do Bispo de Roma não deve exceder esse exigido para o exercício do seu ministério de unidade a nível universal” e sugeriram “uma limitação voluntária no exercício do seu poder”.
Um assunto que não se esgotou, um debate que vai continuar

O cardeal Kurt Koch e a secretária-geral da Federação Luterana Mundial, reverenda Anne Burghardt, em setembro de 2023. “Esperamos continuar o debate evidentemente juntos”, afirma Koch. Foto © LWF/Albin Hillert
Reconhecendo que alguns dos ensinamentos do Vaticano I “foram profundamente condicionados pelo seu contexto histórico”, o documento avança que “a Igreja Católica deveria procurar novas expressões e vocabulário fiéis à intenção original, mas integrados numa eclesiologia communio e adaptados ao atual contexto cultural e ecuménico”.
Em suma, ao longo de cerca de 140 páginas, é proposta uma “leitura renovada” dos textos petrinos que historicamente se tornaram um obstáculo para a unidade entre os cristãos, ressaltando-se que a primazia do bispo de Roma é tanto uma “instituição de direito divino” quanto de direito humano, como destacou o cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, durante a conferência de imprensa desta quinta-feira.
A conclusão mais importante, assinalou Koch, citado pela Catholic News Agency, é que “todos os documentos coincidem na necessidade de um ministério de unidade a nível universal, mesmo que os fundamentos desse ministério e as formas de exercê-lo estejam sujeitos a diferentes interpretações”.
Tratando-se de um “documento de estudo”, este pretende oferecer “uma síntese objetiva das discussões ecuménicas” sobre o primado papal, e não “esgotar o assunto nem resumir todo o magistério católico sobre o assunto”, salvaguardou o cardeal, explicando ainda que o Papa Francisco deu a sua aprovação ao dicastério para que o publicasse, mas isso não significa que subscreva todos os seus conteúdos.
Seja como for, uma coisa é certa: “Ao contrário das polémicas do passado, a questão do primado já não é vista apenas como um problema, mas antes como uma oportunidade para uma reflexão comum sobre a natureza da Igreja e a sua missão no mundo”, concluiu. “Esperamos assim continuar o debate evidentemente juntos, para um exercício do ministério de unidade do Bispo de Roma reconhecido por uns e por outros.”









