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Carlos de Foucauld

Testemunho

Como conheci Carlos de Foucauld — a importância das mediações

Carlos de Foucauld será canonizado na Igreja Católica pelo seu trabalho com os tuaregues.

 

Conheci Carlos de Foucauld há muitos anos. Mas ainda me falta muito para o conhecer bem. Até porque ele realizou um itinerário pessoal complexo, a sua vida foi vivida como uma aventura.

Quando na pré-JEC, aluno do 1.º ano do Liceu Camões (correspondente ao atual 5.º ano; o professor de moral era o P. Luís Mafra), fui, com a equipa, fazer uma visita ao Bairro da Curraleira, em Lisboa, encontrei-o na Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus. Para fazer a referência a uma delas, cito a Ivete: fazia tantos anos em Portugal (tinha chegado em 1952) quantos eu de vida.

Na minha “Missa-nova” na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Olivais Sul, lembro-me da presença de várias irmãzinhas, e lembro-me que a Susana propôs uma das intenções da Oração dos Fiéis (recordo, a propósito, que outras foram propostas por Alfredo Bruto da Costa e por Manuela Silva). O meu primeiro ano de serviço presbiteral foi vivido na comunidade do Prior Velho onde estava uma (então) recente Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus. Foi lá que reencontrei a Ivete e a Susana; e onde conheci a Mónica, com quem continuo uma relação de amizade e de acompanhamento, agora mais por mails e por mensagens no WhatsApp… Durante todo esse ano fui conhecendo melhor Carlos de Foucauld. Na realidade quotidiana, no diálogo com os pobres, no sonho, na esperança, num certo estilo de vida.

Quando fui para Roma – onde durante quatro anos estudei teologia moral – passava um fim de semana por mês em Tre Fontane (casa geral das Irmãzinhas de Jesus) para um dia de deserto no sábado e para a Missa do Domingo, à qual se seguia o almoço fraterno. Foi no primeiro ano que encontrei Jean-François Six, autor de um livrinho comprado na Livraria Moraes e lido na juventude, o Itinerário espiritual de Carlos de Foucauld. Noutro dos muitos livros deste autor (As Bem-aventuranças hoje) tinha tomado conhecimento da existência actual da União, a única proposta feita por Carlos de Foucauld para todos os baptizados – leigos, padres e religiosos –, da qual ele foi membro até à morte, convidando cada um(a) a tornar-se, no seu quotidiano, um “missionário isolado”, um “desbravador evangélico”. Foi assim que de Carlos de Foucauld, padre secular da Diocese de Viviers, por mediação de Jean-François Six, me chegou este convite.

Pouco depois, Magdeleine de Jésus, fundadora das Irmãzinhas de Jesus, dizia-me no final de uma dessas Missas de Domingo em Tre Fontane: “Somos da mesma família!”

A emblemática Fraternidade da Curraleira

Depois de 1991, regressando a Lisboa para a Pastoral Universitária, como assistente do MCE e capelão da Capela do Rato, colaborei na iniciativa de encontros de verão na Fraternidade de Fátima. As irmãzinhas de Jesus e os irmãozinhos de Jesus que, em Portugal, estão presentes em Setúbal nas pessoas do Luís e do Henrique (com quem me tinha encontrado em Beni Abbès anos antes num retiro com René Voillaume, fundador dos Irmãozinhos de Jesus, e a Irmãzinha Jeane, uma das primeiras irmãzinhas, companheira de toda a vida da Irmãzinha Magdeleine), associavam-se, para estes encontros, com o casal Lena e Tó Bento, que faziam o acompanhamento pastoral da Comunidade Cristã do Prior Velho, e comigo. O dinamismo das Irmãzinhas Casimira, Prazeres e Glória fazia quase tudo; o resto era dado pelo saber de artesanato da Céu, pela frescura da Cecília (o que ela gostava de anedotas!), da Esmeralda (na altura, a mais nova), da Viviana (que tinha feito de S. Romão, na Serra da Estrela, a sua segunda terra) e da Clara, quando vinha da Suíça. Por lá passaram muitos jovens ao longo daquela década. A minha (a nossa) esperança era e é de que esse tempo de vida simples, de reflexão, de oração e de trabalho manual tenham possibilitado a cada um, a cada uma, fazer uma bela e significativa experiência de encontro com Jesus, à maneira de Carlos de Foucauld. Também aqui, a importância da mediação.

Em cada ano em Fátima ou em Chelas (com a conhecida insistência da Irmãzinha Aida Maria, que eu tinha conhecido na Fraternidade da Rua do Sol; nesses tempos, a Fraternidade Secular e a Fraternidade Sacerdotal tinham, parece-me, um maior dinamismo entre nós) se celebrava o 1º de dezembro. Ao recordar fraternidades hoje desaparecidas – até porque as realidades onde elas se inseriam também desapareceram – não posso deixar de referir uma particularmente emblemática em Lisboa: a da Curraleira (bairro de lata) com a não menos emblemática presença da Irmãzinha Montserrat. Essa casa foi habitada depois pelo Edgar Silva, quando era assistente nacional do MCE.

Com as Irmãzinhas e por sua iniciativa celebrámos na Sé Patriarcal, com o Cardeal Policarpo, a Missa de ação de graças pela beatificação de Carlos de Foucauld.

Mais tarde, chegou de Roma, depois de muito tempo em África, a Maria de Montserrat (uma catalã independentista) para se juntar à fraternidade da Quinta da Fonte, na Apelação, onde se encontrava a Maria do Carmo.

E este ano, se Deus quiser, além dos dois livros publicados em português, um das Paulinas, outro da Paulus, uma Missa de ação de graças pela canonização de Carlos de Foucauld há-de ser celebrada também no 1º de dezembro em Fátima, se os esforços da Irmãzinha Maria de Fátima forem coroados de êxito.

 

José Manuel Pereira de Almeida é padre católico e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa. Prefaciou o livro Meu Deus, Como És Bom, publicado agora pela Paulus Editora.

 

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