
“Apesar de tudo, e não obstante tensões e confrontos, esta irrupção de novidade numa terra onde nada acontecia acaba por despertar iniciativas e redes de solidariedade que vão superando preconceitos e violências com uma atitude de respeito e compaixão que transforma as relações e reanima a esperança.” Imagem do trailer do filme
Com os seus 87 anos, Ken Loach está tentado a dar por concluída a carreira de realizador com esta película que representou um duro esforço ao longo de dois anos e meio. Contudo, como admite em recente entrevista (Revista do Expresso, 24 novembro), talvez o exemplo de Manoel de Oliveira o leve a prosseguir ainda. Oxalá, porque bem precisamos de obras como estas que, para além da elevada qualidade cinematográfica, nos confrontam com realidades das mais prementes do nosso tempo.
Neste caso, as dificuldades vividas numa localidade britânica onde o encerramento das minas de carvão lançou no desemprego, anos atrás, os chefes de família. O café-bar da terra é o ponto de encontro destes homens sem futuro, azedados pela sorte que lhes coube. Uma frustração que contagia as famílias e as pessoas em geral. Clima de depressão e desesperança.
A inesperada chegada de algumas famílias de refugiados sírios suscita reações de rejeição e aversão. O gestor do Bar, que vive também ele uma situação difícil, sintoniza com a precariedade dos novos vizinhos, mas precisa de manter os clientes e não pode romper com velhos amigos e conhecidos. Apesar de tudo, e não obstante tensões e confrontos, esta irrupção de novidade numa terra onde nada acontecia acaba por despertar iniciativas e redes de solidariedade que vão superando preconceitos e violências com uma atitude de respeito e compaixão que transforma as relações e reanima a esperança.
Ken Loach, que se estreou nos anos 60 com algumas produções televisivas evocando questões sociais, ao jeito do neorrealismo do após guerra, manteve-se sempre atento às situações e dificuldades dos trabalhadores da classe média baixa, evocadas com respeito e empatia, mas sem ceder a sentimentalismos, como provam também os seus dois anteriores filmes: “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Passámos por aqui” (2019).
Realizador: Ken Loach.
Argumento: Paul Laverty.
Actores: Debbie Honeywood, Dave Turner, Trevor Fox
País: Bélgica, França, Reino Unido
Drama. 113 m
2023. Nos cinemas.









