Como é que as pessoas querem envelhecer?

| 17 Mar 2023

“É, porém, inegável que observamos múltiplas e diferenciadas estratégias para enfrentar o envelhecimento.” Foto © Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”

 

Como é que as pessoas querem envelhecer? Quando esta questão me foi posta, mentalmente reagi de imediato: eu é que sei?

E pensei que teria de interrogar várias pessoas sobre este problema na tentativa de obter uma informação mais fundamentada. Também me ocorreu de imediato que a primeira pessoa a interrogar seria eu próprio… E a resposta emocional saltou de imediato: mas eu não quero envelhecer!…

Negamos assim a mais elementar das evidências: todos envelhecemos. Ponto parágrafo.

É, porém, inegável que observamos múltiplas e diferenciadas estratégias para enfrentar o envelhecimento.

Observamos na comunidade que nos rodeia diferentes filosofias de vida que, clara ou disfarçadamente, mais não são que modos diferentes de encarar o futuro, o mesmo é dizer o envelhecimento.

Os filósofos gregos ligaram estas diferentes formas a duas escolas de vida bem diferentes: o hedonismo e o estoicismo.

O hedonismo procurava tudo, e só, o que desse prazer, construindo um modo de vida assente na vivência. Mais tarde os latinos traduziam esta mesma vivência na expressão: carpe diem – aproveita o dia. Para estes o futuro e, por conseguinte, o envelhecimento, seria a continuidade deste tempo.

O estoicismo privilegiava a virtude como o melhor meio de atingir a felicidade, mesmo que esta exigisse esforço e sacrifício.

A filosofia cristã integrou nos seus princípios alguns elementos do estoicismo. A ascese cristã mais não é que a vivência com esforço, sacrifício.

Neste nosso tempo cada vez encontramos mais pessoas que procuram levar uma vida de bem-estar e virtude, integrando princípios das correntes de filosofia atrás lembradas.

Desde muito cedo que tenho presente que o envelhecimento exige a nossa atenção, tendo em conta que a qualidade do mesmo depende de variáveis pessoais e universais.

Como seres mortais que somos, à medida que vamos envelhecendo os nossos órgãos enfraquecem, acabando por entrar em colapso. As nossas capacidades físicas e mentais diminuem e quando fogem do nosso controlo tornamo-nos dependentes.

Todos ou quase todos nos vamos apercebendo disto. Os que não se apercebem, com grande probabilidade virão a deparar-se com um beco sem saída. Dizia a escritora e pensadora Simone de Beauvoir que o pior que nos pode acontecer é envelhecermos sem dar por isso.

Faz, portanto, todo o sentido interrogarmo-nos: Como queremos envelhecer?

Eu gostaria de envelhecer como sempre vivi, com saúde e com amor.

Este projeto parece simples, mas é muito difícil de concretizar pois na saúde e no amor interferem inúmeras variáveis, algumas das quais impossíveis de controlar por cada um. Quanto à saúde quem pode escolher a sua hereditariedade, o contexto em que nasceu e se desenvolveu e muitos outros imponderáveis que ocorrem ao longo da vida? No que se refere ao amor há muito de construção pessoal, muito de suporte da comunidade e também, tal como na saúde, uma fatia composta por fatores imponderáveis.

Enquanto temos saúde e amor queremos e podemos viver na nossa família e na nossa casa. É o sentimento mais comum que encontramos na sociedade portuguesa. Mas mesmo nos casos de isolamento e solidão as pessoas optam até ao limite por se manterem nas suas casas.

Este aspeto comum à maior parte das pessoas que conhecemos é muito bem descrito no livro Misericórdia, da escritora Lídia Jorge.

Diz a protagonista do romance residente num lar “…aquela que foi a minha casa…”, “…o globo fazia parte daquela que fora a minha casa, aquela que na hora exata eu tinha querido abandonar por iniciativa própria para sempre.”

E é esta mesma personagem que, em dado passo, põe em causa a dimensão anónima daquele lar: “Não é possível dispor de um objeto secreto onde tudo é visto e revisto, pesquisado e inventariado pelos olhos dos outros, pois aqui onde me encontro nenhum canto é meu, nenhum objeto me pertence, até mesmo o meu corpo não é mais um recanto privado da minha alma como antes era. Só os meus pensamentos me pertencem, só esses não são vigiados, e ainda assim, há quem tente adivinhar os motivos porque falo ou porque estou calada.”

Idosos

“Não podemos esquecer que quanto maior for a esperança de vida, quantos mais anos vivermos, mais os lares residenciais se tornam necessários, indispensáveis.” Foto © Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”

 

Quem não estremece ao ler isto?

Serão então dispensáveis as estruturas residenciais para idosos? De modo algum… Têm é de ser repensadas e aperfeiçoadas, nunca esquecidas ou minimizadas.

Não podemos esquecer que quanto maior for a esperança de vida, quantos mais anos vivermos, mais os lares residenciais se tornam necessários, indispensáveis.

E a economia do lucro sabe-o bem e por isso tem vindo a divulgar que, num futuro próximo, investimentos na saúde e em residenciais para idosos serão lucrativos, no pressuposto de que há uma classe de pessoas que terá capacidade de pagar a qualidade que aquelas estruturas devem garantir.

Em qualquer altura do nosso envelhecimento podemos perder a nossa autonomia, já nem falo em independência.

A geração que nos precedeu depositou toda a sua esperança e confiança nos filhos, mas muitas vezes a resposta daqueles falha e os pais reagem com dor ao internamento em instituição. Ouvimos frequentemente, sobretudo da parte das mães, lamentos como: “Onde eu estava bem era na minha casinha!”

A minha geração – a dos 70/80 anos – começa a entender que não pode contar com grande apoio por parte dos filhos, nem presencial nem económico-financeiro. Com efeito, eles irão trabalhar até mais tarde e muitos irão ter uma pensão mais baixa.

Perante esta realidade, se assumirmos que os lares são um apoio indispensável, estaremos a tirar dos ombros dos nossos filhos um peso, o que muito os ajudará a reduzir o estresse a que a vida os tem sujeitado.

Mas quer possamos continuar na nossa casa, deslocarmo-nos para casa dos nossos filhos ou para um lar, teremos que nos preparar para esta fase de envelhecimento iniciando a preparação para um acontecimento importante e inexorável que é a nossa morte.

A morte continua a ser um dos últimos tabus da nossa civilização, algo de que se teme falar mesmo continuando a ser a mais óbvia das realidades.

Este é o assunto-tema de que tenho mais dificuldade em falar nos encontros com os idosos dos lares. Não falo mesmo… porque tenho a sensação de que ninguém quer que eu fale nele.

Para responder à pergunta inicial: “Como é que as pessoas querem envelhecer?” é assunto ao qual voltarei através de testemunhos obtidos por via oral ou escrita.

 

José Pires é psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Contacto:  jose_pires1@sapo.pt

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses

Sucedendo a José Diogo Ferreira Martins

Psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses novidade

A psiquiatra Margarida Neto é a nova presidente da direção nacional da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP). A médica, que trabalha na Casa de Saúde do Telhal (Sintra) e é uma das responsáveis pelo Gabinete de Escuta do Patriarcado de Lisboa, foi eleita por unanimidade no passado sábado, 13 de abril, para o triénio 2024-2026.

Cristianismo e democracia

Cristianismo e democracia novidade

Em tempo de comemoração dos cinquenta anos da revolução de 25 de abril, penso dever concluir que o maior legado desta é o da consolidação do Estado de Direito Democrático. Uma consolidação que esteve ameaçada nos primeiros tempos, mas que se foi fortalecendo progressivamente. Esta efeméride torna particularmente oportuna a reflexão sobre os fundamentos éticos da democracia. [Texto de Pedro Vaz Patto]

A “afinidade” entre a música de intervenção e a mensagem de libertação cristã

Alfredo Teixeira em conferência dia 16

A “afinidade” entre a música de intervenção e a mensagem de libertação cristã

Podem algumas canções de intervenção ligadas à Revolução de 25 de Abril de 1974 relacionar-se com o catolicismo? O compositor e antropólogo Alfredo Teixeira vai procurar mostrar que há uma “afinidade” que une linguagem bíblica e cristã à música de Zeca, José Mário Branco, Lopes-Graça, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e outros.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This