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Segundo o cardeal Mario Grech

Como Francisco tem posto em prática uma Igreja sinodal

| 06/07/2021

Cardeal Mario Grech, secretário do Sínodo dos Bispos. Foto © Wikimedia Commons

 

“Na minha experiência, ainda breve, à frente do Secretariado Geral do Sínodo [dos Bispos], tenho-me dado conta de que não se conhece e não se informa suficientemente [sobre o caminho sinodal] – nem mesmo na era digital. Pergunto-me quantos sabem realmente e quantos se estão a preparar para esta etapa decisiva para a vida da Igreja.”

As inquietações vêm do cardeal Mario Grech e foram proferidas este domingo, 4, na Basílica de San Domenico, no ato de encerramento do sínodo da diocese italiana de Arezzo, situada a sudeste de Florença. Aquele responsável aproveitou a ocasião para explicar o alcance do processo sinodal que se avizinha na Igreja Católica, que não é um “sínodo sobre o sínodo”, um debate sobre o que significa ou implica a sinodalidade, mas de um processo em que todo o “povo de Deus” é convidado a participar e a experimentar a própria sinodalidade. Por isso reveste uma “importância decisiva para a Igreja”.

Mario Grech começou por partilhar a alegria que sentia em estar a participar num momento significativo do processo sinodal de uma igreja local. Isso até agora era uma dimensão que não tinha muito que ver com o Sínodo dos Bispos. “No arquivo do Secretariado sinodal – contava ele no discurso aos membros sinodais – não há vestígios dos numerosos sínodos celebrados nos diversos níveis da Igreja. Como se as duas coisas fossem paralelas e nunca se encontrassem.” A partir de agora, isto vai mudar, promete o líder do Secretariado.

O cardeal referiu que, 50 anos depois da instituição do Sínodo dos Bispos, anunciada ainda em tempo do Concílio Vaticano II pelo Papa Paulo VI, existia um sentimento mais ou menos difuso de uma experiência um tanto gasta: “A instituição parecia arrastar-se um pouco cansada, como se o seu ímpeto inicial se tivesse esvaziado, com o lineamenta [linhas de orientação] preparado por uma comissão de especialistas, o instrumentum laboris  [documento de trabalho] entregue à assembleia que, por sua vez transmitia os seus resultados ao Papa – quer fossem proposições  ou um documento final – aguardando o que o Papa decidisse”.

Um sinal da mudança de perspetiva deu-a o Papa Francisco, ao convocar o Sínodo sobre a família, dividido em duas etapas, uma em 2014 e outra no ano seguinte. Grech refere que, nessa altura, houve quem zombasse da escolha do Papa, “não entendendo que com aquela escolha ele colocava a Igreja em estado de sínodo”, dizendo repetidamente apenas uma coisa: “escutem-se uns aos outros”. A base era um princípio caro à Igreja do primeiro milénio: quod omnes tangit, ab omnibus tractari et approbari debet” (o que tange a todos por todos deve ser tratado e aprovado).

 

Uma coisa pequena, quase insignificante

sinodo dos bispos, Foto sugerida pela FEC mas sem creditos

 

“Mas a inovação mais disruptiva, como costuma acontecer, foi uma coisa pequena, quase insignificante aos olhos de muitos, que não entendiam o seu alcance: foi o questionário”, recorda o cardeal. “Em vez de ser um grupo de especialistas a redigir o lineamenta, ou seja, as diretrizes da assembleia, o Papa pediu que fosse enviado um questionário a todos, por meio das conferências episcopais, sobre os temas da família.” E, deste modo simples, “foi aberta uma brecha que permitiu a entrada de todo o Povo de Deus no Sínodo”, cujas preocupações puderam, assim, entrar na elaboração do instrumentum laboris.

Estreitamente ligado com a escuta do “povo de Deus”, está uma outra linha inspiradora da ação de Francisco: o sensus fidei (o sentido da fé). O Concílio Vaticano II (1962-65) sublinhou-o no parágrafo 12 da Constituição Lumen Gentium: além da diversidade de carismas, a Igreja reconhece e afirma a infalibilidade da “totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo em matéria de fé e de costumes”.

“Ninguém como este Papa falou do sensus fidei do Povo de Deus e ninguém como ele pediu que fosse tido em devida conta”, acentuou Mario Grech. Para Francisco, “esta função do Povo de Deus está na base da construção do processo sinodal: já não um acontecimento, que tem apenas os bispos como protagonistas, mas um processo que, a partir das Igrejas particulares, vê o Povo de Deus unido ao seu Pastor, princípio de unidade da sua Igreja”.

O Papa afirma que “o Sínodo dos Bispos é o ponto de convergência deste dinamismo de escuta conduzido em todos os níveis da vida da Igreja”. E sublinha: “Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta… uma escuta recíproca na qual cada um tem algo que aprender. Fiéis, colégio episcopal, bispo de Roma: uns ouvindo os outros e todos ouvindo o Espírito, ‘o Espírito da verdade’, para saber ‘o que ele diz às Igrejas’.”

Por tudo isto, observou o cardeal secretário do Sínodo, “uma Igreja sinodal não se baseia tanto no direito de falar, mas no dever de ouvir: se soubermos ouvir o Espírito ouvindo-nos uns aos outros, também saberemos falar, dizer o que o Espírito nos sugere e poderemos crescer nesse consenso na fé que é a garantia de ‘caminharmos juntos’.”

 

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