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Berlim Manifestações

Como lutar contra a extrema-direita

Berlim Manifestações

Foto © Helena Araújo

 

Perante os ataques à Democracia – pérfida e cuidadosamente preparados – a que assistimos de momento em tantos países, perante sondagens que apresentam valores assustadores para a intenção de voto na extrema-direita, a questão que está na ordem do dia é: que fazer?

 

1. Começo pelo mais simples de todos: votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar.

Votar, enquanto podemos. É gratuito e eficaz.
Se cada um de nós convencer um absentista a ir até à cabine de voto para votar num partido democrático, a extrema-direita perde imediatamente o impacto que tem neste momento.

Votar, sim – mas cuidado com os votos de protesto:

 

 

2. Um texto de Christian Stöcker recentemente publicado no Spiegel Online apresenta algumas sugestões sobre como lidar com a extrema-direita, partindo dos resultados de estudos científicos. Sumariamente, é isto:

Em primeiro lugar, todos os partidos democráticos têm de recusar liminarmente a redução da realidade a simplificações e dicotomias ilusórias. Quando o discurso dos partidos democráticos começa a imitar o populista, quem ganha são os populistas. O problema é que, em tempos conturbados como os nossos, os populistas têm sucesso porque oferecem respostas simplistas a problemas complexos: a culpa é dos outros. “Nós contra eles”. “Populistas de direita imaginam que o mundo está dominado por uma ímpia aliança entre as elites e os grupos parasitas das classes de rendimento mais baixas, e nenhum desses grupos representam o verdadeiro povo.” (Jan-Werner Müller, especialista deste tema) Portanto: um mundo reduzido a dicotomias, dividido em dois lados antagónicos. Que os oportunistas da extrema-direita vivem desse modelo de negócio, é algo que todos sabemos. A questão é: quanto pensamento dicotómico se infiltrou já no discurso dos partidos democráticos? O autor dá um exemplo dos partidos da direita alemã: começaram a chamar “economia planificada” (ou seja, a invocar o fantasma do sistema socialista de produção) para criticar qualquer tentativa de regulação estatal que não seja conforme aos interesses dos seus eleitores. Uma outra simplificação absurda é a da ilusão que sequestra a classe média para um dos campos ideológicos, como se esta não estivesse bem distribuída por todos os partidos. (Acrescento ainda outra ideia: quando um partido de direita critica os partidos à sua esquerda usando as palavras/ideias da extrema-direita, esta contaminação do discurso conduz à contaminação do eleitorado de direita. Que acabará por votar no original, sempre mais interessante que a cópia.)

Em segundo lugar, todos os partidos democráticos têm de denunciar e criticar posições e argumentos racistas como tal – e evitar usá-los, obviamente. Identificar minorias como o problema central do país, e fantasiar que o país fica melhor se as perseguir com determinação, não é apenas um atentado à dignidade humana – é também irracional. Nenhum país vai ficar melhor se expulsar os imigrantes (ou, acrescento eu, se identificar os movimentos LGBTQ+ como ameaça e “inimigo a abater”).

Mais uma vez: ajustar o discurso dos partidos democráticos à narrativa da extrema-direita não reduz o apoio aos partidos radicais.

“A dignidade humana não é um conjuntivo” . Foto © Helena Araújo

 

Em terceiro lugar, todos os partidos democráticos têm de parar de trazer os temas da agenda da extrema-direita para o centro do debate público. Adoptar esses temas faz com que se tornem erradamente temas centrais da sociedade, quando são apenas instrumentais para a estratégia de conquista de poder da extrema-direita. Um erro gravíssimo, porque dar visibilidade mediática a um determinado tema faz crescer a base de apoio do “dono” desse tema. Claro que os partidos democráticos podem debater algumas das questões levantadas pela extrema-direita, mas nunca podem cair na tentação de rebaixar o seu discurso para o nível desta.

A propósito, dois trabalhos importantes: – “issue ownership” (John Petrocik): os partidos beneficiam directamente da frequência com que os seus temas aparecem no debate público; e os partidos da oposição beneficiam de forma desproporcional porque não têm nada a perder e têm muito a ganhar. Mais: quebrar tabus garante automaticamente publicidade mediática. – “blue-green study” (Serge Moscovici): mostraram tons de azul com diferente intensidade de luz a um grupo de pessoas, que tinham de dizer o nome da cor. Entre elas, havia algumas instruídas para dizer sempre “verde”, o que acabou por convencer parte das outras, que começaram a dizer também “verde”. No caso do estudo, bastou que 0,25% dos participantes repetissem obstinadamente uma mentira para levarem consigo 8,42% da maioria que até então identificava a cor como o azul que, de facto, era.

Aqui (acrescento eu), a ideia de cordão sanitário a todos os níveis é fundamental. Mais uma vez: quando os partidos democráticos se deixam contaminar de alguma forma pelos populistas, são sempre estes últimos que ficam a ganhar. Os políticos sérios têm de se distanciar da extrema-direita, do seu estilo de debate e dos seus temas. Têm de ser o adulto na sala, que mantém os temas realmente importantes para a sociedade no centro do debate público, em vez de permitir que este seja dominado pelas parangonas dos provocadores. Vale para os políticos, e também para os jornalistas e os cidadãos que se movem nas redes sociais.

Em quarto lugar, em vez de adoptar os temas dos populistas, os partidos democráticos devem desmascarar e tornar muito visível a falta de credibilidade, a hipocrisia, as mentiras e a charlatanice dos populistas.

Sobre este quarto ponto, acrescento apenas que os jornalistas também têm um papel muito importante a desempenhar.

Retratados: Alice Seidel e Bjorn Höcke, do partido populista da extrema-direita alemã. Na base: “pessoas que recusam integrar-se na nossa sociedade” (alusão a um dos motivos considerados pela extrema-direita para expulsar cidadãos alemães descendentes de estrangeiros). À esquerda: “mais dinheiro para os programas de apoio à saída de grupos radicais”. À direita: “Pregador que incita ao ódio” (alusão a alguns pregadores radicais em mesquitas alemãs). Foto © Helena Araújo

 

Em quinto lugar, e esta é uma tarefa para toda a sociedade, e não apenas para os partidos: sempre que haja essa oportunidade, deixar bem claro que o apoio às posições dos populistas de extrema-direita é algo considerado recriminável pela sociedade.

Berlim. Manifestações

“Não temos nada contra estrangeiros, mas… Nem mas, nem meio mas!” Foto © Helena Araújo

 

3. E assim chegamos ao último ponto deste post: a importância da sociedade civil para travar a deriva populista de uma minoria que tem sabido dominar habilmente o espaço mediático. Na Alemanha, há cerca de um mês que as manifestações contra a extrema-direita não param. Já é, de longe, a maior onda de protestos de sempre na História deste país.

Por estes dias, penso com enorme admiração nos manifestantes dos Estados onde a extrema-direita está prestes a chegar ao poder. Coragem civil é isto: pessoas de cidades pequenas, onde se acaba por saber onde mora cada um, que vão para a rua participar em manifestações contra a extrema-direita, apesar de andarem por ali bandos de neonazis a rondar.

Em Berlim, pelo contrário, é uma festa. Há duas semanas, participei aqui na primeira destas manifestações. E no sábado passado também, porque a Democracia precisa de todos e também porque várias centenas de milhares de manifestantes com cartazes feitos à mão é algo lindo de se ver: uma pessoa já começa a comover-se no comboio bem mais cheio que de costume, já tem dificuldade em controlar a emoção na estação central, ao ver aquelas plataformas, aquelas escadas, aquelas ruas, aquelas pontes e aquelas praças invadidas por uma multidão “com ideias de todas as cores menos castanho”, unida pelo amor à Democracia.

Berlim encheu-se de novo de cartazes com mensagens pessoais, que as pessoas pensaram e desenharam em casa, em placas de cartão. Já partilhei alguns acima, com a respectiva tradução.

Outros exemplos: – “Bisavós contra o fascismo!”, empunhava uma senhora velhinha. – “Dou explicações de História”, oferecia outra, sentada numa cadeira de rodas. – “AfD: Para se informar sobre os riscos e os efeitos secundários, leia um livro de História e pergunte aos seus avós” (este cartaz citava uma frase que se ouve sempre no fim da publicidade a medicamentos, “sobre os riscos e os efeitos secundários, leia a bula e pergunte ao seu médico ou ao seu farmacêutico”) – “Branco puro devia ser apenas uma cor para pintar as paredes” – “Vive sempre de tal maneira que a AfD seja contra”

Aqui chegados, regresso ao essencial: nos tempos que correm, nenhum democrata pode ficar em casa em dia de eleições.

“A resistência está a crescer”. Foto © Helena Araújo

 

Post scriptum para as pessoas que dizem “ah e tal, eles chegam ao poder e ao fim de dois meses já toda a gente percebeu que são uns incapazes”, transcrevo um discurso de Armin Laschet, da CDU:

“Alguns dizem ‘Vá, a AfD não é o NSDAP. Não exagerem!’ Pode haver quem diga ‘Não há-de ser assim tão mau…’ Foi o que pensaram as pessoas em 1933. Em Novembro de 1932, os nazis tinham perdido dois milhões de votos. Baixaram para 33%. (…) E então Hitler foi nomeado chanceler. Alguns disseram “bem, vamos nomeá-lo chanceler, em dois meses já estará a ganir, vai desmascarar-se, não tem hipótese”. Hitler só tinha dois ministros: Frick, o do Interior; e Göring. Todos os outros ministros pertenciam a partidos democráticos.  E sabem o que aconteceu durante esses dois meses, até ao dia em que ele “estaria a ganir”?
30 de Janeiro: nomeação de Hitler como chanceler
1 de Fevereiro: dissolução do Parlamento
3 de Fevereiro: Hitler afirma que quer “germanizar” a fundo, e conquistar “espaço vital” na Europa de Leste
4 de Fevereiro: limitação da liberdade da imprensa e da liberdade de expressão
22 de Fevereiro: as forças paramilitares nazis SA e SS são consideradas polícias
27 de Fevereiro: incêndio do Reichstag
5 de Março: eleições; os nazis continuam a não ter maioria absoluta
11 de Março: Goebbels nomeado ministro da Propaganda
22 de Março: início da construção do campo de concentração de Dachau
23 de Março: lei da Concessão de Plenos Poderes (que esvaziou o poder do Parlamento) – fim da Democracia na Alemanha.
Em dois meses, destruíram tudo. É por isso que nenhum antidemocrata pode ocupar um lugar do Estado. Vão usar essa posição para se verem livres da Democracia. E nós não o vamos permitir!”

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado. 

 

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