“Como nos comportamos à porta do Inferno?”

| 11 Mar 19 | Cinema, televisão e média, Cultura e artes, Últimas

Por uma coincidência involuntária – de facto, só o soube depois – fui ver este filme no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se celebra anualmente a 27 de Janeiro, o mesmo dia em que, em 1945, foram abertos os portões de Auschwitz e os prisioneiros começaram a ser libertados; e em que, cada ano, somos lembrados de que não podemos esquecer que o inferno pode sempre ser nesta terra.“Não nos esqueçamos das vítimas do Holocausto, o seu sofrimento indescritível continua a gritar à humanidade: todos somos irmãos”, escrevia o papa no Twiter, nesse dia.

Em Trânsito não é sobre isso, mas passa-se em França quando esta está ocupada, e retrata as tentativas de muitos refugiados para navegarem até ao outro lado do mundo, onde poderão viver em liberdade.

A primeira estranheza do filme é a mistura do passado com o presente: os personagens são do passado, mas o ‘resto’ é tudo presente. Como quem sugere que, afinal, vivemos os mesmos medos e perigos, que o mundo continua a ser um ‘inferno’. É assim que começa um livro, escrito à máquina numas folhas e que o autor não chegou a editar. Estará ainda guardado pelo dono daquele café de Marselha, o Ventoux? Nunca o saberemos. O que sabemos, dito pelo próprio realizador (Christian Petzold), é que o filme “é um espelho para a nossa condição actual de europeus, o fascismo húngaro, o fascismo polaco, o Salvini em Itália. Perante isto, o que sinto é exactamente: vergonha” (Entrevista ao Ípsilon/Público, 25 de Janeiro).

Os refugiados continuam a ser demais, hoje, enredados nas mesmas burocracias desumanizadoras. A propósito, António Vitorino, director-geral da Organização Internacional das Migrações, no mesmo jornal e dia, dava uma entrevista, onde se dizia que “são 260 milhões as pessoas em trânsito no mundo, entre refugiados, migrantes económicos e deslocados no interior do mesmo país”.

A segunda estranheza é a música com que o filme termina, quando a tela fica negra e aparecem os créditos: Caminho para lado nenhum. Também esta é “moderna” demais, mas traduz a mesma sensação de que não há saída. Em contraste, está uma outra canção, antiga, que a mãe costumava cantar quando o protagonista era criança, para ele adormecer, e que falava, nostalgicamente do contrário: voltar a casa. Um refugiado pouco mais leva, na bagagem, do que as memórias. Mas esse tempo passou e tudo se desmorona, desaparece ou morre, à volta dele. E ele continua sozinho no mesmo café, quando a porta se abre, uma vez mais, e ele parece esboçar um sorriso. Será Criss que entra? Se for, talvez então haja algum futuro e o amor e a ternura ainda tenham lugar nesta terra.

Adaptado de um romance da escritora judia Anna Seghers, publicado em 1944, e que se baseia na sua própria experiência a seguir à invasão nazi de França, Em Trânsitoé um filme muito interessante e actual, que vale a pena ver. Para além dos actores e interpretações, procura responder a esta pergunta: como conservar a humanidade em situações de crise total? E esta é uma pergunta para a qual não podemos – todos – deixar de procurar uma boa resposta.

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos; o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Março 2019)

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