A pandemia alterou a nossa vida de cima a baixo em todos os sentidos, tanto na vertente individual como na colectiva. Isso inclui o fenómeno religioso, embora ainda não saibamos em que medida o influencia.

“Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.” (Entrega dos símbolos da JMJ a Lisboa. Foto © Tony Neves)
Um estudo recente da Barna (criada em 1984, pesquisa tendências culturais relacionadas com valores, crenças, atitudes e comportamentos), a partir de dados recolhidos entre Abril e Maio de 2020, permite algumas conclusões sobre a frequência dos serviços religiosos nos EUA face à covid-19.
Dos que se identificam como cristãos praticantes, que consideram a fé importante na sua vida, e que frequentavam as celebrações da sua comunidade de fé, antes da covid-19, mais de metade (53%) afirmam ter assistido regularmente ao culto online. Outros 34 por cento admitem ter feito streaming de um serviço religioso diferente. Mas cerca de um terço dos cristãos praticantes (32%) diz não ter assistido a qualquer serviço religioso durante o confinamento. Embora parte desses fiéis integrassem uma minoria de congregações que ainda reuniam presencialmente, parece que representam um grupo que abandonou a sua comunidade pelo menos transitoriamente.
Embora alguns respondentes tenham declarado assistir ao culto online tanto da sua comunidade como de outras, a maioria permaneceu ligada à sua igreja original. Os que frequentavam regularmente a mesma comunidade de fé antes da pandemia são significativamente mais propensos à fidelização do que aqueles que mudavam regularmente de igreja (81% para 65%). Muito poucos mudaram de igreja durante a pandemia (14%). É mais provável terem suspendido a frequência por completo durante este período (32%).
A pesquisa permite verificar um padrão geracional muito claro nos grupos de frequentadores de serviços religiosos na internet. Metade da geração dos millenials deixou de os frequentar (50%), assim como 35% da geração X e 26% dos boomers. Note-se que os grupos dos idosos e dos boomers em conjunto representam mais da metade da população cristã praticante nos Estados Unidos (56%). Embora as gerações jovens estejam mais adaptadas às rotinas e inovações digitais, a sua fraca relação com as instituições parece confirmar-se durante a era da igreja digital.
O estudo conclui que entre os cristãos praticantes que diminuíram ou interromperam completamente a frequência digital ao culto, o florescimento individual é mais limitado e carregam mais cargas emocionais. Quem manteve a ligação online à sua comunidade durante a pandemia tem mais probabilidades de concordar com a afirmação “Não estou ansioso com a minha vida, porque tenho a paz interior de Deus” (87%), contra 76% dos que interromperam. Já os cristãos praticantes que pararam de frequentar a igreja são mais propensos do que os outros a dizer que se sentem constantemente entediados (17% contra 6%) ou que se sentiam inseguros (11% contra 7%).
Todavia, a maioria dos fiéis, mesmo os que suspenderam a assistência regular aos cultos durante a pandemia, desejam o apoio de uma comunidade de fé. Por todo o país os cristãos praticantes buscam “oração e apoio emocional” (68% dos que mudaram de igreja durante a pandemia e 52% dos que permaneceram na mesma igreja) e “uma mensagem de esperança e encorajamento centrada na Bíblia” por parte da sua igreja (44% dos que permaneceram na mesma igreja, 35% todos os outros cristãos praticantes). Os investigadores detectaram ainda o grupo dos que antes da covid-19 não frequentavam a igreja e o fazem agora via online, durante a pandemia, mas não o consideraram estatisticamente significativo.
A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.
Está em curso um estudo semelhante sobre a realidade portuguesa, mas uma das evidências verificadas desde já é que os serviços religiosos na internet alcançam um auditório muito mais vasto do que as reuniões físicas alguma vez conseguiriam. E provavelmente isso contribui para contornar o velho preconceito de ser visto a entrar numa igreja não católica, que ainda pesa na mentalidade portuguesa e inibe muitos de se disporem a tal, embora não o confessem e apesar da sociedade portuguesa caminhar para uma maior heterodoxia religiosa, de acordo com os estudos já disponíveis.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.










