O português que cantou na vigília ecuménica

Como o “Cântico das Criaturas” se colou ao corpo de João e foi da rua de Assis no século XIII para a Praça de São Pedro

| 2 Out 2023

João Maria Carvalho a cantar o Cântico das Criaturas na Praça de São Pedro, sábado passado, durante a vigília ecuménica de oração pelo sínodo: um poema que está colado ao corpo”. Imagem extraída do vídeo da transmissão televisiva do Vatican Media.

 

O Cântico das Criaturas está-lhe “colado ao corpo”. Pelo facto de ter sido composto por Francisco de Assis no dialecto local da Umbria, o poema é claramente um “cântico da rua”. E quando João Maria Carvalho se viu sozinho a cantá-lo na Praça de São Pedro, perdeu a noção do espaço: entre o seu quarto em Benfica (Lisboa) e a praça, com o Papa Francisco e outros 19 líderes cristãos a assistir, “a diferença é quase nenhuma”.

João Maria Carvalho, 24 anos, foi o português que, sábado passado, cantou sozinho, a capella, o Cântico das Criaturas, composto por Francisco de Assis entre 1225-26, quando o Poverello estava já muito fragilizado pela doença (viria a morrer em 3 de Outubro de 1226).

O cântico foi um dos momentos altos da vigília de oração pelo Sínodo que nesta quarta-feira, 4, começa em Roma. Proposto ao Papa Francisco pela comunidade monástica e ecuménica de Taizé (França), a vigília teve a participação de duas dezenas de líderes cristãos – além do Papa, também responsáveis de igrejas ortodoxas e orientais, protestantes e evangélicas, luteranas e baptistas.

Um rio de diferenças inundou a Praça de São Pedro com desejos de unidade e paz

Foi, a esse nível, um acontecimento histórico: pela primeira vez, em plena Praça de São Pedro, líderes de Igrejas protestantes e evangélicas estiveram numa celebração com o Papa católico – a construção da basílica esteve por detrás da ruptura de Lutero, no século XVI, que levou à separação com o papado e à Reforma protestante. [ver 7MARGENS]

Como chegou João ao Cântico das Criaturas? Leitor diário de poesia há já vários anos, leu-o um dia na tradução publicada na Rosa do Mundo, o livro que o editor Manuel Hermínio Monteiro organizou e publicou no início do século, e que recolhe “2001 poemas para o futuro”, oriundos de diferentes tradições culturais, literárias, espirituais e filosóficas. 2

“O Cântico das Criaturas é o primeiro poema da literatura italiana. Dante não existiria sem o Cântico”, diz João Maria ao 7MARGENS, pouco antes de deixar Roma de regresso a Portugal. Oriundo de Elvas, João estudou Línguas e Literatura em Lisboa. Fez depois um mestrado em Filosofia, a partir de São João da Cruz, já deu aulas de literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e agora, na mesma faculdade, ensina português para estrangeiros.

 

Um presente, um pedido, um jogral

O jovem português junto à Basílica de São Pedro, poucas horas antes de regressar a Portugal: “Entre o meu quarto e São Pedro a diferença é quase nenhuma.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Um dia, Isabel Almeida, professora de Literatura Portuguesa e Clássica, procurou em Roma a poesia de Guido Cavalcanti, o poeta fiorentino da segunda metade do século XIII. “Não encontrou, levou-me um livro de Francisco de Assis. Foi a primeira vez que li em dialecto úmbrico”, conta.

Mas a história estava apenas a começar. Mais tarde, na Casa Velha – uma associação sediada em Ourém, que alia espiritualidade e ecologia, na linha do pensamento da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco –, João foi convidado a participar numa conversa sobre ecologia integral, onde falaria sobre o Cântico. A mesa-redonda não se realizou, porque a covid chegou à Casa Velha e obrigou várias pessoas a estarem confinadas.

Pouco depois, foi o padre jesuíta José Frazão Correia – que iria também participar na conversa –, que convidou João Carvalho a escrever um artigo para a revista Brotéria, precisamente sobre o poema de Francisco de Assis. “Li as várias biografias medievais de São Francisco (Tomás de Celano, São Boaventura…), só para chegar ao Cântico”, recorda. “Fui percebendo que o poema não era para dizer, era para cantar.” Publicou o texto “Biografia do louvor – Vida e cântico de Francisco de Assis” no número da revista de Janeiro 2021.

Voltemos atrás para dizer que a música foi também, durante uns 13 anos, objecto de estudo para João Carvalho. “Francisco de Assis costumava dizer que era um jogral de Deus. Os jograis eram só os que cantavam, estavam abaixo dos trovadores”, até na música o Poverello descobria maneira de ficar na posição de servir os outros. E o facto de ter sido composto no dialecto local da Umbria, a região italiana onde se situa Assis, converte-o num “cântico da rua”.

João começou então a tentar entoar o Cântico na sua língua original: Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le Tue creature… (Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas.) Todos os dias, de manhã cedo, levantava-se e cantava, rezando ao mesmo tempo. “Cheguei a uma fase em que a melodia já não mexia mais e andei quatro ou cinco dias a cantar igual. Só aí fixei a melodia. Fui procurando o Cântico e ele procurou-me a mim, sempre convertido em oração.”

Foi isto em Novembro e Dezembro de 2021, antes da publicação do artigo na Brotéria. João sentiu a melodia que lhe surgiu como algo que se lhe “aproximava do corpo e da voz”. Foi esse o nascimento da melodia.

Os dois últimos episódios passaram por França: em Novembro do ano passado, a coordenadora da Casa Velha, Margarida Alvim, foi a Taizé e convidou João a ir também. Num dos dias, ambos almoçaram com a comunidade dos irmãos e, no final da refeição, cantou o Cântico. “Eles ficaram tocados pela música, mas sem grandes manifestações exteriores, como é timbre da comunidade.” Finalmente, em Julho, um dos irmãos de Taizé telefonou a convidar João para cantar numa vigília de oração com o Papa. “Disse logo que sim, sem saber o que seria nem fazer muitas perguntas. Só há três ou quatro dias, aqui em Roma, é que percebi qual era o objectivo e em que contexto iria estar.

 

O Cântico “já está no corpo”

Giotto, Francisco de Assis a pregar aos pássaros: quando apareceu uma mosca, João pensou na “irmã mosca” e “que podiam vir os bichos todos”.

 

“Cantei de olhos fechados. Desse modo, há uma perda de noção do espaço. E entre o meu quarto e São Pedro a diferença é quase nenhuma”, diz, citando o Papa Francisco quando ele diz que “o tempo é superior ao espaço”. De tal modo que uma mosca que lhe aparece e a dada altura se vê nos ecrãs da transmissão não o incomodou. “Pensei que era a irmã mosca e que podiam vir os bichos todos, já nem me lembrava bem onde estava.”

João cantou de memória, sem qualquer papel. Teve a sensação de estar sozinho, desde o momento em que se encaminhou para o ambão de onde cantou. “Havia um grande espaço vazio atrás do altar, que eu atravessei já sozinho…”

Há muito tempo que João decora poemas. O Cântico das Criaturas “já está no corpo, a memória esta no coração – é isso que quer dizer ‘de cor’ e o corpo responde com outra atenção quando se canta de memória”. No final, ainda no altar exterior da basílica, e à noite, quando passeava, houve várias pessoas a agradecer-lhe a experiência – não a elogiar qualquer talento ou coisa do género. “Não me senti a fazer uma performance, estava ali a rezar e quando rezo não levo papéis.”

Ali perto, havia quem também tivesse preferido fechar os olhos enquanto escutava: Maria Ressano Garcia, 24 anos, namorada de João, fez Estudos Gerais e um mestrado em Filosofia e Belas Artes. Está também ligada à Casa Velha, onde trabalha a tempo parcial com um projecto de educação para a cidadania e ecologia integral. Identificou-se com a “grande coragem” de João em estar a cantar sozinho, sem instrumentos, mas preferiu fechar os olhos e ouvir as palavras que já ouviu cantar muitas vezes.

No artigo da Brotéria, já referido, João Maria Carvalho escreve que, pouco depois de ter composto os primeiros versos, “e encontrando-se ainda doente”, Francisco de Assis oube de um conflito entre o bispo e o podestá da cidade. Compôs, então: Laudato si, mi’ Signore,/ per quelli ke perdonano per lo tuo amore,/ et sostengo infirmitate et tribulatione./ Beati quelli ke ‘l sosterrano in pace,/ ka da te, Altissimo, sirano incoronati. (“Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti e sofrem doenças e trabalhos; benditos os que sofrerem em paz porque Tu, Altíssimo, os coroarás.”) Disse aos seus irmãos para irem cantar diante dos dois responsáveis desavindos e conta-se que estes, depois de escutarem a música, se reconciliaram.

“Francisco interessa-se vivamente pela vida política; o seu louvor não é passivo, mas acção que procura transformar a realidade”, escrevia João Carvalho. “A palavra, para Francisco, é operante. Não importa tanto aquilo que o Cântico diz quanto aquilo que ele faz. Esta é, aliás, a origem grega da palavra poesia, descendente do verbo poieîn, que significa fazer.”

João cantou depois de Wael, refugiado de Alepo (Síria) ter contado como adoptou Itália como a sua casa e apelado a “quebrar barreiras”; e de Daniela, de Bogotá (Colômbia) ter recordado os cinco milhões de deslocados colombianos que a guerra civil provocou e que vivem fora do país; enquanto João iniciava o canto, Wael e Daniela depositaram um colete salva-vidas e um ramo de flores junto da cruz – o “Crucifixo de São Damião”, diante do qual Francisco de Assis se converteu. E assim a poesia se fez, também a partir das tragédias humanas.

Laudate et benedicete mi’ Signore’ et ringratiate et serviateli cum grande humilitate. “Louvai e bendizei ao meu Senhor e dai-lhe graças e servi-o na máxima humildade.” Diante de 20 mil ou 30 mil pessoas, numa praça, como se não houvesse ninguém, foi poesia que se fez.

 

(A seguir pode escutar-se o vídeo com João Maria Carvalho a cantar o Cântico das Criaturas)

 

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