Como poderei suportar o que vi…?

| 13 Jul 2023

Campo de Verão para 90 jovens no Líbano apoiado pela AIS, Agosto de 2022. Foto © ACN/AIS

 

Uma suspeita que tenho, a partir da observação reflexiva que vou fazendo sobre as diversas comunidades cristãs que conheço, é que muitas delas parece apresentarem sintomas inquietantes de linfedema litúrgico, caracterizado por edemas rituais, inchaços devocionais e protuberâncias cultuais, junto com a prática de um sacramentalismo consumista e, em situações mais graves, uma procura imparável de revelações privadas, teorias da conspiração, fenómenos extravagantes e milagres mirabolantes.

Realmente, algumas paróquias não passam de empresas fornecedoras de cultos e festas sacramentais, ou têm vindo a ser transformadas em firmas especializadas em organização de eventos identitários ou de animação, como são jornadas, acampamentos, peregrinações. À primeira vista, nada disto se me afigura errado, pois olhando somente a Igreja enquanto estrutura religiosa, parece ser essa a sua função: se tenho necessidade de um serviço religioso sei onde me dirigir para o contratar, podendo ser um baptismo, um casamento, um funeral, uma primeira comunhão, um crisma ou umas missas pelos defuntos. Em troca, contribuo para as despesas do culto e a sustentação do clero.

No entanto, conseguirão estas estruturas responder ainda aos desafios do Evangelho? Será que estarão suficientemente impregnadas do espírito evangélico?

Quando a mim próprio, que frequento e colaboro nestas estruturas, não andarei a alimentar a prática de cultos com um pendor mágico, com a intenção, consciente ou inconsciente, de levar a Divindade a fazer por mim aquilo que é da minha responsabilidade? Não andarei a tomar Deus como uma causa segunda, manipulável, repetindo rezas, chantageando-O para que faça a minha vontade? Não haverá em mim uma propensão a viver tranquilamente uma esquizofrenia espiritual em que o que celebro na liturgia nada ou pouco tem a ver com a minha vida, os meus valores, as minhas opções de vida, o sentido das minhas acções e das minhas escolhas?

Há quem tente curar esta paranoia mental, sonhando com “novas” éticas, e há quem a vá vivendo em forma de ateísmo prático ou de infantilismo saltitante e emocional, agarrado a historietas mais ou menos piedosas em que, entretanto, é transformada a Palavra de Deus.

No fim de contas e resumidamente, na minha rotina de prática religiosa, não me terei esquecido demasiado rapidamente que a misericórdia e a caridade valem mais do que todos os holocaustos e sacrifícios e que não se está longe do Reino de Deus quando se ama a Deus e ao próximo, e a Deus no próximo, na vida intensa do dia-a-dia (Mc 12, 28-34)? É que é este o novo culto que Jesus veio estabelecer: «Eis que venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. (Carta aos Hebreus 10,9). Com Ele, o «Eis-me aqui» torna-se, pois, a resposta profunda e verdadeiramente cultual que o rosto do outro, onde perpassa a presença do Transcendente, me chama a dar. (Cf. Emmanuel Lévinas). É este o culto dos novos tempos que Jesus veio inaugurar: os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (João 4,23), espírito e verdade agindo em mim, espírito e verdade quando me dou em prol do outro e espírito e verdade na relação com Deus presente em mim e no outro.

IV Festival de música escuteira no Mosteiro de São Tomé, Al Hassaheh, Síria, em Setembro de 2022. Foto © ACN/AIS

 

No entanto, quantas vezes a prática pastoral aparece reduzida à folha-excel em que tudo anda à volta de números: quantas crianças na catequese, quantas primeiras comunhões, profissões de fé e crismas! E as reuniões a todas as horas! Pergunto inclusive: será o maior ou menor número de jovens que participarem na próxima Jornada Mundial da Juventude que ditará as promoções na hierarquia? E permitir-se-ão dormir tranquilamente alguns bispos ao continuarem a ver cheio o santuário de Fátima no 13 de Maio?

Atrevo-me mesmo a afirmar que é toda esta mentalidade burocrata e de funcionalismo cultual, em conjunto com as liturgias de autopromoção, as relações analogicamente endogâmicas, de nepotismo e subserviência, do controlo de consciências, que promove a mediocridade em alguns âmbitos da Igreja, alimenta a cultura do abuso de poder e do assédio moral e, no extremo, fabrica um húmus propício ao surgimento da figura obscura, obscena e criminosa do abusador sexual.

Se a liturgia – em português ou em latim, versus Deum ou versus populum, de Pio V ou Paulo VI – não servir para celebrar a ressurreição de Jesus a acontecer na vida de todos os dias, nas realidades quotidianas, no bem-querer, no sacrifício, no perdão, na tarefa desafiante da humanização, apesar da morte, do sofrimento e do egoísmo, não passará de um conjunto de cultos vazios, de espectáculos de muito baixa qualidade, de palavras ruminadas sem sentido, de rituais com pretensão mágica.

Estou serenamente convencido de que a Eucaristia e as diferentes práticas religiosas só servem ao louvor de Deus, quando, ao contrário do rico Epulão que não dava sequer pela existência de Lázaro… ou do sacerdote e do levita que não se aproximaram do caído na valeta para não se profanarem…, buscam responder à evangélica e tangível inquietação de quem existencialmente vê a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir? (Sophia de Mello Breyner Andresen, “Os Três Reis do Oriente”, in Contos Exemplares).

 

Santos Tereso é licenciado em Filologia Clássica, Filosofia e Teologia e está a finalizar o Mestrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Neste momento, vive em Itália.

 

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