Diz o Google que “Tarab (طرب) é um termo árabe que descreve um estado de êxtase, arrebatamento emocional ou enlevo provocado intensamente pela música e poesia. Não é apenas ouvir, mas sentir profundamente a música, criando uma conexão mística entre artista e público, muitas vezes levando a um estado de transe ou graça.”

“Tarab é um termo árabe que descreve um estado de êxtase, arrebatamento emocional ou enlevo provocado intensamente pela música e poesia.” DDD – Festival Dias da Dança 2026. Foto retirada do vídeo.
É também o nome de um espetáculo, de porta aberta e grátis, que fechou o DDD – Festival Dias da Dança 2026, há umas semanas, no Porto. Com coregrafia de Éric Minh Cuong Castaing e música de Rayess Bek, mais do que um espetáculo, Tarab é uma celebração que envolve seis bailarinos profissionais do Egito, Palestina e Líbano, dezenas de performers voluntários, que aderem ao espetáculo realizando uma oficina prévia, e o público que aparece no dia do evento celebrativo.
No caso do Porto, o encontro foi marcado para o Silo Auto, um parque de estacionamento icónico da cidade, e realizado dentro deste, no sétimo andar.
Às 21h00, o público subiu os vários lanços de escadas até ao topo e foi-se dispondo pelo espaço. Na introdução ao espetáculo, os bailarinos apresentaram-se e fizeram questão de pedir ao público que se aproximasse do palco, não deixando espaços vazios destinados ao que estava para acontecer, porque desde o início o espetáculo seria feito com todos.

“Os bailarinos ensaiavam sequências de movimentos que quem estava por perto podia reproduzir e a coreografia coletiva foi-se fazendo destes pequenos nichos de dança e das inúmeras improvisações que aconteciam pelo meio.” Tarab, DDD – Festival Dias da Dança 2026. Foto retirada do vídeo.
Já não me comovia desta forma com um espetáculo há muito tempo e, ainda há mais tempo, não dançava sem parar durante duas horas e meia. Ombro a ombro com centenas de pessoas, todas igualmente afogueadas com tanta presença humana, mas alegres e respeitadoras na partilha.
A maioria do público era jovem, na faixa etária dos 20 anos, mas havia uns quantos participantes mais velhos, e alguns mais novos, e inspiradoramente entusiásticos. Como um casal com mais de 70, em que o homem agarrava alegremente o braço da mulher e juntos rodopiavam. Ou lhe punha o braço em redor, protetor, quando o ritmo dos bailarinos em redor acelerava mais do que a conta. Ou uma criança de cerca de quatro anos, que volta e meia disparava a correr no meio de toda aquela gente e fez companhia aos músicos no palco. Muitos e muitos jovens de corpos soltos, a aninhar-se quando os artistas abriram espaço para encontros de vozes e palavras em árabe, que poucos devem ter sabido traduzir quanto ao significado, mas acolhido enquanto música.
O público foi-se esquecendo do papel de espectador que trazia de casa e apropriou-se do espaço, entrando no movimento.
Os bailarinos ensaiavam sequências de movimentos que quem estava por perto podia reproduzir e a coreografia coletiva foi-se fazendo destes pequenos nichos de dança e das inúmeras improvisações que aconteciam pelo meio.
Algumas notas sensoriais. Os ritmos tradicionais das danças do Médio Oriente enlaçados nas batidas eletrónicas. Ondas de suor atingiam as narinas repentinamente, para lembrar que estar com outros não é asséptico, como um post de Instagram. Pode até ser desconfortável. E estas danças pedem mãos dadas.

“Ainda estão vivos. A vida celebrou-se no meio de muitos, de keffiyeh em punho, a dançar pelos ares.” Tarab, DDD – Festival Dias da Dança 2026. Foto retirada do vídeo.
No final da noite, o nariz cheio de fuligem levantada do chão e das paredes de um parque de estacionamento com décadas de restos de combustão acumulados. Sempre o petróleo a meter-se na história.
Notas emotivas. A alegria de dançar no meio do descalabro e da violência trituradora.
Ainda estamos vivos, disse esta festa.
Ainda estão vivos. A vida celebrou-se no meio de muitos, de keffiyeh em punho, a dançar pelos ares.
Sara Leão é mediadora escolar.
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