Como reencantar o mundo depois do coronavírus?

| 12 Abr 20

(A propósito do novo livro de Serge Latouche)

É muito curioso notar como a palavra “viral” já faz parte do nosso vocabulário quotidiano de hiperconectados há algum tempo. Sobretudo na adolescência, no mundo da música e do cinema, do instagram e do facebook, dos youtubers e dos influencers, mas também na política, no desporto e na economia, todos aspiram a criar algo que se torne “viral”, isto é, que contagie ou conquiste o sorriso, a carteira ou a admiração de todos.

A viralidade faz parte do nosso ambiente, para exaltar e depois, logo depois, maltratar e destruir. Tudo o que procede por contágio, precipitação, depois de um início fulgurante e cintilante, ligado ao prazer, degenera numa explosão mortífera. Numa entrevista telefónica (virus oblige!) a um jornal italiano a psicanalista e filósofa búlgara Julia Kristeva, francesa por adoção, dá como exemplo destes movimentos que se levantam e em seguida destroem os gillet jaune (coletes amarelos) e os black bloc. “A aceleração da nossa civilização chegou a um estádio viral e hoje esta metáfora virou-nos do avesso e instalou-se na realidade, porque é uma ameaça não apenas externa, mas também interior. Talvez não tenhamos suficientes defesas imunitárias e o perigo está também dentro de nós”.

É neste contexto, e agora que nos chegam frágeis sinais de uma luz ao fundo do túnel, que é preciso pensar no “depois de tudo isto”.

Serge Latouche é um economista e filósofo francês que nasceu em 1940. O título deste meu artigo retoma o seu mais novo livro Comment réenchanter le monde: La décroissance et le sacré (Bibliothèque Rivages, 27 mars 2019, 136 páginas) e as palavras chave do seu pensamento e combate: DECRESCIMENTO e DOM.

Os seus livros são bem elucidativos deste programa. São raras as traduções em português e as que há são do Brasil. Mas cito alguns títulos, como exemplo, em tradução livre: Como sair da sociedade dos consumos. Cursos e percursos do decrescimento (2011); Para uma abundância frugal. Equívocos e polémicas sobre o decrescimento (2012); Para onde vai o mundo? Um decénio à beira da catástrofe (2013); A economia é uma mentira. Como dei conta que o mundo estava a cavar a sua sepultura (2014); Pequeno tratado do decrescimento sereno (2008); O decrescimento antes do decrescimento. Precursores e companheiros de estrada (2016); O planeta dos náufragos. Ensaio sobre o depois do desenvolvimento (2017).

O seu pensamento, em síntese, é o seguinte: a economia ocidental tal como a conhecemos, isto é, uma voragem acelerada de crescimento, está fatalmente destinada ao colapso. É urgente, de consequência, uma economia alternativa, a que ele chama, precisamente, economia do decrescimento. Serge Latouche urge a sociedade à “objeção de crescimento”, opondo-se a essa “religião dominante do crescimento”, como se fosse o princípio, o meio e o fim das nossas vidas. Uma economia nestes termos, que tem no aumento incessante do PIB o seu ídolo, como um gigante em permanente corrida que, enquanto corre, esmaga tudo o que encontra pelo caminho, sem se dar conta dos recursos limitados do ponto de vista ecológico e social, está destinada a condenar a sociedade a um estilo de vida frenético, de constante insatisfação, de grande riqueza mas impregnada de desigualdades e injustiças.

O projeto de décroissance, de decrescimento, desejado por Serge Latouche constitui, assim, uma alternativa não apenas económica, mas também existencial, que permitirá sair radicalmente deste sistema destrutivo. Não é por acaso que ele utiliza a expressão “decrescimento sereno”. A intuição do decrescimento, de facto, quer uma retirada do PIB em favor de um aumento do bem-estar: bem-estar entendido como um bien vivre que leva em consideração aspetos intangíveis e normalmente “esquecidos”, como a cultura, o lazer, as relações humanas, a introspeção e a espiritualidade.

Não há nada aqui de nostálgico. A filosofia do dom e do decrescimento deve ser acompanhada por mudanças qualitativas, possibilitadas por técnicas e tecnologias inovadoras, mas respeitadoras da equidade ecológica e social.

A desaceleração, o menos que é mais, a limitação e o decrescimento dos nossos níveis de consumo e produção não levarão a uma vida de privação e esforço, mas a uma redescoberta da criatividade e do convívio, de modo a oferecer a todos a oportunidade de conduzir uma vida digna e menos stressante do que a atual. Para conseguir isso, Serge Latouche propõe oito pontos programáticos, conhecidos como os “oito erres”: reavaliar, reconceptualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar.

No seu último livro sobre o reencantar o mundo, Serge Latouche fala da surpreendente encíclica do Papa Francisco Laudato si’ como uma possibilidade de compatibilizar o discurso sobre o decrescimento e a religião tradicional.

Mas dessacralizar o crescimento significa, de algum modo, sacralizar o discurso do decrescimento, pergunta Latouche? E responde: “é provável, com efeito, que mesmo se subsistissem as condições objetivas para a construção de uma sociedade do decrescimento, esta não poderia efetivamente realizar-se sem um certo reencantamento do mundo. Mas é preciso entender isto no sentido de um emergir de uma nova mitologia e auspicar o regresso dos deuses, ou é suficiente restabelecer a nossa capacidade de maravilhar-se de fronte à beleza do mundo e fazer apelo a uma qualquer espécie de espiritualidade laica?”. 

Serge Latouche, Comment réenchanter le monde: La décroissance et le sacré, Bibliothèque Rivages, 27 mars 2019, 136 páginas.

Serge Latouche, Comme reincantare il mondo. La decrescita e il sacro, Bollati Boringhieri, 2020, 93 páginas.

 

Mário Rui de Oliveira é padre e autor de O Livro da Consolação

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