Como rezar fez cair um Muro – Os acontecimentos em Berlim no Outono de 1989

| 8 Nov 19

O pastor Christian Führer esteve no centro das orações na Nikolaikirche em Leipzig, que deram origem a um movimento não-violento de protesto de cristãos, que culminou com a queda do Muro de Berlim. Esta é a narração dos factos de 1989, contados pelo próprio. 

Comemoração dos 30 anos da queda do Muro, em Novembro de 2019: imagens da alegria de 1989 projectadas na fachada do Parlamento Alemão. Foto © Helena Araújo

 

A iniciativa “Nikolaikirche – aberta para todos” tornou-se no Outono de 1989 uma realidade que nos surpreendeu a todos. Acabou por reunir pessoas de toda a antiga RDA [Repúlida Democrática da Alemanha]: pessoas que queriam sair do país e curiosos, críticos do regime e membros da Stasi, funcionários da Igreja e membros do SED [partido comunista], cristãos e não cristãos – todos eles reunidos sob os braços abertos do JESUS CRISTO crucificado e ressuscitado.

Tendo em conta a realidade política entre 1949 e 1989, a fantasia não bastava para imaginar uma situação destas. No entanto, era a realidade. Exactamente 450 anos depois da introdução da Reforma em Leipzig, 176 anos depois da Batalha das Nações perto de Leipzig – era de novo em Leipzig.

A partir de 8 de Maio de 1989, a Polícia começou a controlar e bloquear as ruas que davam acesso à Nikolaikirche. Mais tarde, passaram a controlar até as saídas da autoestrada, que chegavam a ser bloqueadas na hora em que decorria a Oração para a Paz. Os organismos estatais aumentaram a pressão para acabar com a Oração para a Paz, ou ao menos para a realizar nos arredores da cidade. Segunda-feira após segunda-feira havia capturas ou “transportes” ligados a esta iniciativa. No entanto, o número de participantes crescia de tal modo que os 2.000 lugares da igreja não eram suficientes.

E assim chegámos àquele 9 de Outubro decisivo.

Que dia!

O Exército, os piquetes de luta, a Polícia e os agentes à civil da Stasi tinham sido convocados, criando um cenário de agressão assustador. Mas o primeiro impulso já tinha sido dado no dia 7 de Outubro, data do 40º aniversário da RDA.

Nesse dia, durante 10 horas, pessoas de uniforme bateram em pessoas desarmadas e que não se defendiam, e levaram-nas em camiões para outros lugares. Centenas delas foram amontoadas em estábulos de cavalos, em Markkleeberg. Também tinha sido publicado oportunamente um artigo no jornal, afirmando que era finalmente altura de acabar com a contra-revolução, “com armas na mão, se necessário for”.

Era essa a situação no dia 9 de Outubro.

Além disso, tinham sido convocados mil membros do SED para se sentarem na Nikolaikirche. Às duas da tarde, já 600 deles estavam na igreja.

Tinham uma tarefa a cumprir, tal como os habituais e numerosos visitantes que eram membros da Stasi. Mas o que ninguém planeou, aquilo em que ninguém pensou: estas pessoas estavam expostas à palavra e aos efeitos do Evangelho!

Sempre achei muito positivo que todos estes membros da Stasi ouvissem as Bem-Aventuranças do sermão da montanha, segunda-feira após segunda-feira. Em que outro lugar teriam oportunidade de as ouvir?

E assim, todas estas pessoas, e entre elas os camaradas do SED, ouviram o Evangelho de JESUS, ESSE que elas não conheciam, numa igreja com a qual não tinham nada a ver.

Ouviam sobre JESUS,

que dizia: “Felizes os pobres!” e não: Quem tem dinheiro é feliz.

que dizia: “Ama os teus inimigos!” e não: Destrói os que se te opõem.

que dizia: “Os primeiros serão os últimos!” e não: Fica tudo como está.

que dizia: “Quem entrega a sua vida e a perde, há-de ganhá-la!” e não: Sede cautelosos.

que dizia: “Vós sois o sal!” e não: Vós sois a nata.

Assim decorreu esta Oração para a Paz, no meio de um silêncio e uma concentração incríveis.

Pouco antes do final, antes da bênção do bispo, foi ainda lido o texto do professor Masur e de outros, que apoiava o nosso apelo de não-violência.

A comunhão numa situação tão ameaçadora, a unidade entre Igreja e Cultura, Música e Evangelho, também foi muito importante. A Oração para a Paz terminou com a bênção do bispo e a interpelação insistente para a não-violência.

E quando nós, mais de 2.000 pessoas, saímos da igreja – nunca hei-de esquecer este momento –, havia dezenas de milhares à nossa espera lá fora, na praça. Tinham velas nas mãos. E quando se carrega uma vela, precisa-se das duas mãos. Temos de cuidar da luz, impedir que ela se apague. É impossível segurar simultaneamente numa pedra ou num cacete.

E o milagre aconteceu.

O ESPÍRITO de não-violência de JESUS alcançou as massas e tornou-se um poder material e pacífico. Os membros do Exército, dos piquetes de luta e da Polícia foram incluídos, integrados nas conversas, e retiraram-se.

Foi uma noite no ESPÍRITO do nosso SENHOR JESUS, porque não houve vencedores nem vencidos, ninguém triunfou sobre os outros, ninguém perdeu a face.

Havia apenas um extraordinário sentimento de alívio.

O movimento de não-violência durou apenas algumas semanas, e no entanto conduziu à queda da ditadura ideológica e do partido.

“ELE derruba os poderosos do seu trono e eleva os humildes” – “Deve acontecer não pelo exército ou pela força, mas segundo o MEU ESPÍRITO, diz o SENHOR.”

Foi essa a experiência que fizemos. Milhares nas igrejas. Centenas de milhares no centro da cidade.

Nem um vidro partido. A experiência incrível do poder da não-violência.

Sindermann, que fazia parte do comité central da SED, disse pouco antes da sua morte: “Tínhamos planeado tudo. Estávamos preparados para tudo. Excepto para velas e orações.”

As Orações para a Paz continuam. Um grupo “Esperança para os que querem sair do país” já não é necessário. Em compensação, é cada vez mais urgente um “Esperança para desempregados”, pelo que foi criada na Nikolaikirche uma Iniciativa para Pessoas sem Trabalho.

A Nikolaikirche continua a ser o que era: uma casa de JESUS CRISTO, uma casa de esperança, um refúgio e uma célula de mudança.

 

Texto original foi publicado no Jornal dos Trabalhadores Evangélicos (Protestantes); a versão portuguesa foi publicada inicialmente a 14 de Novembro de no blogue Terra da Alegria. Tradução de Helena Araújo

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